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O Barão da Borracheira
por Luís da Gama
Quando pilho um desses nobres,

Ricos só d’áureo metal
Mas d’espírito tão nobres
Que não possuem real.
Não lhes saio do costado;
— Sei que é trabalho baldado,
Porque a pele dura tem;
Mas eu fico satisfeita,
Que o meu ferrão só respeita
A virtude, e mais ninguém!

Faustino Xavier de Novais — “A Vespa”


Na Capital do Império Brasileiro,
Conhecida pelo — Rio de Janeiro,
Onde a mania, grave enfermidade,
Já não é, como d’antes, raridade;

E qualquer paspalhão endinheirado
De nobreza se faz empanturrado —
Em a rua, chamada, do Ouvidor,
Onde brilha a riqueza, o esplendor,
A porta de um modista, de Paris,
Lindo carro parou — Número — X —,
Conduzindo um volume, na figura,
Que diziam, alguns, ser criatura,
Cujas formas mui toscas e brutais,
Assemelham-na brutos animais.
Mal que da sege salta a raridade
Retumba a mais profunda hilaridade.
Em massa corre o povo, apressuroso,
Para ver o volume monstruoso;
De espanto toda gente amotinada
Dizia ser coisa endiabrada!

Uns afirmam que o bruto é um camelo,
Por trazer no costado cotovelo,
É asno, diz um outro, anda de tranco,
Apesar do focinho d’urso-branco!
Ser jumento aquele outro declarava,
Porque longas orelhas abanava.
Recresce a confusão na inteligência,
O bruto não conhecem d’excelência!
Mandam vir do Livreiro Garnier,
Os volumes do grande Couvier;
Buffon, Guliver, Plínio, Columela;
Morais, Fonseca, Barros e Portela;
Volveram d’alto a baixo os tais volumes,
Com olhas de luzentes vagalumes,
E desta nunca vista raridade
Não puderam notar a qualidade!

Vencido de voraz curiosidade
O povo percorreu toda cidade;
As caducas farmácias, livrarias,
As boticas, e vãs secretarias;
E já todos a fé perdido tinham,
Por verem que o brutal não descobriam,
Quando idéia feliz, e luminosa,
Na cachola brilhou dum Lampadosa;
Que excedendo em carreira os finos galgos,
Lá foi ter à Secreta dos fidalgos;
E dizem que encontrara registrado
O nome do colosso celebrado:
Era o grande Barão da Borracheira,
Que seu título comprou na régia feira!...