O Batel!

O Batel!
por José da Silva Maia Ferreira
Poema publicado em Espontaneidades da minha alma.


Rema, rema, gondoleiro,
Que bem me faz teu remar,
Corta as vagas, rema, rema,
Prestes corre sem parar.

Solta a véla, cassa a escola,
Deixa o batel voar,
Qu’este andar tão vagaroso
Crua dôr me faz penar.

Que t’importa o rijo vento
Que tão forte vae soprar? —
Solta a véla, gondoleiro,
Corre e vôa sem parar.

Que t’importa o furacão,
E essas ondas a brigar?
Rema, rema, gondoleiro
P’ra o logar que t’indicar.

Vae ao porto do destino
Em que a sorte me fadou
Procurar quem só de amores
Cruelmente me matou.

Quem tambem a vida e a morte,
E o coração me roubou,

Esse anjo que na terra
Minh’alma idolatrou.

Quem venturas só do Ceo
Magamente m’infiltrou
A mim, que louco d’amor,
Louco e insano me tornou.

Rema, rema, gondoleiro,
Que bem me faz teu remar,
Corta as vagas, rema, rema,
Corre e vôa sem parar.

Porém não! — Cassa a vela,
Leva remos, gondoleiro,
Eis o porto do meu fado
Do meu fado derradeiro.

Vou cumprir uma missão —
Não sei mais se voltarei
Nunca digas, gondoleiro,
As vozes que aqui soltei!