Noções Elementares de Archeologia/VI

Noções Elementares de Archeologia por Joaquim Possidónio Narciso da Silva
Capitulo VI: Seculos XV e XVI

Architectura religiosaEditar

Posto que a fórma usual das igrejas tivesse ficado a mesma no seculo XV e no principio do XVI, os architectos tiveram certa tendência para se afastarem da regularidade symetrica da época anterior; fizeram nas igrejas existentes augmentos que vieram a destruir a harmonia, juntando-lhes, por exemplo, outras capellas fóra das proporções das que já existiam.

Ornamentos

As formas prismaticas ou angulares dominam no feitio das molduras do seculo XV, tanto nos toros e nas nervuras, como nos pinasios, e até nos mais insignificantes detalhes; isto dava aos ornamentos aspero aspecto, por causa de magreza no cinzelado, que nunca apresentaram os executados nos seculos XIII e XIV.

As folhagens mostram, a começar do seculo XV, fórmas inteiramente differentes das que notámos nos seculos XIII e XIV, são folhas de couve encrespadas, de cardo e outras plantas. As folhas de vinha foram tambem empregadas com as outras folhas recortadas: estas formam, nas hombreiras das portas, das janellas, cornijas e festões executados com tanta habilidade, que parece se despegam da pedra, e são apenas adherentes na sua superficie: estas grinaldas eram ás vezes entrelaçadas com fitas. Os esculptores divertiam-se tambem em representar diversos animaes entre as folhagens.

 
Figura 233: Grinaldas de folhas recortadas

Os crochets, em parte differentes dos executados no seculo XIV, mostram em geral mudança de fórma análoga a dos ornamentos, representam folhas de couve ou cardo encrespadas, arredondadas, reviradas, parecendo-se com cabeças de golphinhos.

Contrafortes

O fragmento representado na pag. seguinte [fig. 234], mostra o effeito dos apainelados, dos pinaculos na sua applicação descançando sobre animaes—caryatides; finalmente os dos frontões triangulares, por cima das janellas ornados de folhas encrespadas, rematavam com balaustradas e divisões do estylo flamejante de labaredas.

 
Figura 234: Pinaculos descançando sobre animaes—caryátides

Columnas e pilastras

Já não se vêem columnasinhas enfeixadas, porque foram substituidas por simples nervuras prismzticas. Os capiteis, mais geraes, eram ornadas de folhagens encrespadas, dispostas em dois ramos sobrepostos um ao outro. No final do seculo XV e no XVI, não é raro encontrar as columnas completamente sem capiteis; então as nervuras dos pilares prolongam-se sem interrupção até ao cimo do edificio e formam um todo com os arcos ramificados de abobada. Sobre algumas pilastras, encontram-se pinaculos, molduras com grandes relevos mais ou menos complicados, e misulas para servirem de peanhas ás estatuas.

 
Figura 235

Portas

As portas de arcos abatidas, ou de volta de sarapanel, que se chamam arcos Tudor, porque foram mui usadas em Inglaterra no reinado de Henrique VII e Henrique VIII, vêem-se principalmente no final do seculo XV ou no principio do XVI, e eram enfeitadas como as outras portas, com bellas folhas retorcidas e coroadas de um penacho pediculado, como está representado na seguinte gravura.

 
Figura 236

Janellas e oculos (espelhos)

Os compartimentos, que dividem as janellas e aberturas circulares chamadas oculos ou espelhos, apresentam mais geralmente feitios retorcidos, assimilhando-se a labaredas, corações esguios, etc. etc., que differem das flores de trevo, folhas de quatro pontas, e outras figuras radiantes. Foi em razão d'estas formas retorcidas, tantas vezes reproduzidas nos compartimentos das janellas, nos espelhos, nas balaustradas e nos ornamentos representados na cantaria, que se tem designado o estylo ogival do seculo XV sob o nome de gothico flamejante.

Abobadas

Os arcos das abobadas vieram a ser mais salientes e prismaticos: as suas peças curvas principiaram tambem a ramificar-se na segunda metade do seculo XV e no XVI, e os pontos de juncção mostram por vezes penduraes.

 
Figura 237: Rosa flammejante em compartimentos triangulares

Torres

As torres do seculo XV apresentam uma grande variedade de formas: ha algumas, cujas agulhas são muito elegantes (Belgica, Bordelez, Normandia, ele.); outras são quadradas, flanqueadas de contrafortes salientes, e que não tem a leveza dos primeiros.

No seculo XV, em logar de flanquear com duas torres as fachadas das grandes igrejas, tinham muitas vezes levantado uma unica torre quadrada ao meio do frontão occidental, como S. Bavon de Gand, a cathedral de Berne, e a cathedral de Ulm, etc.

Muitas torres d'esta época apresentam, grav. pag. 245 [fig. 239] sobre os angulos do corpo quadrado que sustenta a pyramide, obeliscos ou torresinhos que se ligam ao corpo da torre por arcos botantes de uma leveza extrema, cujo intradoz é ornado de festões arrendilhados.

Haveria um estudo interessante a fazer-se sobre as torres do seculo XV, as que existem na cidade de Ruão, pois são todas de notavel elegancia, embora não tenham como remate nem frechas, nem agulhas.

Altares

O altar, representado na gravura seguinte, tem 2m, 40 de comprido por 0m, 90 de fundo e 1m, 80 de altura. Sustentam-no tres pequenas columnas. A decoração na frente compõe-se de quatro curvaturas, alternadamente separadas por uma columna e por um pendural.

 
Figura 238: Um dos altares da igreja do Flogoat (Finisterra)

Tabernaculos

Encontram-se no seculo XV tabernaculos ou ciboriums de pedra que podem egualmente ser considerados como accessorio dos altares; ainda que estejam a maior parte das vezes separados e encaixados nas paredes proximas, como tambem estão as credencias. O especimen seguinte mostra a configuração dos que existem em muitas igrejas já d'esta epoca.

 
Figura 239

Algumas credencias, do fim do seculo XV, são tambem mui notaveis pelo numero e acabamento de suas molduras, como se vê na gravura seguinte.

 
Figura 240: Credencia dos ultimos annos do seculo XV, na capella de Jucoville

Pias baptismaes

A forma mais usada no seculo XIV para as pias baptismaes foram egualmente imitadas no XV, porém as pias d'este ultimo seculo e do principio do XVI mostram, enquanto ás esculpturas, que foram executadas primorosamente com molduras prismaticas, similhantes ás que ornam os nichos, os doceis e os pinaculos da architectura ogival da epoca terciaria.

 
Figura 241: Pia baptismal na igreja de S. Sebaldo
 
Figura 242

As pias monopediculadas com reservatorio e pé octogono não são raras no seculo XV: algumas imitam o feitio d'um calix e apresentam da parte externa a forma hemispherica ou ovoide.

A pia baptismal da cathedral de Bale é pediculada; o calix tem oito faces com a data de 1465. Estão representados sobre os oito lados d'este calix: Jesus Christo baptisado no Jordão; S. Lourenço, S. Thiago, S. Paulo, S. Pedro e S. Martinho. O pé tem egualmente a fórma octogona.

As pias de bronze da igreja de S. Sebaldo, em Nuremberg, apresentam a forma cylindra ornada com circulos em relevo. Os contornos são graciosos, e está dividida em duas partes e com arcadas collocadas a par. Os quatro evangelistas se destacam no socco, e parece que sustentam a parte superior da mesma pia.

Tribunas—Separações formadas de cantaria

Era do uso fazer-se um ambito gradado, especie de barreira ou separação muito enfeitada, posta entre a nave principal e o côro, sustentando geralmente uma tribuna e a estante onde se lia o Evangelho, como praticavam antes servindo-se do pulpito. As mais primorosas datam do fim do seculo XV, ás barreiras em cantaria que separavam o côro das naves, e que, desde o seculo XIII, já existiam em algumas igrejas; ellas vieram a ser nos seculos XV e XVI de grande riqueza de trabalho e de merecida admiração.

Tumulos e campas

No final do seculo XV e no XVI empregava-se quasi constantemente, para os tumulos arqueados, arcos postos a par, similhante a este exemplo que damos: collocavam um certo numero de tumulos d'este genero ao correr das paredes nas grandes igrejas.

 
Figura 243: Arco duplo de um tumulo

No seculo XV, encontram-se as pedras das campas cobertas por uma grande quantidade de detalhes d'architectura, como se executavam nos tumulos em vulto. O finado era representado occupando o centro de um historiado portal, composto de nichos, dentro dos quaes ornam pequenas figuras de santos em differentes alturas, ou então postas em nicho coberto por um docel; gravura de pag. 248 [fig. 242].

Cruz dos cemiterios

No seculo XV, tinha-se lavrado muitas cruzes em pedra para se porem no meio dos cemiterios, e o estylo das molduras caracterisa sufficientemente a época da execução. Em algumas cruzes da Bretanha, distinguem-se grupos de personagens bastante complicados, e de trabalho muito mais apurado por serem em pedra muito rija.

 
Figura 244: Cruz de Scaeb (Finisterra)

Architectura civilEditar

O caracter da architectura civil do seculo XV, emquanto ás molduras com ornatos, é egual ao empregado na architectura religiosa.

Architectura monastica

A architectura civil monastica segue o gosto do tempo e adoptou-se nas arcadas dos claustros, nas janellas ogivaes, com contornos curvilineos, como já expuzemos quando fallámos da architectura religiosa.

 
Figura 245: Fragmento d'um claustro do seculo XV

Para comprovar, será sufficiente apresentarmos o desenho de um claustro do fim do seculo XV, com os seus arcos a compartimentos em labaredas, ficando como esmagados pelos frontões de ramalhetes, uns a par e esguios [fig. 245B], os outros separados de varios segmentos, cujas curvaturas são mui desagradaveis (fig. 245A, estampa da pag. 251).

As folhagens golpeadas com as quaes ornavam as curvaturas dos portaes, são ás vezes vasadas com exaggeração, mas de aprimorada execução.

As janellas quadradas com pinasios de pedra multiplicam-se nos andares superiores das construcções civis. Nota-se do mesmo modo tendencia a pôr-se de parte o arco traçado por tres pontos, adoptando-se as aberturas rectangulares, que vieram a ser quasi exclusivamente empregadas um seculo depois.

O portal de entrada das abbadias e priorados ficava sempre collocado em um pavilhão que tinha superiormente aposentos; emquanto á disposição geral, era a mesma do seculo anterior.

Paços de concelho

Na segunda metade do seculo XV constituiu-se grande numero de novas municipalidades, afim de enfraquecer cada vez mais o poder feudal e todas as cidades rivalisaram entre si na edificação dos seus paços de concelho, muito dos quaes subsistem ainda e apresentam uma serie de edificios extremamente interessantes para se examinarem.

O campanario que lhe pertencia, veio a ser então uma torre elegante e de extrema delicadeza, ornada de variados contornos, como as que se executavam nas igrejas. Muitas das cidades applicavam quantias avultadas para construir e ornar seu campanario, afim de que o vissem a grande distancia, e tambem para dar maior importancia á sua representação.

A casa da camara de Douai, é da segunda metade do seculo XV, sendo mais notavel pelo seu campanario que pela extensão ou elevação do edificio municipal. A fachada municipal apresenta no plano terreo tres portaes ornados de folhagens encrespadas, sendo a do centro maior que as das duas outras.

 
Figura 246: Casa da camara e campanario de Douai

No segundo andar tem nove janellas em ogiva, ornadas de folhagens eguaes ás que decoravam os portaes.

A attica, que está por cima do entablamento, é mais moderna, porque pertence ao seculo XVII.

O campanario parece-se com uma torre de igreja, sendo rematada com uma agulha elegantissima feita de madeira e coberta de chumbo, apresentando varias ordens sobrepostas com frontões floreteados, e o maior numero acabando em grimpas; quatro torrinhas circulares e em sacada occupam os quatro angulos da torre na base d'essa agulha; e o telhado, de forma conica, mostra quatro pequenas trapeiras egualmente coroadas por cataventos.

A parle superior do campanario d'Evreux compõe-se de uma torre com faces arrendadas e de maior leveza, coroada por uma pyramide de madeira coberta de chumbo.

 
Figura 247: Campanario d'Évreux

A parte inferior d'este campanario é mais antiga, pois que a elegante pyramide arrendada que corôa o edificio, não pode ser obra além da segunda metade do seculo XV; talvez trabalho dos artistas que fizeram a pyramide central da cathedral, que é egualmente arrendada e de madeira revestida de chumbo.

É util observar como são os feitios das sinetas que ha nos campanarios, sendo algumas mui antigas; aquella d'Arras, é muito curiosa pela sua bocca ter grande abertura. Tem a inscripção seguinte, que attesta ter sido fundida em 1434:

LAN: M: CCCC: E: IIII JE: FULS FAIS.

Em muitos municipios não havia nem casa de camara, nem campanarios: serviam-se do sino das torres da igreja, e era tambem na parochia que se reuniam as assembléas municipaes.

Hospicios

Nas salas dos hospicios encontram-se no seculo XV e no XVI a disposição que já indicámos na grande sala do hospicio de Tonnerre, e em outros; esta disposição é tambem a mesma nos hospitaes d'esta epoca, em Flandres. Poré m limitemo-nos a citar um dos mais bellos monumentos conhecidos d'este genero, o hospicio da cidade de Beaune, fundado em 1442.

A aza do meio-dia e a de leste eram divididas até a altura do telhado por uma galeria com dois andares: o primeiro andar d'esta galeria, que faz lembrar os claustros das abbadias, corresponde ás aberturas do plano terreo; o segundo dava serventia aos quartos superiores, formando uma especie de varanda, como era uso construirem-se em um sem numero de casas de madeira dos seculos XV e XVI.

O telhado que cobre esta especie de attica, fica interrompido por grandes trapeiras symetricamente collocadas em duas ordens differentes, cuja disposição dá a esta parte do edificio a apparencia da decoração oriental. As empenas formadas de tres resaltos com duas, tres e até quatro aberturas, são compostas de madeiros reunidos de maneira engenhosa; d'estas especies de frontões recortados se levantam outros tantos grimpos formados por hasteas de ferro cobertas dos mais delicados ornamentos de chumbo. Sobre a fileira veste um delicado arrendado do mesmo metal.

 
Figura 248: Especimen da aza meridional do hospicio de Beaune

Na aza do norte, que tem frente para a rua, está situado o salão para os doentes. Imagine-se uma espaçosa e magnifica nave com o seu santuario, os quadros transparentes das suas vidraças de côres, a abobada aquilhada, as vigas servindo de linhas do madeiramento e guarnições pintadas com decoração simples, mas accusadas com franqueza; a grande ogiva da abside, campas tumulares, tres altares do uso oriental, tribuna, cadeiras do côro em forma de cubiculos com rendilhados, além de duas filas de camas com docel: eis o quadro magestoso que offerecia á vista, na origem, esta soberba sala.

Segundo o plano, que dâmos, comprehender-se-ha a disposição e a reunião d'estas salas. No pateo havia um poço com armação de ferro, tendo uma graciosa corôa sustentada por tres hastes de ferro, e rampas com ornatos arrendilhados, as quaes reunidas ao centro formam um telhado conico.

 
Figura 249: Plano do hospicio de Beaune

O portal do hospicio do lado da rua (P), tinha como remate um lindo alpendre, especie de baldaquino, em cima do qual, sobre pediculos, estavam as estatuetas de Nossa Senhora, de S. João Baptista e de Santo Antonio.

Armazens—Depositos

Os armazens e depositos continuam no seculo XV a apresentar construcções extraordinarias e com grande elevação. Citaremos para exemplo o de Nuremberg. A porta principal d'este vasto armazem é muito elegante; o tympano tem um escudo de armas e a data da construcção, 1498. O primeiro corpo d'este edificio, para o qual o portal dá saida para a rua, é o mais elevado; sendo dividido até ao telhado, em tres andares, e em quatro se comprehendermos os famosos subterraneos abobadados; depois apresenta seis andares ou galerias sobrepostas umas ás outras.

 
Figura 250: Vista exterior d'uma parte do armazem de depositos, em Noremberg

Chafarizes

Os chafarizes com feitio de urna não eram raros no seculo XV. O pedestal d'onde saia a agua caia em tanques e apresentava fórmas bastante variadas; construiam-nos algumas vezes em metal.

 
Figura 251: Vista do chafariz de Cully (Calvados)

Entre as fontes sómente com tanque, podemos citar a de Cully, cuja nascente, corre por duas aberturas circulares, nas quaes se vê um pequeno nicho com arcada de feitio trifolio.

Palacios, casas e residencias campestres

Muitos palacios nas cidades, e as grandes residencias campestres, que encerravam todo o necessario para um estabelecimento agricola, offereciam uma importancia tamanha como a dos edificios publicos.

O palacio de Jacques-Cœur, em Bourges, era um dos monumentos civis mais sumptuosos da segunda metade do seculo XV. Citaremos ainda como exemplo aquelle de Cluny, e grande numero de grandes palacios dos seculos XV e XVI. Damos na pagina seguinte a vista geral de uma casa de campo, onde a habitação senhorial está junta á propriedade rural.

N'estas residencias campestres onde se occupavam de agricultura, as diversas casas para esse serviço cercavam o pateo, ora quadrado, ora de forma irregular; e ahi estabeleciam as cocheiras, as cavallariças, os celleiros e os curraes, além da habitação do proprietario.

Nos palacios e nas residencias do campo construidas de cantaria, a escada ficava collocada mui frequentemente em uma torrinha saliente sobre a fachada do edificio, grav. pag. 262 [fig. 253]. Esta torrinha de arestas chanfradas era coberta com telhado em duas aguas, e para se construir esse telhado davam á parte superior da torrinha a forma quadrada, para o que era necessario fazerem-lhe duas abobadas pendentes, afim de ligar os lados cortados com o quadrado de telhado.

As inclinações d'estes telhados eram guarnecidas de crochets em relevo.

Não obstante, havia outras torres que conservavam a mesma forma que tinham na base até ao telhado.

As casas do seculo XV e do principio do XVI, são ainda hoje muito numerosas nas cidades das provincias, as quaes não soffreram, como na capital, transformação completa; apresentam inteiramente os mesmos detalhes na ornamentação, como havia nos outros edificios da mesma época. As esculpturas dos cardos postos nas linhas inclinadas, as folhas de repolho encrespadas, e outras molduras similhantes, ornavam os portaes em ogivas, e algumas vezes tambem as cornijas. As paredes divididas em almofadas guarneciam parte d'ellas.

 
Figura 252: Grande solar com casas de exploração rural em Cully (Calvados)

As janellas, quasi todas quadradas e subdivididas por uma cruzeta de pedra, tinham em roda muitos renques de nervuras prismaticas; um cordão descançando sobre caryatides lhe servia de remate.

As janellas abertas no madeiramento, ou trapeiras, eram coroadas por frontões pyramidaes extremamente delicados e por vezes acompanhados de contrafortes ou arcos butantes com recortes e pinaculos cheios de crochets e lavores. Este systema de ornamentação existiu durante a primeira metade do seculo XVI. Encontramos um bello especimen no palacio de justiça em Ruão.

 
Figura 253: Torre e escada sustentada por abobadas pendentes

Em certos sitios, onde seria facil achar-se boa pedra, as casas de madeira foram menos numerosas que as casas construidas de cantaria.

 
Figura 254: Palacio de Justiça de Ruão
 
Figura 255: Casa de cantaria em Saint-Pierre-sur-Dive

N'aquellas que ainda existem, os andares são bastante salientes, ficando em sacada uns sobre os outros, e as partes reentrantes, que apparecem no comprimento da edificação, são ornadas com molduras. Nas gravuras das paginas 266 [fig. 256] e 267 [fig. 257] vêem-se essas sacadas progressivas dos andares uns sobre os outros; nas cidades de grande população viam-se muitas vezes dois andares superiores ao rez-do-chão, e um terceiro andar posto ainda sobre o telhado, o qual recebia luz por grandes trapeiras. O maior numero das casas particulares tinha a empena voltada para o lado da rua; esta disposição era menos frequente nos palacios ou nas habitações das pessoas abastadas.

Damos, por exemplo, duas casas do fim do seculo XV, construidas de cantaria, primeiramente aquella que existe em S. Pedro-sur-Dive, pag. 264 [fig. 255], na margem do rio, e dependentes do mosteiro dos benedictinos: suppõe-se que serviam de tribunal de justiça d'aquella ordem. A torrinha octogona que guarnece os angulos encerra um oratorio muito elegante. As vigas apparentes do tecto das casas, principalmente as das grandes salas, eram ornadas com obras de talha no gosto da época.

A outra casa é mais consideravel com pateo no interior, o qual mostra galerias e escadas com corrimões de pedra rendilhados, communicando com differentes andares, pag. 266 [fig. 256]. A disposição e a parte saliente d'essas galerias produzem n'essas construcções (como em muitas outras, em que o risco é quasi egual), o seu melhor e mais pittoresco efeito. Ás vezes tambem no plano terreo ha arcadas em roda dos palcos.

As duas casas de madeira do Poids-Royal, em São Ló, foram construidas em 1494, e a outra que ainda existe pertence a Honfleur.

Taboletas e esculpturas emblematicas

Nas casas construidas de madeira, sobre os prumos dos angulos era que muitas vezes se esculpiam as figuras emblematicas para servirem de taboleta, como a de S. Julião do Sault, em França. Na praça vê-se outra casa que no seculo XV servia de hospedaria, onde ha esculpluras symbolisando a applicacão que tem a casa; no cunhal do norte, collocaram uma figura de rosto jovial e como offerecendo com uma das mãos um cangirão e com a outra um copo, em que parece convidar a provar do vinho da adega. Por cima, em duplo nicho, via-se a imagem de S. João com o cordeiro e a pelle do camello; e tambem a imagem de S. Thiago de Compostella com o seu bordão e chapêo de peregrino, allusão bem evidenle ás viagens e aos viajantes.

 
Figura 256
 
Figura 257: Casa de madeira do Poids-Royal, em Saint-Lo
 
Figura 258: Casa de madeira, em Honfleur
 
Figura 259: Esculpturas sobre uma casa de madeira, em Saint-Julien-de-Sault (Yonne)

No outro cunhal apparece a imagem de Santa Barbara com o livro, a torre e a palma do martyrio, e na parte inferior a imagem da loucura representadas em alto-relevo; a presença d'esta ultima figura equivaleria a ter certamente o seguinte letreiro: Aqui ha diversões e abrigo para os viajantes.

 
Figura 260: A cruz de ferro de Saint-Quentin

Juntemos que as taboletas salientes postas da parte de fora das casas, estavam seguras a braços de ferro, mais ou menos ornamentados, os quaes eram bem acceitos no fim do seculo XV. Uma cruz de ferro muito antiga que servia de taboleta á casa que tinha esse mesmo nome, estava collocada proximo dos paços da camara de S. Quentin: essa cruz tinha as extremidades do feitio de ancora, executada no estylo chammejante.

Architectura militarEditar

Os progressos da civilisação dispuzeram cada vez mais os poderosos e os nobres para darem ás suas residencias aspecto menos severo, tornando-as mais commodas, diminuindo-lhes as altas muralhas que as desfeiavam e pareciam isolal-as das povoações circumvisinhas.

Uma circumstancia bastante poderosa fizera diminuir, além d'isso, a importancia dos antigos castellos, cuja fortaleza consistia principalmente na altura das muralhas: queremos fallar do uso da artilheria e das armas de fogo que veio a ser geral no seculo XV. As elevadas torres com seteiras, e trincheiras formidaveis, não podiam resistir ao fogo das peças; conjecturou-se que o systema de defensa seria transformado em pouco tempo, e que uma revolução ia introduzir-se na arte de guerra; então devia ligar-se muito menos importancia ao que dera antes tanta força ás praças fortes e aos castellos feudaes.

Todavia, grande numero de castellos pertencentes á segunda metade do seculo XV apresentava ainda na parte exterior certa apparencia de força; a entrada era defendida por torres com portas e pontes levadiças; as muralhas guarnecidas tambem de torres e besteiras.

Forma geral

A forma mais geral no fim do seculo XV, foi a quadrada. Havia fortalezas cujas casas rodeavam completamente o pateo central; em outras construcções não occupavam mais do que os tres lados do quadrado, ficando o quarto fechado por um muro. Outros castellos occupavam sómente um dos lados do recinto. Os fossos, que cercavam estes castellos, sem agua, tinham geralmente pequena profundidade;—seria pois um obstaculo mui facil de transpôr.

Na verdade, no seculo XV, não procuravam já os logares mais eminentes para se estabelecerem os castellos; tinham reconhecido os inconvenientes, de mais um genero, causados por essas elevadas posições, sempre com entrada dificil, e por isso haviam descido para as planicies e os valles, onde a agua, tão útil ás necessidades da vida, se encontrava com abundancia.

 
Figura 261: Detalhes do castello de Montsereau

Ornamentação

No interior, os castellos não se differençavam quasi nada dos palacios, das casas nobres construidas nas cidades.

Eram, além d'isso, as molduras inteiramente similhantes áquellas que apresentamos na archilectura religiosa e civil da mesma época, taes como nervuras prismaticas muito multiplicadas, arabescos, folhagens profundamente indicadas, crochets, almofadas, arrendados nas pedras, grandes folhas reviradas, cujo movimento fazia lembrar a forma de uma cabeça de elephante, pinaculos apoiados na construcção, nichos, torresinhas pendentes, etc. etc. etc. Até os telhados não ficavam sem ornatos, sendo o espigão guarnecido de cristas, de crochets, ou diversas molduras executadas em chumbo; acima dos telhados conicos das torres apresentavam egualmenle pinaculos as espigas imitadas no chumbo, no ferro ou em argilla.

As seleiras firmavam-se em construcções salientes e em falso, das quaes podiamos apresentar muitas variedades, além dos exemplos que damos a pag. 272 [fig. 261].

Melhoraram as construcções antigas, reconstruiram as portas pondo-lhes pontes levadiças de balanço, cujo uso veiu a generalisar-se; e augmentaram, melhoradas, as muralhas que eram rematadas por não interrompida fileira de seteiras, que ás vezes fechavam o recinto.

Todos os castellos existentes nas margens do Loire pertencem á segunda metade do seculo XV.

As duas torres, de que damos os desenhos na pag. 274. [fig. 262] são tiradas do castello de Langeais, e a outra do de Plessis-Bourré, quasi similhantes; mostrando o gosto d'aquella época, aliás mui elegante.

A parte cylindrica da torre eleva-se para formar um andar (B), por cima da galeria das besteiras (A), de maneira que a torre era dividida em duas partes em logar de ser coberta pelo mesmo telhado. Este systema, consistindo em estabelecer assim muitos andares de defeza pelas torres e tambem pelos muros entre os baluartes, fora adoptado desde o XIV seculo; porém mais geralmente empregado no XVI; posto que, em algumas partes, sejam vistos os dois systemas de construcções no mesmo castello.

 
Figura 262: Uma das torres do castello de Langeais
 
Figura 263: Uma das torres do castello du Plessis-Bourré

Os castellos, que citamos, cujas datas são verdadeiras, apresentam-nos o typo de muitos outros edificios em diversas localidades, durante a segunda metade do seculo XV e nos primeiros annos do XVI seculo.

 
Figura 264