Nhá Carola

Nhá Carola
por Paulo Setúbal
Poema publicado em Alma Cabocla


Eia!... O meu baio caminha
Por entre nuvens de pó:
Vou ver a boa vizinha,
Essa adorada velhinha
Que eu quero como uma avó.

Nasceu aqui, e aqui mora,
Neste retiro de paz.
Ah! É uma santa senhora
Que inda me quer, que inda me adora,
Como há vinte anos atrás.

E hoje, que o dia se engala
De tanta luz, tanta cor,
Vim, nhá Carola, abraçá-la,
Ouvir de novo essa fala,
Sentir de novo esse amor!

A casa, tosca e singela,
Já eu avisto daqui:
E a dona amiga, à janela,
Que fundo anseio revela
Por me apertar junto a si!

Por isso, quente e festiva,
Ao ver-me entrar o portal,
Ela, a velhinha afetiva,
Mostrando rubra a gengiva,
— Ri-se num riso jovial!

Salta-me Ioga ao pescoço.
E abraça! E ri! que aranzel!
E nesse ingênuo alvoroço,
Nem olha que eu já sou moço,
Nem vê que eu sou bacharel...

Céus!... É a mesma nhá Carola,
Que, enrugada como está,
No tempo que eu ia à escola,
Enchia a minha sacola
De broinhas de fubá.

E eis o sítio. Por tudo aqui eu leio
Memórias do que deixei.
Eu saio, pois, num passeio,
Rever, com dorido anseio,
As coisas que tanto amei!

Em frente, limpo e varrido
Fica o terreiro de chão:
É aí, depois de colhido,
Depois de seco e batido,
Que se peneira o feijão.

No pasto, o zaino e a ruana
Lá estão... Que amigos fiéis!
Além, à luz meridiana,
Verdes touceiras de cana
Fulgem em verdes quartéis.

Raspas de clara mandioca
Secam ao sol, num tendal;
E range a rude engenhoca,
Que um tardo burro desloca,
Tranqüilo, patriarcal.

Rudeza assim, doce e branda,
Nos sítios hoje nem há!
E é bem de ver, numa banda.
O amplo forno da quitanda,
As assadeiras e a pá...

Os gansos da fazendola
Debicam pelo quintal;
O galo, um fofo mariola,
Ronda as galinhas-d'angola,
Como um sultão oriental.

E o pomar... Ruas inteiras
De altas árvores senis:
São araçás. são mangueiras.
São frondosas laranjeiras.,
Sombreando o asilo feliz.

Camões sonhara Natércia
No canto desse pomar!
Que paz! Que sombras! Que inércia!
Ah, como as limas da Pérsia
Aromatizam este ar!

E eu vou por tudo... E eu vagueio
Por todos estes rincões.
Que delicioso passeio!
Tão bom, tão lindo, tão cheio
De fundas recordações!

O dia inteiro, numa ânsia
Que a palavra não traduz,
Fico a lembrar minha infância,
Que eu inda vejo, a distância,
Banhada de ouro e de luz!

Á tarde, quase à noitinha,
Volto... E ao voltar, triste e só,
Venho abençoando a velhinha,
Essa adorada vizinha
Que eu quero como uma avo.