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Novo sortimento de gorras para a gente de grande tom

Novo sortimento de gorras para a gente de grande tom
por Luís da Gama
De repente, magoado

Da carapuça maldita,
Qual possesso, o pobre grita
Contra o fabricante ousado!
Debalde o artista, coitado,
Já de receio convulso
Quer provar que nobre impulso
O move, quando trabalha!
— A carapuça que talha
Ninguém crê ser feita avulso!

Faustino Xavier de Novais


Se estudante que vive à barba longa,
Excedendo, no grito, uma araponga,
Braveja contra o fero despotismo,
No lethes sepultando o servilismo;
E depois quando chega a ser doutor,
Se transforma em cediço adulador;
Permuta consciência por dinheiro,
E se faz, do Governo, fraldiqueiro:
Não te espantes, Leitor, desta mudança,
São milagres da Deusa da pitança.

Se vires um tratante ou embusteiro,
Com tretas, iludindo ao mundo inteiro,
A todos atirando horrendo bote,
Sem haver quem o coce a calabrote;
Se vires o critério desprezado,
O torpe ratoneiro empoleirado,
Orelhudos jumentos — de gravatas,
E homens de saber a quatro patas:
Não te espantes, Leitor, da barbaria,
Que é Deusa do Brasil, a bruxaria.

Se dormem de bolor encapotadas,
Roídas do gusano, esfarrapadas,
Nossas Leis, sentinelas vigilantes,
D’empregados remissos e tratantes;
Se o Júri criminal, da nossa terra,
Postergando o direito, sempre aberra,
Punindo com rigor pobres mofinos,
E dando liberdade aos assassinos:
Chiton, pio Leitor, não digas nada —
A Lei, cá no Brasil, é patacoada.

Se perluxo e dengoso magarefe,
Com passinhos de dança, tefe-tefe,
Entre as damas pretende ser Cupido,
Mas, chupando codilho, sai corrido;
Se um varão de coroa, digo, Padre,
Por obra do divino, c’a comadre,
Fabrico deu filhinho, por brinquedo,
Impinge no marido — psiu!... segredo!
É que sobre a sacristia mais constante
Imperam os decretos de Tonante.

Se o pobre, do trabalho extenuado,
Num dia de prazer fica monado;
E a ronda, que tropeça e cambaleia,
Encaixa o miserando na cadeia;
Se fortes Brigadeiros, Coronéis,
Habitam as tabernas, e hotéis;
A gente do bom-tom, os Deputados,
Se torram e não saem encarcerados
É que a pinga, entre nós, esta vedada
Àqueles que não têm gola bordada.

Se o maçante orador, estuporado,
Ardente por chupar seu — apoiado,
Excita o apetite à parceirada
Com cediça modéstia enfumaçada;
E, depois, diz, que a rosa tem perfume,
Que esvoaça de noite o vagalume,
Que o tabaco se toma pelas ventas,
E que as coisas benzidas ficam bentas:
É que fofa sandice, os disparates,
Empanturram a casa dos orates.

Se um tolo aparvalhado sem juízo,
Se arvora em literato, d’improviso,
Arrota erudição — em pleno dia
Esbarra de nariz na ortografia;
E outros que nas letras são mofinos,
Vão mostrando ao pateta os desatinos,
Curvando-se ao provérbio, mui sabido;
Que o farrapo se ri do descosido.
É que os cegos não andam pelos nobres,
Mas seguros à mão dos outros pobres.

Se o homem que nasceu pra sapateiro,
E em direito, pretende ser Guerreiro,
Sovelando de rijo no Lobão,
— Ferra o dente na velha Ordenação;
Se o lorpa que nasceu para jumento,
Não tendo cinco réis de entendimento,
Banido da ciência, bestalhão,
Por força do dinheiro, sai Barão:
É que a honra, a virtude, a inteligência,
Não passam de estultícia ou vil demência.

Se erudito doutor, filosofal,
Querendo dar noções do animal,
Nos demonstra que a pata põe o ovo,
E dele brota o pinto, ainda novo;
Que segundo os regimes da natura,
Difere do cavalo na figura;
E metido entre a cruz e a caldeirinha
Vai dar co’a explicação lá na casinha;
É que o néscio chegou a sabichão
Por milagre de santa proteção.

Se torto alambazado palrador,
Mais tapado que chucro borrador,
Testo imbróglio tecendo impertinente,
De camelo, que era, se faz gente;
E cansando os humanos com sandices,
Por verdades impinge parvoíces;
Já roncando saber, qual tempestade,
Ser nas letras pretende potestade,
É que o néscio, coitado, não trepida,
Sobre os ares formar pétrea guarida.

Se esquentado patola às Musas dado,
Vai, a esmo, trovando sem cuidado;
E cedendo aos arroubos do talento,
Mais rápido se faz que o rijo vento;
E os pólos devassando mui lampeiro,
Sustenta que Netuno foi barbeiro;
Escrevendo tolices de pateta,
Consegue, sem o — Crisma — ser poeta:
É que Apolo sustenta bizarria,
E cavalos precisa à estrebaria.

Eu, que inimigo sou do fingimento,
Em prosa apoquentado sem talento,
Apenas soletrando o b - a - bá,
Empunho temeroso o maracá.
Não posso suportar fofos Barões,
Que trocam a virtude por dobrões;
Qual vespa, esvoaçando, atroz picante,
Com sátira mordaz, sempre flamante,
Picando, picarei por toda a parte,
Se a tanto me ajudar ferrão e arte.