Mistério do Natal/XIII

Mistério do Natal por Coelho Neto
Capítulo XII: Cântico messiânico


Ao romper d’alva quando, do lado do templo as cegonhas partiam em direção ao deserto e as pombas baixavam em nuvens sobre o mercado catando o grão que transbordava das seiras, o patriarca despertou Maria e, ligeiros como foragidos, deixaram a estalagem com os votos de boa jornada do hospedeiro. As buzinas romanas ressoavam na serenidade.

Legionários recolhiam cansadamente a Makeros.

Pobre, que haviam pernoitado ao relento, estremunhavam sobre farrapos.

Num pátio, entre muros de maceira, espontado de ervas silvestres, mugiam bois e homens bradavam.

Corvos rondavam os ares atraídos pelo cheiro de sangue.

Quando passaram as muralhas, saindo do Campo do Oleiro, o sol brilhava nas pastagens úmidas e passarinhos cruzavam o vôo cantando na alegria do sol.

Maria caminhava d’olhos altos, como enlevada. Inefável sorriso iluminava-lhe o rosto lindo, arrepios nervosos sacudiam-na de instante a instante.

- Lá está Belém! disse José estendendo o cajado na direção dos montes ainda enfaixados em névoa.

Maria empalideceu e, d’olhos fitos nos outeiros graciosos da terra de Davi, rompeu, de repente, a cantar, sobre uma antiga melodia hebraica, repetindo inspiradamente as palavras que lhe saiam d’alma:


“Espírito Perfeito, ânsia das almas míseras, se és Tu que em mim assistes, bendita seja a carne frágil em que Te encerraste e de onde deves romper, germe da Redenção, em Flor de Misericórdia.

Espírito Perfeito, lume que de mim fizeste a Tua lâmpada, que o Teu clarão espalhe-se pela terra fazendo brotar a sementeira nos campos e o amor no coração dos homens.

Espírito Perfeito, fonte de copiosas águas benfazejas, bendita seja a dor que me lançou na vida, benditas sejam as lágrimas que por Ti hei vertido.

Espírito Perfeito, esperança dos desanimados, se eu sou o ramo verde que hei de Te dar, bendita seja a aflição e minh’alma na hora atormentada em que, inocente, me julguei culpada e, pura, vi a suspeita manchar a minha virgindade.

Espírito Perfeito, se És a redenção anunciada, bendigo a Tua vinda, sem orgulho, por me haveres tomado por Teu trâmite e prostro-me ante a Tua Graça e exalto a Tua beneficência.

Espírito Perfeito, Ser do seres, não nado ainda, glória a Ti e à Tua origem celestial. Virgem, dar-te-ei ao mundo. Eu sou como o olhar que não se macula por transmitir ao corpo a visão.

Por mim entras no mundo como o sol, e tudo que ele alumia, entra, pelo olhar, no cérebro.

Eu sou a pupila que comunicara ao universo a Claridade Magnífica.

Espírito Perfeito, louvado sejas sempre pela Tua virtude e pela Tua excelência. Sabes da carne mortal sem trazeres pecados: passas por ela como uma imagem que se reflete n’água.

Espírito Perfeito, Graça de Israel, Esperança da Gentes, Messias... Meu coração alegra-se sentindo-Te e o meu coração é o cativo que almeja a liberdade.

Eu sou a fraqueza humilde chamada mulher. Sou a escrava que gera o seu libertador, a sombra de onde sabe a luz, o pecado que floresce em perdão...”

José ouviu-a com os olhos rasos d’água.

As cotovias cantavam na altura luminosa.

Longe, sob a fulguração do sol, resplandeciam os muros de Belém, entre outeiros.