Três Anexos às Memórias da Rua do Ouvidor

Como depois de dar por terminadas as Memórias da Rua do Ouvidor fui acusado de três omissões de casas célebres, e para remissão desse pecado tenho de ajuntar à obra três anexos. Como no anexo I trato de um livreiro notável, e acho azada ocasião para referir o interessante caso que levou o ilustre Sales Torres Homem, depois Visconde de Inhomirim, a entrar na vida política contra sua vontade. Como no anexo II me ocupo da loja de cabeleireiro Cabeça de Ouro que se tomou célebre por formosíssima trança de cabelos que media na vidraça onde foi exposta onze palmos e mais algumas polegadas (dois metros e meio); digo donde era a senhora, a quem se cortaram esses maravilhosos cabelos, e onde eles foram parar. Como enfim deixo adiado o anexo III por não caber no folhetim, que já ficou longo com os dois primeiros.

Bem disse eu, muitas omissões haviam de ser notadas nas Memórias da Rua do Ouvidor!

Terminando o Capítulo 17 dessas Memórias tomei larga respiração, escrevendo a palavra mais suave que os autores conhecem:

FIM

Eis-me hoje obrigado a voltar ao Folhetim do Jornal do Commercio para que me absolvam de três esquecimentos involuntários pelos quais me chamaram a contas.

Mas eu não me sei arranjar com a palavra Fim que escrevi, acabando o Capítulo 17, e com um novo capítulo depois do Fim, senão tomando o exemplo e seguindo a lição dos ministros de Estado, que depois do Fim dos seus relatórios ajuntam sempre a estes os anexos.

Não tremem, porém, de medo os meus leitores; os anexos das memórias da Rua do Ouvidor não hão de ser dez vezes maiores do que o corpo da obra, como se observa nos excelentíssimos relatórios.

Recebi três protestos, três obsequiosas censuras, três acetinadas e penhoradoras acusações de esquecimento de outras tantas casas notáveis, e, fazendo confissão do meu involuntário descuido, vou corrigi-lo neste capítulo de anexos.

E tenho para mim que neste reconhecimento e na emenda do meu erro dou prova de exemplar virtude, pois que vivo em tempos em que a vaidade humana tomou dogma o quod scripsi, scripsi de Pilatos, sendo todos os homens infalíveis como o Papa.

Leitores pacientíssimos! não há recurso; é indispensável voltar a fazer viagem pela Rua do Ouvidor.

Mas que viagem!... ao que vos convido, ou quase que vos obrigo, não é mais a viajar, é a dar três grandes saltos, porque cada uma das casas notáveis esquecidas está em quarteirão distinto.

Ainda bem que a ginástica já entra seriamente no sistema de educação pública, e na província do Rio de Janeiro adotou-se até a ginástica apropriada para o sexo feminino na escola normal.

Declaro em defesa prévia que não acabo de fazer censura, nem epigrama. Eu reconheço a conveniência e aplaudo a aplicação do ensino da ginástica.

Portanto, meus leitores, estamos habilitados para dar sem perigo três saltos em honra dos três anexos.

Anexo I

A casa hoje ocupada pela livraria dos Srs. Barbosa & Irmão, e sita na Rua do Ouvidor, entre as Nova do Ouvidor e dos Ourives, foi justificadamente célebre, sendo também livraria de Mongie.

Filho de livreiro notável de igual nome, estabelecido em Paris e ali muito conhecido e estimado editor, que as bibliografias não esquecerão, Mongie veio para o Rio de Janeiro, e na casa mencionada, defronte da então florescente loja de perfumarias dos Desmarais, abriu em 1832 livraria, cuja importância era grande e muito explicável pelas relações com a casa paterna, em França.

Mongie tinha instrução variada, trato ameno e excelente caráter. A sua livraria muito rica de boas obras vendidas a preço que não o prejudicava, mas não aturdia o comprador, foi preciosa fonte de civilização, e era freqüentada pelos homens de letras e pelos cultivadores das ciências, que achavam nela os melhores livros de publicação recente e o gozo da conversação ilustrada e espirituosa com o livreiro.

Contemporâneo do Albino Jordão, Mongie não tinha em menos preço a loja de livros, em grande parte velhos, e de brochuras antigas e modernas; pelo contrário, muitas vezes procurava o patriarca dos nossos alfarrabistas, entretinha-o quanto podia e comprava-lhe livros antigos e folhetos, cuja matéria excitava sua curiosidade.

Muito amigo do seu vizinho fronteiro, Mr. Desmarais, que ainda felizmente vive às vezes brincando e aludindo à sala de cabeleireiro da loja do perfumista, dizia-lhe em ótimo francês:

— Você adorna as cabeças por fora, e eu as adorno por dentro; creio que sou mais útil, mas você tem mais cabeças a adornar.

E o Desmarais respondia:

— Concordo, mas troquemos as lojas com a condição de trocarmos também as cabeças, não as dos fregueses, sim as nossas.

A loja de livros de Mongie foi a mais considerável do seu tempo, e ponto de reunião de sábios e de literatos, que ali tinham por segura palestra animada, interessante e espirituosa, na qual o dono do estabelecimento era excelente e estimado companheiro.

Um dos mais assíduos freqüentadores da loja de livros de Mongie de 1836 em diante foi aquele homem de inteligência superior que se chamou Francisco de Sales Torres Homem, e em seus últimos anos Visconde de Inhomirim.

Vem aqui a propósito curiosa informação que não deve escapar aos futuros biógrafos do ilustre visconde.

Sales Torres Homem, chegado da Europa creio que em principio de 1837, ardia por tomar posição e reaparecer na imprensa política do Rio de Janeiro, e apenas se continha (eu lho ouvi por vezes), esperando por Evaristo Ferreira da Veiga, que estava então em Minas Gerais, e que era o estadista de sua maior confiança, de cujos conselhos não queria prescindir.

Evaristo voltou de Minas Gerais a 2 de maio de 1837 e dez dias depois faleceu - no Rio de Janeiro.

Sales Torres Homem achou-se privado do conselheiro patriota e deliberou por si, publicando o Jornal dos Debates, no qual teve por colaboradores os seus contemporâneos de estudos em França, os Srs. João Manoel Pereira da Silva (atual conselheiro), Domingos Gonçalves de Magalhães (depois Visconde de Araguaia) e Manoel de Araújo Porto Alegre (ulteriormente Barão de Santo Ângelo).

O Jornal dos Debates, periódico de doutrinas liberais, mas em oposição ao governo do regente Padre Feijó, produzia por excelente e apurada redação notável impressão no ânimo do povo.

Sales Torres Homem, o redator principal da parte política do Jornal dos Debates, ganhava crédito e firmava opinião.

Um dia, no mesmo ano de 1837, Mongie conversando em sua loja com Sales Torres Homem, disse-lhe, aludindo aos seus eloqüentes artigos de oposição no Jornal dos Debates:

— O senhor teve a felicidade de seguir acertadamente a sua vocação; nasceu predestinado para fulgir na imprensa política e para elevar-se por ela às mais altas posições no seu país.

Sales pôs-se a rir e depois respondeu:

— E se eu te dissesse que sou político por violência feita à minha vontade e por imposições arrebatadas de minha própria vaidade?...

— A pesar seu?

— Ao menos contra a mais decidida negação à política, e contra assentados planos do futuro de minha vida.

— O fato me pareceria, não digo singular, mas com certeza interessante.

— Pois eu lhe revelo o que ainda ninguém me ouviu, e que nem por isso lho digo com pueris reservas de segredo.

E Sales Torres Homem contou a Monge o que com ele se passara em 1832, como depois o referiu a diversos amigos seus, entre os quais se contou quem hoje escreve estas linhas.

É o que se segue:

Sales Torres Homem acabava de formar-se na Academia Médico-Cirúrgica do Rio de Janeiro, e até então sentira absoluta negação para a política, e preparava-se para entrar em concurso a uma das cadeiras da nova escola de Medicina (1832), quando soube que o tinham feito membro da Sociedade Defensora da Liberdade e Independência Nacional (sociedade política representante do partido liberal moderado que era o dominante) eleito para o conselho diretor e membro da comissão redatora da imprensa da sociedade.

(O fato explica-se: Evaristo Ferreira da Veiga empenhava-se em recrutar para o partido de que era chefe os jovens mais notáveis pela inteligência).

Sales revoltou-se contra aquela espécie de violência, mas passou a noite em claro aguilhoado pela sua vaidade a pensar que se rejeitasse, como a principio resolvera, aquelas nomeações, talvez julgassem que a rejeição era determinada por ele se reconhecer incapaz de escrever artigos sobre assuntos políticos.

Na manhã seguinte deixou o leito com a firme resolução de ir à sociedade, de escrever dois ou três artigos e depois dar demissão de redator, de conselheiro e de sócio, para ocupar-se só do seu concurso.

Mas Sales era (dizia ele) da mais completa ignorância em política.

Que faz então?

Pobre a não poder distrair alguns mil réis das magras despesas diárias, Sales toma metade dos seus livros de Medicina, leva-os a um livreiro da Rua dos Latoeiros, onde ele também morava, e pede-lhe que os receba e que lhe dê em troca algumas obras de Ciência Política.

— Mas que obras prefere? perguntou-lhe o livreiro que era seu freguês.

— Eu sei lá!... respondeu-lhe Sales; dê-me aquelas que são mais procuradas pelos deputados e homens políticos.

O livreiro sorriu-se, deu a Sales o Curso de Política Constitucional de Benjamin Constant e a História da Revolução Francesa, de Thiers.

Sales pôs-se a ler com ardor, e no fim de uma semana escreveu e mandou para a imprensa o seu primeiro artigo político que devia ser publicado no dia seguinte.

O novo publicista quase logo arrependido do que fizera, medroso do fiasco que se lhe afigurava certíssimo, encerrou-se em casa até dois dias depois, em que um amigo lhe apareceu entusiasmado, trazendo-lhe a Aurora Fluminense.

Na sua Aurora, Evaristo Ferreira da Veiga saudava a revelação da mais bela inteligência naquele artigo, em que um jovem escritor se estreara com um triunfo de eloquência e com evidente prova de sérios estudos.

Evaristo, o grande patriota, chefe do partido moderado, era por seu ilustrado talento, pelas suas virtudes e pelo seu exemplar desinteresse o entusiasmador da mocidade.

A apreciação do artigo publicado na Aurora por Evaristo decidiu o destino de Sales Torres Homem, que arrebatado pela vaidade (dizia ele) abandonou a idéia do concurso e a profissão da medicina que pretendia seguir, e dedicou-se todo à imprensa política, e a princípio com a exclusiva lição do Curso de Política Constitucional de Benjamin Constante da História da Revolução Francesa, de Thiers.

Eu creio que nesta revelação da origem do seu pronunciamento, e da sua entrada na vida política Sales exagerava muito, tanto a própria negação a envolver-se nas lutas dos partidos em 1832, Gomo a inverossímil e absoluta ignorância da Ciência Política e tal e tão profunda, que ele nem tinha idéia daquelas duas obras que o livreiro lhe deu; mas é positivo que esse ilustradíssimo varão contava assim a história do quase recrutamento forçado que o levou a jurar bandeira no partido liberal, e a tornar-se homem político.

O livreiro Mongie, que antes de todos merecera receber esta curiosa informação, e que na cidade do Rio de Janeiro de tanta estima foi objeto, nela faleceu depois de poucos anos de florescimento, deixando-lhe lembrança de honrado nome, e parentes que se enraizaram no Brasil.

Anexo II

Uma loja de cabeleireiro florescia há mais de dezoito anos no n.º 110, entre as ruas dos Ourives e dos Latoeiros, tendo então por emblema a Cabeça de Ouro.

Vendiam-se ali tranças crescentes e faziam-se penteados, mas certamente a loja não era célebre. De súbito mais ou menos todos, e as senhoras principalmente, sem exceção, estavam diante da vidraça da Cabeça de Ouro, e ali se deixavam em contemplação.

E havia justificada razão para isso numa trança de cabelos exposta na vidraça.

A trança era muito vasta, de cabelos finos e de cor castanha, quase pretos, de formosa nuance, e tão longa se estendia, que se mostrava em três lanços ou voltas na vidraça.

Eram cabelos de comprimento extraordinário e de beleza notável; mediam nada menos que dois e meio metros, fora o que deles ficara ornando ainda a cabeça da senhora que, sem dúvida, a seu pesar se privara de tesouro tão singular; deviam, pois, ter sido na cabeça de sua dona cabelos de doze a treze palmos de comprido.

Quando ela os abandonasse soltos, aqueles imensos e formosos cabelos não lhe cairiam até os pés, como os imaginários de uma das mais belas heroinas dos romances de Alexandre Dumas, arrastar-se-iam seis ou sete palmos pelo chão, como estupenda cauda de um manto de madeixas.

Era um prodígio da natureza, e em face do prodígio geralmente se acreditou em artifício, supondo que na trança sutilmente se tinham pendido um aos outros cabelos de muito menor comprimento, como os cabeleireiros muitas vezes o fazem em tranças e crescentes de menor preço. Mas não houve quem descobrisse o artifício.

As senhoras e muitos homens entravam na loja da Cabeça de Ouro, viam, examinavam com ávidos olhos e muito de perto a maravilhosa trança; crescia-lhes, porém, a suspeita de ilusão, porque o zeloso dono defendia o seu precioso tesouro de exames manuais que poderiam prejudicá-lo. Fizeram-se na cidade apostas pró e contra a realidade do comprimento natural daquela trança.

A procedência dos cabelos era também questão que excitava muito a curiosidade daqueles que não tinham suspeitas de artifício; mas a principio o dono guardava segredo, porque o mistério ainda mais aumentava essa curiosidade e o concurso de senhoras e cavalheiros na sua loja.

Dentre os adivinhadores, uns diziam que os cabelos tinham pertencido à cabeça de uma pobre camponesa italiana, que os deixara cortar, vendendo-os por pequeno preço, que lhe parecera, coitadinha, elevada quantia, quase riqueza. Outros pretendiam saber que aqueles cabelos tinham sido de uma senhora espanhola, e cortados depois que ela morrera. Outros, talvez leitores entusiastas das Mil e Uma Noites, asseguravam, e seriam capazes de jurar, que a trança maravilhosa provinha do Oriente, onde coroara sublime a cabeça de linda Georgiana ou Circassiana, mísera escrava e vítima dos ciúmes de perverso pachá.

Além dessas, imaginavam-se outras procedências, de Portugal, da Grécia, e nem sei donde mais. Predominavam nas adivinhações o Sul da Europa, e o Oriente. E ninguém, e nenhum tinha a idéia, ou a conjetura de uma brasileira, como triste sacrificadora de seus extraordinários e maravilhosos cabelos.

Riam-se, zombavam desses sonhos ou imaginações os suspeitos que teimavam em considerar a trança exposta na vidraça da loja da Cabeça de Ouro como habilíssima e ilusória obra-de-arte consumada.

Por fim fez-se a luz. A trança que tantos supunham artificial e de falso comprimento de cabelos era natural e absolutamente verdadeira. Eis aqui a simples história da trança de cabelos prodígia.

O Dr. Antônio da Costa foi chamado para tratar de uma senhora ainda jovem e casada, natural da cidade de Mariana (província de Minas Gerais), e dali recentemente chegada.

Qualquer que fosse a moléstia que atormentava a formosa senhora mineira (porque formosa era, como me informaram), sofria ela também constantes dores de cabeça, e no correr do seu tratamento o Dr. Antônio da Costa, que aliás se maravilhara, vendo e contemplando os admiráveis cabelos da doente, exigiu com a maior pena que eles fossem cortados, e, amigo que era do dono da loja, foi dar-lhe notícia daquela riqueza imensa de extraordinários cabelos, contra os quais a ciência médica impusera a tortura horrível da tesoura.

Consumou-se o sacrifício da bela vítima, que viu em pranto caírem cortados seus maravilhosos cabelos; em compensação voltou ela perfeitamente restabelecida para Mariana, e o dono da Cabeça de Ouro, que aproveitara os avisos do seu amigo o Dr. Antônio da Costa, procedeu regularmente e de modo que ficou com os preciosos despojos do sacrifício da tesoura.

Foram pois de uma brasileira, de uma senhora mineira esses cabelos admiráveis, finos, abundantes e formosos, que expostos em trança passaram por inverossímeis em seu comprimento de mais de onze palmos.

Mais tarde escolhidos da cópia imensa daqueles cabelos surpreendentes, quase inverossímeis, os que mais compridos eram, foram mandados para a Exposição Universal de Londres (a segunda), e finda esta vendidos por 5.000$000 do nosso dinheiro, tão grande foi a admiração que eles causaram.

E alonguei-me tanto que o terceiro anexo não cabe neste folhetim.