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Miseria Santa
por Guilherme de Azevedo
Poema publicado em A Alma Nova

Entrando esta manhã n'um templo da cidade
Aberto á multidão mas triste e quasi só,
O ver ao desamparo a velha magestade
N'um throno a desabar, meteu-me certo dó.

Restavam tão somente alguns dourados velhos
Do passado esplendor, e foi-me facil ver
Que uma nuvem de pó cobria os evangelhos
Como cousa esquecida e impropria de se ler!

A virgem, sobretudo; a mãe predestinada
Que o Golgotha lavou nas lagrimas de fel
Que sempre hade chorar toda a mulher amada,
Ou seja a mãe de Christo, ou seja a de Rossel;

Achei-a desolada e triste lá n'um canto,
Sem pompas e sem luz, coberta d'ouropeis
Tão velhos como o roto e desbotado manto
Que ha muito, já, deveu á crença dos fieis!

Dizer-me póde alguem d'affectos bons e puros
Que eu posso ainda encontrar as bellas cathedraes
Aonde o simples Christo e os martyres obscuros
Campeiam no fulgor de pompas theatraes.

Bem sei; mas como disse, o acaso ou o quer que fosse
Levou-me a um templo pobre e foi n'elle que vi
Que ha mendigos do céo, d'olhar sereno e doce,
Proletarios do altar a quem ninguem sorri!

E ao ver esta humildade,—eu tenho d'isto ás vezes,—
Pensei, não sei porque, nas morbidas vizões
Que não passam de ser as filhas dos burguezes
Mas de rendas de França enfeitam seus roupões!