CAPITULO II

O falso luxo

 

 
I


Na nossa pequena sociedade de Lisboa, em que os meios estão em completo desequilibrio com os desejos, chega todos os annos um periodo, o periodo que antecede o carnaval, em que nos julgamos mais ou menos obrigados a sacrificar ao amor da sociabilidade.

Entendemos que uma sociedade civilisada não póde viver sem festas e sem saraus, portanto é necessario que sem hesitação façamos tudo que nos seja possivel, e mesmo impossivel, para darmos e recebermos saraus e festas.

Ouço eu por ahi dizer e affirmar que os talentos e os genios enxameiam como papoulas nas seáras de abril.

Não duvido, não senhor; temos talento, temos genio, temos superioridade, temos phantasia, temos tudo quando quizerem.

O que nós não temos é uma cousa pequena, humilde, despertenciosa, desdenhada.

Não temos bom-senso.

Não quero aqui entrar na questão muito complexa e muito complicada de saber se as festas, se os bailes, se os jantares de gala, se todas as ceremonias pomposas da vida mundana podem ter no desenvolvimento da industria, no progresso da civilisação moderna alguma influencia benefica.

Em outros paizes mais ricos, em outras nações mais industriaes, em outro regimen mais favoravel ao luxo creio que sim.

Entendo eu, porém, que as leis geraes não se podem applicar a casos especiaes, e que nós não podemos conservar a vida falsamente luxuosa que é e continuará a ser por muito tempo o nosso ideal supremo!

Em Lisboa haverá cem familias que estejam no caso de gastar em superfluidades um rendimento avantajado.

Mas, como o amor da representação é o nosso cunho nacional, como o desprezo pelos pobres é o timbre e o brazão da nossa sociedade, como o luxo é o sonho e a aspiração constante de todos os cerebros juvenis, provém d’aqui que dia a dia, se sente na familia uma perturbação e uma desharmonia mais graves que o contentamento intimo e desinvejoso vae-se tornando uma flôr rara, que só aqui ou alli enfeita suavemente a fronte ignorante de uma collegial de quinze annos!

Depois, como se não póde vencer o impossivel, mesmo as que empregam os maximos sacrificios para apparecerem e brilharem, depois de alcançado o fim a que aspiravam, ficam mais tristes e mais despeitadas do que antes de o ter realisado.

No baile, á luz opalina dos lustres, no aroma capitoso das violetas, entre as magnificencias avelludadas das camelias, percebem — e com que amargo desespero! — que o seu vestido não está fresco, que estão machucadas as suas flores, que a ninguem illude o amarellado artificial das suas rendas falsas, e que o strass não póde substituir com muita vantagem os diamantes verdadeiros.

Oh! quantas privações, quantos sacrificios, quantas luctas conjugaes, que scenas intimas, para alcançarem aquella toillete mesquinha, desbotada, humilhante, que parece ter malicias diabolicas em cada uma das suas pregas, a rir-se ferozmente no seu fru-fru escarnecedor.

E a dona d’esse vestuario hybrido pensa de si para si com uma furia concentrada, que põe manchas biliosas nas suas faces, e chispas sombrias nos seus olhos pisados.

— «Não consigo humilhar nenhuma das minhas inimigas, não venço nenhuma das minhas rivaes! As pobres adivinharão todas as penas que esta hora de ostentação me tem custado! as ricas terão dó, um dó profundo da minha miseria mal disfarçada e mal occulta! Que ganhei eu com isto?»

Ganhou, minha senhora, ganhou alguma cousa, póde crer. Ganhou a certeza de que seu marido ou não a estima já, se é honesto e digno e tem a alta comprehensão dos deveres da familia, ou continua a sentir o mesmo que até alli tinha sentido, uma paixão insalubre ou uma indifferença bestial, e n’esse caso não passa de um homem tolo, ou de um homem máu!

Ganhou o haver definido, de si para comsigo a sua propria situação; ganhou o reconhecer bem a que especie de marido entregou o destino de seus filhos e o seu.

E não se diga que ha n’estas minhas palavras demasiada acrimonia, ou injustiça flagrante.

O nosso defeito consiste positivamente n’isso: em dar pouca attenção a todas as cousas; em ver os resultados sem observar e sem julgar as causas; em perdermos completamente de vista, que não ha effeito por mais mesquinho que não seja o corollario de uma lei importante.

Não quero, já se vê, condemnar sem appello as senhoras que frequentam a sociedade e se habituam á atmosphera artificial dos salões.

Quero provar simplesmente que entre cem senhoras que o fazem, só dez é que o podiam fazer, e que o nosso modo de ser social se não coaduna com esses costumes pomposos, restos e herança de um extincto regimen.

 

 

Para se saber quanto o luxo corrompe e adoece um paiz bastar-nos-hia apontar para a França de Luiz XV e para a França do segundo imperio.

A historia e as chronicas d’esses dias de ominosa memoria revelar-nos-hiam de um modo bem claro e bem frisante quanto é escorregadio o declive que do luxo exagerado conduz á immoralidade, ao impudor da mulher e ás deshonestas transigencias do homem.

Não queremos, porém, n’este estudo despretencioso evocar a historia, nem revolver o lodo das passadas corrupções.

Queremos simplesmente fallar ao bom senso das leitoras, e queremos fallar chãmente, simplesmente, sem declamações, nem idéas preconcebidas.

Todos sabem que o nivelamento das classes, a livre divisão dos bens, a democratisação das fortunas, se teem conseguido debellar muitas e crueis injustiças sociaes do passado, teem sido tambem a destruição das colossaes fortunas de outro tempo.

Hoje, quando essas fortunas por acaso existem, são creadas pelo trabalho em grande escala, pelas importantes emprezas commerciaes, pela actividade devoradora de homens privilegiados.

Já se não fundam como antigamente em direitos estaveis e indestructiveis. São ephemeras, contingentes, dependem de muitas causas com que se não póde absolutamente contar.

Uma crise financeira, uma guerra européa, uma quebra importante, um abalo qualquer de credito, e eis por terra um edificio assombroso e complicado que parecia dever resistir ao embate de todas as tempestades, e que um sôpro logra alluir!

Ora, se isto tem relação com as grandes fortunas, se nem ellas podem contar com o dia de ámanhã, que farão os que não possuem mais que o necessario, os que ás vezes nem isso possuem?

Antigamente, no modo por que estava constituida a hierarchia social, uns tinham todos os bens, e outros soffriam todos os males; hoje como todos teem eguaes direitos, todos querem ter eguaes regalias.

Seria isso muito bom, se a egualdade que existe entre as prerogativas podesse existir tambem entre as riquezas, se em vez de haver pobres e ricos, houvesse sómente ricos, cousa a que nem os mais exaltados socialistas se lembraram ainda de aspirar.

Ora, se está sobejamente provado que, principalmente no nosso pequeno paiz, ha uma minoria pequenissima que é rica, ha uma maioria enorme que é miseravel, e ha, entre os dous extremos, uma classe, a mais importante — no fim de contas, visto que tem a superioridade da educação e da intelligencia, que é simplesmente remediada, porque é que não havemos de sujeitar o nosso regimen social ás exigencias e necessidades d’essa classe, que é a predominante, senão pelo numero, ao menos pela influencia que exerce?

Essa classe póde conhecer as distracções de uma agradavel intimidade, mas não as pompas decorativas, as ceremoniosas galas de uma vida de salão apparatosa e futil.

Se os filhos d’essa classe olhassem para baixo e vissem as privações, as luctas, as miserias dos que só conseguem com o suor do rosto ganhar um pedaço de pão duro e cobrir pobremente o corpo emmagrecido, de certo que se sentiriam felizes, triumphantes, dignos de inveja, na sua mediocridade aurea, na modesta fartura da sua vida domestica, nas distracções intimas de um circulo affectuoso e limitado.

Mas não! Olham para cima, vêem os ricos, os potentados, os dominadores do seculo, ouvem nas tentações febris das suas noites o tilintar magnetico do ouro, vêem passar no fundo dos seus ligeiros coupés, pallidas e desdenhosas mulheres, que medram como flôres exoticas de fulva folhagem metallica na estufa das suas salas opulentas, sentem em si o desejo insaciado de todos os prazeres que não teem, e sem prudencia, sem pudor, sem dignidade, atiram-se ás especulações vergonhosas, transigem com a sua propria probidade, vendem, desde os bens que herdaram de seus paes, até á consciencia que lhes veio de Deus, e quando conhecem que n’esta lucta ingloria, n’esta lucta impossivel só podem ser vencidos, já não é tempo para retrocederem no funesto caminho encetado!

E que não ha parar n’esta ingreme descida.

Teem-me dito por varias vezes que eu sou feroz para com o sexo a que pertenço; que accuso com muita injustiça as mulheres de todos os males que teem succedido, que succedem ou que estão para succeder no nosso mesquinho planeta.

Ora eu, pelo contrario, estou convencida de que o meu orgulho, de que a minha vaidade feminil me levam a dar ás mulheres uma importancia que mais ninguem lhes quer reconhecer.

Eu digo que d’ellas provéem todos os males, porque estou convencida — talvez sem razão — que d’ellas podiam provir todos os bens.

Ainda no ponto de que se tracta é d’ellas toda a culpa, no meu humilde entender.

Sim, porque no fim de contas, não são os pobres maridos que mais desejam figurar nos bailes e nos saraus, e que de boa vontade sacrificam a commoda poltrona em que podiam dormir a sesta, o bom e saboroso jantarinho que podiam comer, o livro util e proveitoso que comprariam, para gastarem esse dinheiro n’uma toilette falsamente luxuosa, n’uma soirée ridiculamente burgueza, n’um jantar de ceremonia cujos acepipes, na opinião do conviva mais guloso, seriam só dignos de figurarem n’um banquete de theatro com pratos de... papelão.

São as mulheres que teem sempre a louca ambição de figurarem ao par de outras mais ricas, embora n’essa lucta desigual só consigam tornar bem visivel e bem grotesca a sua derrota!

São as mulheres que consideram os prazeres mundanos como o indispensavel elemento para a sua completa felicidade.

São ellas que arrancam ás primeiras necessidades do ménage, á carne que os filhos devem comer, ás roupas brancas da familia, aos abafos do inverno, á lenha do fogão das noutes frias, á mobilia commoda e confortavel das casas, ao peculio das doenças, ao asseio e ao conforto domestico, o dinheiro com que adquirem esse luxo ridiculo, esse luxo de pacotille que não illude, nem excita a commiseração de ninguem.

E quando ellas percebem no olhar e na bôcca dos que assistem a essa lucta absurda, um sorriso malicioso, uma faisca de ironico desdem, são ellas que irritadas, desvairadas, fóra de si, arrastam o marido á extravagancia, á dissipação, á prodigalidade, ao crime, e arrastam os filhos á miseria e á desolação!

Nada mais funebre, mais triste, mais sombrio do que o interior de uma d’essas casas, em que o necessario é sacrificado ao superfluo, em que o real é sacrificado ás apparencias, em que o conforto intimo é sacrificado ao apparato exterior.

As criadas sujas, despenteadas, petulantes; as creanças pallidas, anemicas, sem educação e sem solas; com os dentes podres e nodoas no vestido; os moveis indiscretos na mal disfarçada miseria, uma unica casa elegante — a sala — falsa taboleta de uma vida de imposturas; a roupa branca do marido encardida e grosseira, a toilette da mulher vistosa e mirabolante. As côres tapageuses, substituindo a qualidade fina e solida; a multiplicidade dos arrebiques, substituindo a simplicidade opulenta do trajo.

Quem depois de conhecer dous annos estas galés conjugaes, se resigna a viver n’ellas?

Os pequenos preferem o collegio sordido e brutal; o homem foge para o botequim ou para outros sitios peiores; a mulher vive na rua, na modista, no theatro, nas salas do seu conhecimento, no passeio, na ociosidade e depois Deus sabe em que!

Eis a vida creada pelo immoderado amor do luxo.

 

 

Afastemos porém os olhos d’estes quadros sombrios e que no entanto, leitora querida, tu bem sabes que não são carregados.

Imagine-se que transformada a sua educação, a mulher se formava unicamente para o interior da sua casa.

D’essa casa não fugiriam de certo os amigos fieis e dedicados, não se excluiam as pequenas reuniões intimas, a musica, as conversações artisticas, as leituras agradaveis, os alegres e joviaes serões.

O que se excluia sem appellação eram os inuteis apparatos.

Como a mulher tinha em mira ser só agradavel aos seus, deixava logo de armazenar todas as suas armas — o espirito, a graça, o sorriso, a amabilidade — para distrahir os estranhos, para agradar aos indifferentes.

Como desejava fugir ao tedio, á melancolia, ás enervantes tristezas da solidão, aprendia a dispensar as companhias banaes, fazendo seus companheiros, os melhores, os que nunca atraiçoam, os livros, a musica boa, as flôres, o trabalho.

Logo que, em vez de se enfastiar em casa, ella se, divertisse e se achasse bem junto dos seus, elles começariam mesmo involuntariamente a sentir-se aquecidos por essa boa e salutar influencia.

Ninguem póde estar aborrecido ao pé de uma pessoa que se diverte francamente.

O marido por mais que os negocios de fóra o preoccupem e enfadem, por mais que as luctas da arte, do commercio, da politica, da industria, o cansem e mortifiquem, ha de sentir forçosamente um raio de bom e salutar contentamento ao pé da esposa que volitar em torno d’elle viva e chalreadora como um pardal, fresca como uma flôr, animada, activa, cheia de invenções felizes, e de sincera e desaffectada alegria!

E depois, eliminado o luxo exagerado da existencia de qualquer familia, eliminam-se ao mesmo tempo os cuidados mais lancinantes, as preoccupações mais absorventes, as luctas mais dolorosas, os despeitos mais corruptores.

Temos visto varias vezes o seguinte: O homem trabalha para dar o bem-estar á mulher, e rouba para lhe dar o luxo!

É que — note-se isso bem — o luxo quando não é a atmosphera natural em que se nasceu e se tem sempre vivido, uma cousa que á força de estar identificada comnosco, nós já nem se quer percebemos — o luxo quando é o fim a que aspira a nossa desenfreada ambição, torna-se um elemento profundamente desmoralisador.

Enerva o corpo, excita fatalmente a imaginação, aggrava a insaciabilidade natural aos desejos da mulher, dá-lhe a idéa de requintes romanescos, de aventuras, de amores vedados, attrahe um cortejo de voluptuosas tentações.

A vida das salas é a consequencia inevitavel do amor do luxo que devora a mulher de hoje.

Não a mulher de uma certa e determinada classe, a mulher de todas as classes sociaes.

A esposa do alto financeiro, do colosso da industria, deseja vestir-se de um modo que logo de uma vez córte pela raiz na alma ainda mais ambiciosa o desejo de a vencer.

Ora, como este desejo se nutre de difficuldades, todas as que estão no mesmo caso d’ella travam a lucta e empregam os mais loucos esforços para lograrem a palma.

As raras flôres da nossa velha aristocracia, não querendo ser desthronadas pelos potentados modernos, entram, já se vê, no combate com grave transtorno das bolsas de seus respectivos maridos.

A nenhuma d’ellas cabe completa victoria; se as rendas de Bruxellas que guarnecem o vestido d’esta são mais preciosas, os diamantes que enfeitam o collo e os braços d’aquella são mais raros; se a traine de velludo d’est’outra é mais distincta, a tunica de setim e ouro da outra é mais singular.

E o combate recomeça mais feroz, mais acceso, mais desapiedado.

Cá em baixo a lucta toma as mesmas fórmas. É a lucta da falsa riqueza, a lucta das pedras que fingem brilhantes, das imitações que fingem rendas, dos vestidos concertados que fingem vestidos novos.

São mais profundos ainda os despeitos, é mais desesperada ainda a energia que se gasta!

Quem vive esta vida ardente, inflammada de ambições insalubres, exaltada de mesquinhas invejas, corroida de miseraveis tricas, não póde, não sabe, não tem forças para ser boa esposa, boa mãe, boa dona de casa!

Pintámos em traços rapidos a vida das nossas mundanas; procuraremos desenhar, se tanto nos fôr possivel, a vida que ambicionamos e desejamos para a mulher de familia.

No dia em que ella a quizer adoptar, reconquistar-se-ha a serena dignidade, a tranquilla doçura do lar domestico, que pouco a pouco se vae tornando desflorido, melancolico e deserto.


II


Nas paginas antecedentes condemnava eu a vida de apparato, a vida da sociedade, a vida de sala, pela influencia corruptora que ella exerce nos costumes e nos sentimentos, e pela absoluta desharmonia em que ella está com a moderna concepção da familia e da sociedade.

No entanto não basta só lavrar a condemnação de um modo de ser social, é necessario apontar o remedio, ou pelo menos apresentar um alvitre que á nossa consciencia pareça proficuo e salutar.

As mulheres gostam da vida frivola e inutil dos salões, pelos seguintes motivos:

— Porque as salas são o theatro dos seus triumphos e conquistas.

— Porque é ahi que ellas são lisongeadas, louvadas, incensadas e queridas.

— Porque os homens só prestam homenagem ás mais bonitas, ás mais vaidosas, e ás mais ricas, na realidade ou na apparencia.

Além d’estas causas que as levam a gostar da representação e da pompa mundana, ha outras dependentes d’estas ou relacionadas com ellas, que as levam a aborrecer-se no interior das suas casas.

Primeiramente, e acima de tudo, a falta de uma educação solida e positiva, que as faça encarar a vida debaixo do seu verdadeiro aspecto. Um aspecto de seriedade e de justiça, assentando na comprehensão de todos os deveres.

Segundo, a inhabilidade e a ignorancia, que as torna incapazes de qualquer trabalho seguido. A falta de gosto natural ou de gosto adquirido, para se entreterem, para se distrahirem, para revestirem de uma fórma sympathica e attrahente as suas obrigações de donzellas, de esposas, de mães, de donas de casa.

Terceiro, a inveterada frivolidade que herdaram, e que os exemplos recebidos, e a falsa educação mais aggravou e desenvolveu, tornando-a um perigo, o maior de todos os perigos que ameaçam a familia.

Eu tenho repetido isto tantas e tantas vezes, que receio por fim enfastiar as minhas leitoras.

É necessário antes de tudo transformar radicalmente a educação das mulheres.

Muitas das cousas que hoje se ensinam é mister que deixem de se ensinar.

Muitas outras que se encaram debaixo de um certo e determinado ponto de vista, cumpre que se vejam sob outro aspecto inteiramente differente.

Outras ha ainda a que ninguem attende e que se não ensinam, e é positivamente a essas que se deve dar a maxima e a mais desvelada attenção.

Tratemos de apresentar exemplos das tres asserções que acabamos de apresentar.

Das cousas inuteis que hoje se consideram ainda partes integrantes de uma educação perfeita.

Ha a dança: um talento absolutamente dispensavel, que nas meninas só serve para desenvolver a coquetterie, o desejo de brilhar e de agradar.

A tapeçaria: um pretexto futil para estragar o tempo. Em quanto a mão vae preguiçosamente bordando a talagarça, a phantasia irrequieta da mulher, da creança, corre e vôa por montes e valles, á procura de um vedado ou de um impossivel ideal. Chama-se a este genero especial de trabalho feminino, a hypocrisia da preguiça.

Como estas duas cousas, ha muitas mais que não temos tempo de enumerar, mas que se não são nocivas como a primeira, são pelo menos inuteis como a segunda.

Procuremos agora muitas das materias que se ensinam, e devem continuar a ensinar-se, mas ás quaes a educação tal como está rotineiramente estabelecida, não sabe dar a importancia e o valor devido.

São a musica, a historia, as linguas, a geographia, a arithmetica, etc., etc.

O primeiro cuidado de toda a mãe vaidosa ou illustrada, intelligente ou mediocre, é que as suas filhas aprendam a tocar piano.

Muito bem.

É preciso, porém, advertir-se que a monomania do piano, tal como ahi anda inoculada e propagada, é um flagello, um temivel flagello e nada mais.

A musica é de todas as artes aquella que mais falla aos sentidos e á alma do homem.

Modera, dulcifica, adormenta, consola, estimula, apaixona, enternece e muitas vezes, quando profanada e desvirtuada por sacerdotes sacrilegos, enerva, abranda a energia e a vitalidade do espirito, e vence todas as resistencias viris do caracter.

É uma amiga, póde ser uma cumplice.

Em todos os casos é um grande, um milagroso, um divino, um terrivel poder.

Mas mesmo pelo papel importante que occupa, mesmo pela influencia profunda que exerce, não é dado a todos interpretal-a e comprehendel-a.

Muitos ha que se submettem ao seu irresistivel dominio, sem saber sequer adivinhal-o ou presentil-o.

Quantas vezes não temos visto uma pobre mulher boçal, uma modesta e ignorante creatura, chorar de commoção ouvindo as notas tristes de uma flauta ou de uma guitarra!

Não tem a consciencia da commoção que a perturba, mas vibram-lhe os nervos, latejam-lhe as fontes, toda ella palpita e estremece como que agitada por uma potencia ignota.

Como todas as artes, a musica só póde ser interpretada por quem a comprehenda com o seu espirito, e por quem a sinta com o seu coração.

De outro modo é uma profanação e é um escarneo.

Achamos, portanto a musica, um elemento poderosissimo de educação, mas exigimos que haja intelligencia e vocação nas pessoas que a aprendem.

Não é fazer do piano um attributo indispensavel de todo o ensinamento elegante, e obrigar sem discernimento e sem escolha todas as meninas a estudal-o e a atormentar com elle o ouvido do proximo.

Logo que se comprehenda bem o grande alcance da musica, a sua influencia moralisadora, a sua missão artistica, as mães escolherão de entre as suas filhas, aquella ou aquellas que mostrarem predisposição para este genero de estudo e auxiliarão por todos os modos o desenvolvimento d’essa vocação.

O piano deixará de ser o flagello e a peste das soirées sem ceremonia, o tormento dos visinhos proximos, o pezadello dos maridos, o martyrio das proprias executantes. Não reinará exclusivamente como até aqui esse despotico e terrivel instrumento.

Não se dirá das meninas bem educadas: toca admiravelmente, subentendendo já o malfadado piano.

Dir-se-ha mais acertadamente: sabe musica, toca muito bem violoncello, ou harpa, ou rebeca, ou piano mesmo, porque nós não queremos condemnar nenhum instrumento ao ostracismo, pelo contrario queremos livrar os outros do ostracismo a que estão injustamente condemnados.

Com esta escolha sensata das pessoas que particularmente devessem cultivar a sua vocação musical, muitos bens proviriam á educação da mulher.

A musica executada só por quem a entendesse, ouvida só por quem a apreciasse, tornar-se-hia, em vez de um ornato de vaidade, uma elevada distracção artistica.

Educaria e apuraria o gosto, exerceria a sua pura e civilisadora influencia, seria o repouso depois do trabalho ou a consolação no meio d’elle.

Os velhos mestres allemães com as suas largas e simples harmonias, ouvidas á noute no serão modesto da familia, ao pé de um ou dous amigos intelligentes e sinceros, penetrariam o coração da mulher de uma serenidade affectuosa e dôce, de um casto enternecimento salutar!

 

 

O que dizemos da musica instrumental tem applicação a todas as outras artes.

O canto, o desenho, a pintura, a escultura mesmo.

Todas merecem o nosso respeito, não como adornos pueris, mas como elementos de util e fecunda moralisação.

Sempre que a mãe ou que a educadora descubra em sua filha, ou na sua discipula, tendencia pronunciada para um ramo qualquer de actividade intellectual, deve por todos os modos facilitar e desenvolver essa vocação espontanea.

Mas que a educação de todas não seja pautada por um molde uniforme!

Mas, por Deus! que não se faça d’esta grande e sublime missão de cultivar um espirito infantil, uma questão de moda, uma questão de vaidade, uma questão de mutua inveja mesquinha.

As linguas são hoje ensinadas com muito esmero.

Mas que applicação se dá a essa sciencia adquirida em muitos annos de estudo e de pratica?

Uma applicação deveras ridicula!

Entre vinte das meninas que sabem hoje francez, inglez, allemão ou italiano, não ha quatro que tenham lido Hugo ou Bossuet, Racine ou Montaigne, Shakspeare ou Milton, Goethe ou o Dante, não ha quatro sobretudo que estejam aptas para comprehenderem estes mestres do pensamento e da palavra.

E no entanto para que servem as linguas estrangeiras?

Não passam de meros instrumentos com os quaes adquirimos noções, factos, idéas, conhecimentos, que nos seriam estranhos sem ellas.

Na lingua de um povo está consubstanciado muito do que elle é moral, physica e intellectualmente. Penetra-se