Mistério do Natal/XVI

Mistério do Natal por Coelho Neto
Capítulo XVI: Na caverna


Diante de uma trilha que se perdia no arvoredo deteve-se o carreiro e disse:

- Aqui me despeço, este é o meu rumo. A estrada em que estais, direita e fácil, guia-vos a Belém. Seja o Senhor convosco.

Sem esforço, José tomou a Virgem nos braços, pousou-a na terra, agradecendo ao moço a gentileza de a haver recebido no seu carro. E ele, galantemente, respondeu:

- Trouxe a flor viva do trigal ceifado, e, com tão jeitosa resposta, despediu-se e foi-se, aguilhada ao ombro, devagar, à frente dos bois, cantando, em voz apaixonada, os louvores do seu amor mimoso.

Os dois caminharam alguns passos. Maria amparada ao esposo, lenta, tolhida de sofrimento; mas não pode ir além da caverna e deteve-se.

O áspero interior do antro tingia-se de laivos rubros, ao trêmulo flamejar duma fogueira junto à qual um velho pastor, de mãos estendidas ao lume, cantarolava baixinho.

Ovelhas ondulavam na sombra.

Logo à entrada, na anfractuosidade da rocha, havia uma manjedoura. Um jumento dormitava e, junto dele, ruminando, jazia deitada uma vaca com o seu novilho.

Disse José à Maria:

- Firma-te a mim e vamos devagarinho. Havemos de achar aposento em alguma estalagem. Ela sorriu docemente, resignada, mas os seus olhos meigos foram para a caverna.

O patriarca, apiedado, adiantou-se e falou ao pastor.

- Seja o senhor convosco!

- Bem-vindo seja o que chega e desce com os olhos até a minha humildade.

- Hóspede na terra, venho de longe e comigo, em estado que não consente esforço, trago minha esposa, que aqui vedes. Se permitirdes que ela fique um momento convosco enquanto procuro hospedagem, sempre o meu coração vos há de louvar.

O velho pastor, de fartas barbas amarelecidas, longos cabelos espalhados pelos ombros, que um melote cobria, soergueu-se e falou:

- A caverna não tem porta, ainda é mais franca que os templos. Entrai e abeirai-vos do lume, que a noite começa a esfriar.

- Ela fica, eu sigo pela pousada. Maria tímida, entrou. Logo o pastor acamou as palhas, alargando um leito fofo e, vendo-a recostar-se, voltou ao seu lume e ao canto com que se entretinha.

E o patriarca partiu.

Ainda que não conhecesse a cidade, tanta era a gente que se movia nas ruas, que não lhe foi difícil, perguntando, encaminhar-se a uma estalagem.

Logo à entrada, sob o vasto alpendre, viu as altas pilhas de fardos, e, em volta, estendidos em peles, mercadores e recoveiros.

O hóspede, mostrando-lhe o transbordo da casa, disse:

- São homens que se aboletam ao relento, por falta de cômodos. Dificilmente encontrareis quem vos receba, porque as festas atraíram grande mó de estrangeiros e as feiras trazem das cercanias todos os lavradores. Guie-vos o Senhor. E José prosseguiu.

Nas vielas e alfurjas havia turbas cantando e bailando em volta de fogueiras.

Debalde o ancião entrava nas estalagens. As próprias choupanas recebiam hóspedes e, pelas colinas, entre fogos, clareavam tendas. Errou até tarde sem êxito

Já o silêncio anunciava hora alta quando, quebrado de fadiga, retrocedeu pelas betesgas desertas, ao latido dos cães errantes, em rumo à caverna.

Avistou-a de longe, alumiada por um clarão de luar, e, como levantasse os olhos demandando o astro, deu com um anjo deslumbrante que, abrindo asas largas, diáfanas, feitas como de névoa e luz, ia e vinha no espaço, rondando a noite.

Entrou. O velho pastor velava diante das brasas vividas e, entre ovelhas, sobre a palha loura, a Virgem dormia serena.