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Nos Campos
por Guilherme de Azevedo
Poema publicado em A Alma Nova

A fragrancia do trevo o das flôres selvagens
Da noite embalsamava as tepidas bafagens:
Ao longe os astros bons olhavam-nos dos céos.
O mundo era um altar; as serras grandes aras;
E os canticos da paz corriam nas searas
Em honra do bom Deus.

No solemne silencio immersa ia minha alma
Em tranquilla mudez; n'aquella doce calma
Que sente germinar os frescos vegetaes.
De subito uma voz deixou-me um pouco extatico:
Detive-me um momento; olhei:—era o viatico!
De noite a horas taes,

Que andava Deus fazendo, assim, pela campina,
Trazido pela mão d'um padre sem batina
Roubado ás sensações d'um longo resonar?
Fui seguindo o cortejo até que n'uma choça
O Rei dos reis entrava: o padre, com voz grossa,
Movia-se a rezar.

Nos restos d'uma enxerga, ali, no vil cazebre,
Um pobre cavador, mordido pela febre,
Torcia as grossas mãos nas ancias do estertor;
E os filhos semi-nus sentindo a pena ignota
Tentavam-se esconder na velha saia rota
Da mãe louca de dôr!

A voz do sacerdote a custo resoava.
A palavra d'amor que ali se precisava,
Não posso dizer bem se acaso elle a soltou.
Falava o Deus severo e forte dos castigos,
Ou esse bom Jesus que aos pés d'alguns mendigos
Um dia ajoelhou?

Do padre tinham medo os tremulos pequenos.
Os magros cães fieis erguendo-se dos fênos
Latiam tristemente em volta do cazal:
E o levita lançava áquella noite escura
A benção derradeira, erguendo a mão segura,
N'um gesto machinal!

Depois transpondo, á pressa, a porta da cabana,
Sahia sem deixar da sãa verdade humana
O balsamo suave, o dom consolador!
Oh, de certo o Jesus de que nos fallam tanto
Não era o que deixava ali, n'aquelle canto
Sósinha a mesma dôr!

Sorria Deus, no entanto, em toda a natureza!
Nas florestas, no val, nas serras, na deveza,
Nas moitas dos rozaes, no movediço mar!
O constellado azul dir-se-ía um sanctuario!
Havia aquelle albergue apenas solitario,
E frio o pobre lar!

E o rude agonisante, o triste moribundo
Que em breve ía partir; abandonar o mundo;
Os seus deixando sós, na terra, sem ninguem,
Talvez ao presentir o fim da insana lida
Soltasse maldicções, ainda, contra a vida
E contra nós tambem!

E eu lembrei-me então d'aquelles bons valentes
Que lutam todo o dia e vão morrer contentes
Á noite, ao pé dos seus, depondo os vãos laureis;
E d'aquelles, tambem, de frontes requeimadas
Que pela causa santa, em pé, nas barricadas,
Se batem contra os reis!

Lembraram-me os heroes, serenos, bons, austeros,
Que sagram toda a vida aos ideaes severos
Da justiça e do bem; caíndo com valor,
Sem que a dextra cruel dos despotas os dome
Nas batalhas da idéa; oppressos pela fome,
Varados pela dor!

Ó pobres multidões! as grandes noites frias
Não cessam de morder, famintas e sombrias,
N'um banquete nefando os vossos corpos nus!
E o lyrio da justiça; a grande flôr sagrada,
Nem sempre mostra, em vós, aberta e desdobrada,
As petalas de luz!

Eu quando porem lanço as vistas ao futuro
E vejo dia a dia a despontar mais puro
O grande sol da idéa, em rubidos clarões,
Recordo-me que sois a productiva leiva
Aonde já circula uma opulenta seiva,
De grandes creações!