Oconde de Trava acertara nas suas previsões: o ajuntamento da cúria fora longo e tempestuoso. Os parciais da rainha, isto é, aqueles cujo poder e ambição se estribavam na influência do conde, patentearam aí, com toda a energia e afecto, a sua inabalável fidelidade à filha de Afonso VI, à qual eles não podiam quebrar seu preito sem se cobrirem de opróbrio; por outra parte, aqueles que tinham já posto a mira em alcançarem do moço infante as alcaidarias, os meirinhados, as tenências e os cargos da corte, acesos no santo amor da justiça, pugnavam para que a ele se entregasse a herança paterna. Era a luta da consciência de uns contra a consciência dos outros, combate desgraçadamente trivial em todas as épocas de dissensões civis, e de que só é culpada a Providência por assim colocar os bandos sob o jugo de persuasões opostas, e estreitá-los entre o desejo da salvação das suas almas e a cruel necessidade de serem inimigos e perseguidores de compatrícios e irmãos, com grande e interior mágoa sua, como nós e o leitor perfeitamente sabemos costuma acontecer em tais casos!

Dos ricos-homens, cavaleiros e clérigos, portugueses por nascimento, que ainda não seguiam abertamente o pendão de Afonso Henriques, alguns neste momento decisivo mostraram a sua resolução firme de confiar na fortuna de D. Teresa; mas a maior parte voltava-se para o sol que nascia, tudo por amor da boa terra de Portugal. Entre os primeiros, nas violentas altercações da cúria, se haviam distinguido os dois infanções, Aires Mendes e Pedro Pais, entre os segundos o Lidador, que cumpriu o que prom etera a Martim Eicha. Fernando Peres viu muitas vezes vacilantes as suas esperanças, porque os nobres companheiros do conde Henrique, vivendo havia tanto tempo na Espanha, começavam a confundir nos seus instintos políticos a ideia das instituições francas com a índole das tradições sociais visigodas, que sempre preponderaram na Península. A rainha expusera as pretensões de seu filho perante os barões: Veremudo Peres, irmão do conde de Trava, genro da rainha, e senhor de Viseu, que viera assistir àquela espécie de parlamento, tomando a mão, invectivara furioso contra o infante, seu cunhado, e não poupara feros e ameaças contra os parciais dele. A cólera do Lidador não precisava de tanto para ser excitada, e palavras igualmente violentas saíram da sua boca em resposta às de Veremudo Peres. Acusou o conde de vexames de todo o género e ameaçou também aqueles que o ameaçavam. Pouco a pouco o tumulto, começado pelos dois, dilatou-se e cresceu. As injúrias voaram de parte a parte, os ferros polidos dos punhais principiaram a reluzir meio arrancados dos cintos, e a sala do conselho ia converter-se num campo de batalha, quando dois homens, talvez os únicos que pelo seu carácter público e ainda mais pela sua condição moral o podiam alcançar, atalharam as cenas de sangue de que os paços de Guimarães estavam a ponto de serem teatro. Quase ao mesmo tempo dois sacerdotes se alevantaram a pedir tréguas em nome de Deus. Era D. Telo, arcediago de Coimbra, um deles; o outro, Fr. Hilarião, o bom velho abade do Mosteiro de D. Muma, que já o leitor conhece. Àquele dissera muitas vezes D. Teresa que assaz grato lhe seria vê-lo bispo da sua sé, a qual então se achava órfã de pastor; a este, a predilecção que sempre mostrara ao seu mosteiro e a ele em especial o moço príncipe fazia crer com bom fundamento que não eram vãs de todo várias palavras que uma vez lhe ouvira soltar acerca não sabemos de que doação ao santo ascetério de Guimarães, de certa vila ou herdade, com cinquenta homens de criação, e seus montes e pastos, fontes e lagoas, êxitos e regressos. Não os moviam na verdade estas circunstâncias que apontámos casualmente, a serem, D. Telo inclinado a favorecer a justiça da bela infanta, e Fr. Hilarião a justiça de Afonso Henriques. Pregoava-os o mundo por virtuosos: nós ajuntamos o nosso brado ao do mundo. Mas é indubitável que ambos eles estavam persuadidos de que o outro seguia uma causa má, e afligiam-se profundamente de verem assim a virtude desvairada e perdida no meio do campo contrário.

Alguém que subitamente entrasse no lugar em que se ajuntara aquela espécie de parlamento e visse os dois sacerdotes, pálidos e trémulos, proferirem palavras de razão e de paz no meio do tumultuar e vozear dos ricos-homens e infanções, cujos olhos chamejavam de cólera, cujas mãos confrangidas apertavam os punhos dos bulhões que reluziam já meio arrancados, atribuiria forçosamente a sua linguagem melíflua e cheia de unção ao temor de serem vítimas indefensas dos brutais homens de guerra, se porventura o sangue começasse a correr, visto que nem a cogula do beneditino, nem a garnacha do arcediago eram apertadas com o cinto de couro recamado, que cingia os briais dos cavaleiros, e com que eles apertavam ao peito, da esquerda a espada, e da direita o punhal. Enganar-se-ia, contudo, quanto a nós, quem a tais motivos atribuísse as palavras dos dois homens de Deus. Ainda cremos na virtude dos cultores da política: sabemos por experiência que a maior parte das vezes as suas expressões são singelas, e nascem de crenças mui fundas; sabemos também que as suas opiniões são em geral desinteressadas, e que jamais é o medo que os incita a pregarem a concórdia e a paz. E se isto é assim nestes tempos de perversão moral, com bom fundamento afirmamos que eram puras e generosas as intenções daqueles dois ministros do Senhor, num século em que as doutrinas do cristianismo estavam vivas e a caridade era fervorosa e sincera.

É certo, porém, que apesar das diligências que fazia cada um deles para aquietar o furor da respectiva parcialidade, por muito tempo o alarido dos cavaleiros, que se doestavam com bastas e grosseiras injúrias, cobriu as débeis vozes dos varões apostólicos. Finalmente foram ouvidos. Areputação de santidade de que ambos gozavam - no seu bando, já se entende -, porque em épocas de ódios civis as reputações facilmente tocam o extremo da profundeza, mas na extensão ficam sempre em metade; essa reputação, dizemos, mais ainda que a força das suas ponderações, fizeram pouco a pouco asserenar a tempestade. Os ricos-homens, infanções e cavaleiros vieram enfim a uma conclusão razoável; isto é, saíram dali cada vez mais aferrados às suas opiniões, e sem concluírem nada.

Um resultado importante produzira, todavia, aquela assembleia: as máscaras haviam caído de todas as faces: todas as equações políticas estavam resolvidas. Cada rico-homem sabia em qual das hostes havia de hastear seu pendão, e cada simples cavaleiro a que pendão se havia de unir. A sorte de Portugal ficava escrita nas pontas das lanças e nas puas das maças de armas. A cúria ia traçar a derradeira sentença à luz do céu - no campo de batalha.

Como se fosse alheio aos acontecimentos daquele dia, o dissimulado e manhoso Fernando Peres saíra da cúria dos barões com o sorriso nos lábios e a raiva no coração. Ficara sabendo que o poder da rainha, ou antes o seu, quase exclusivamente se estribava no braço dos cavaleiros estranhos, e que a fidalguia dos dois condados de Portugal e Coimbra, que ainda não erguera o estandarte da revolta, não tardaria a seguir o exemplo dos que já se haviam declarado pelo infante. Atribuía à influência de Gonçalo Mendes da Maia este sucesso, e o seu ódio contra ele tinha subido de ponto. O Lidador foi, portanto, aquele a quem neste dia mostrou mais prazenteiro rosto.

Um banquete esplêndido havia de terminar a convocação da cúria ou cortes. Os graves cuidados, que durante a manhã tinham ocupado os cortesãos e ricos-homens vindos àquela assembleia, deviam dissipar-se no meio das delicadas iguarias e das taças de vinho escumante. Na mesma sala de armas, onde na véspera ressoara o tripudiar do sarau, ia restrugir naquela noite o folgar do banquete, mais ruidoso ainda, porque nesse dia havia chegado a Guimarães grande número de fidalgos de Galiza, que em Portugal tinham préstamos e alcaidarias da bela infanta, ou antes do conde de Trava. Os vastos aposentos do paço brilhavam com toda a pompa de um dia de festa na Idade Média. As calças de muitas cores, as plumas das toucas dos senhores, os ricos briais e cotas, onde já a armaria, que as guerras de ultramar começavam a converter em moda, estreara as suas divisas e bordaduras fantásticas, davam um aspecto de alegria àquele concurso, que debalde se buscaria nas reuniões modernas, monótonas e tristes em trajos como em quase tudo. Pelos eirados e miradouros, pelos adarves e torres do castelo, pelas frestas e balcões do palácio viam-se olhar, gesticular, correr, sumir-se, aparecer de novo, centenares de cavaleiros. As escadas, os pátios, referviam de escudeiros e pajens, que subiam, desciam, apinhavam-se e dividiam-se em agitação contínua. E o ruído e confusão não se limitavam ao castelo: as ruas e quelhas tortuosas do burgo sussurravam com o perpassar dos homens de armas, dos besteiros e da peonagem, que seguiam para toda a parte os ricos-homens e infanções, em maior ou menor número, segundo a graduação e poder de cada um deles. Era este um distintivo de nobreza que raras vezes o fidalgo daquelas eras esquecia, e muito menos quando era, como então se dizia, chamado a cas d'el-rei. Assim nestas assembleias políticas, donde nasceram as antigas cortes, mais frequentes do que geralmente se crê, a povoação destinada para elas oferecia um espectáculo de desordem e de motim impossíveis de descrever; por tal arte que se inimigos houvessem tomado de assalto a cidade ou vila, onde tais cenas se passavam, a alarida não seria maior nem a confusão mais completa; e a única diferença seria que neste último caso o sangue jorraria em tanta quantidade, como naquele jorrava o vinho, e os gritos de dor e angústia substituiriam os brados e risadas convulsas da embriaguez.

No meio deste burburinho, por toda a parte atroador, mas infernal nas salas principais do paço, era notável o cuidado com que o conde de Trava procurava não perder de vista o Lidador. Se a alguém fosse possível reparar nisso, fácil lhe fora adivinhar os motivos de semelhante procedimento, depois do que se passara na cúria, e atento o carácter dissimulado, mas cauteloso, do conde. Era um inimigo que devia causar-lhe sérios receios, e, apesar das diligências que fazia para os encobrir sob um gesto festivo, lá se divisava no seu olhar inquieto o susto e a cólera que lhe ralavam o coração.

Assim vigiando os passos de Gonçalo Mendes, Fernando Peres o tinha seguido de sala em sala, procurando escutar o que ele dizia nos diversos grupos de cavaleiros a que se ajuntava. Mais de uma hora havia que o conselho se apartara, e ainda o conde não tinha deixado um instante de o ver e ouvir, quando um escudeiro do Lidador, rompendo pela turba dos fidalgos, se chegou ao seu amo e lhe disse em voz baixa:

— Senhor, um peão, que afirma ser chegado há pouco da Terra Santa, pretende falar-vos e ao mui reverendo Fr. Hilarião. Diz que vos traz mensagens de amigos vossos, que ora andam em demanda do Santo Sepulcro. Um homem de sua reverência o busca por toda a parte, e eu vim entretanto avisar-vos.

— Um peão vindo da Palestina com mensagem a mim? - replicou o Lidador em voz alta. - À fé que me parece estranho caso! Não disse quem o mandava?

— Não, meu nobre senhor - respondeu o escudeiro -, nem eu me esqueci de lho perguntar: a sua resposta única foi que a vós, e só a vós, o diria.

— Bem! Talvez assim lho ordenassem.

Proferindo estas palavras, o Lidador saiu, encaminhando-se para as largas escadas que davam para o grande pátio do castelo em frente dos paços.

O conde de Trava percebera, posto que imperfeitamente, este diálogo. Um pensamento de desconfiança lhe passou pelo espírito, e o seu primeiro impulso foi continuar a seguir Gonçalo Mendes. Mas esta insistência era já demasiada e podia excitar as suspeitas do cavaleiro. Hesitava ainda entre o ir e o ficar, quando viu perto de si Tructesindo, seu sobrinho e seu pajem, filho de Veremudo, e que muito lhe queria. Deus ou o demónio era quem ali lho enviava. Uma ideia lhe ocorrera subitamente ao ver o mancebo.

— Ouve cá, Tructesindo - disse ele ao gentil pajem, acenando-lhe com a mão e sorrindo.

— Que ordenais, meu senhor e meu tio? - perguntou Tructesindo, chegando ao conde e cravando nele os olhos, em que se pintava toda a malícia possível num rapaz da sua idade.

Fernando Peres afagou-o pondo-lhe a mão sobre a cabeça, donde se lhe esparziam em ondas sobre os ombros os louros e anelados cabelos.

— Apraz-te, meu sobrinho, o ver esta grão-peça de cavaleiros, que muitas vezes se acharam já em lides de mouros, e que outras tantas têm ganhado o preço de justas e torneios, e sido proclamados vencedores por formosas damas, ao som de címbalos e trombetas, nos jogos da argolinha e do tavolado? Que me deras tu por ser um deles, e cingires uma espada e adaga?

— Dera, meu bom tio - respondeu o pajem -, dez ou vinte anos de vida para se acrescentarem à vossa, e não vos daria nada. Bem podíeis vós, se quisésseis, armar-me já cavaleiro, como me prometestes para daqui a um ano. Tenho dezassete e os dezoito vêm tão tarde!

— Por minha alma que respondeste avisado! - replicou o conde. - Não quisera eu anos da tua vida para ajuntar aos meus, que de ora avante me vêm aborridos e trabalhados. Brevemente eu te armarei cavaleiro: talvez em poucos dias ao som do tinir de golpes em fera arrancada. Basta que a paga de minha mercê seja cumprires afincadamente o feito de que vou encarregar-te.

— E fá-lo-ei de bom grado - tornou Tructesindo. - Mandai, meu tio, que eu vos obedecerei.

— Um peão, vindo de longes terras, buscava há um momento Gonçalo Mendes da Maia e o abade de D. Muma. O cavaleiro e o monge devem ora estar com esse mensageiro lá em baixo. Acerca-te deles por meio do tropel que flutua apinhado por toda a parte, e procura saber quem é, o que quer, donde veio. Escuta também, se puderes, suas palavras.

— E depois? - perguntou o gentil pajem.

— Vem prestes dizer-me o que lá se há passado.

Ligeiro como um gamo, Tructesindo desapareceu. O conde, chegando daí a pouco a um dos balcões da imensa sala de armas, viu ainda o Lidador e o abade que, encaminhando-se para uma viela, que corria entre os paços e o lanço ocidental da muralha, pareciam atentos às palavras de um homem, cujo rosto ele não pôde bem divisar, porque o levava meio escondido no capuz de um amplo zorame de lã parda e grosseira, que quase até aos pés o cobria. Perto porém dos três viu Tructesindo, que fingia retouçar com os outros pajens, ora travando-se a braços com eles, ora fugindo com grandes apupos e risadas, mas girando sempre, como a borboleta ao redor da fogueira, em volta de Gonçalo Mendes, do desconhecido e do abade.

Satisfeito da habilidade com que o seu pajem parecia desempenhar a comissão que lhe dera, Fernando Peres voltou-se para dentro sorrindo de contentamento. Achou-se então face a face com Garcia Bermudes tão triste no aspecto como nessa manhã o encontrara. Além disso, porém, no carrancudo do gesto dava mostras de que ideias mui graves o preocupavam. No seu ar o conde percebeu que ocorrera algum acontecimento extraordinário.

— Preciso de falar-vos à puridade - disse Garcia Bermudes, procurando não ser ouvido dos cortesãos que perpassavam.

— Vinde comigo - respondeu o conde de Trava no mesmo tom e travando-lhe do braço.

À esquerda da sala de armas uma pequena porta dava passagem para extenso e escuro corredor, em cujo topo havia outra porta fechada: o conde tirou uma chave, abriu-a e, cerrando-a após si, os dois cavaleiros se acharam em uma espécie de jardinzinho pênsil, assentado sobre uma alta arcaria, que ligava uma das torres do castelo com os paços da bela infanta. As câmaras desta, e os aposentos habitados pelas suas damas e donzelas, cercavam por dois lados este pequeno terrado coberto de flores e arbustos viçosos. Um desses engenhos árabes, que ainda hoje cobrem o solo da Península e fertilizam as nossas veigas e pomares, ministrava constantemente àquele ameno horto, de um poço profundíssimo talhado no rochedo em que repousavam os fundamentos do castelo, água cristalina, que ao cair num tanque de mármore sussurrava brandamente. Junto dele um salgueiro copado formava uma espécie de caramanchão sobre um banco de pedra. Foi para aquele sítio que o conde conduziu Garcia Bermudes, dizendo-lhe:

— Aqui podes seguro falar.

— Acaba de chegar um dos esculcas, que andam disfarçados em besteiros da beetria de Gontingem no arraial do infante - disse o cavaleiro -: dá rebate de que a hoste rebelde caminha para estes sítios. O velho Egas Moniz de Riba de Douro veio a ela com cem lanças. São já perto de mil homens de armas os que D. Afonso capitaneia. Segundo se diz, ele pretende dar-vos batalha, e conta com alguns dos senhores da corte que espera tomem sua voz: o mui reverendo Martim Eicha a quem incumbistes juntamente comigo de introduzir aforradamente o mensageiro ao postigo de ábrego, foi dar conta destas novas à mui excelente rainha, enquanto eu vos buscava.

— Que esse louco mancebo venha, e achará meus pendões tendidos no campo. Aí receberá o preço da sua ousadia insensata. Mas engana-se contando com os falsos que nos cercam. Conheço-os, e aos leais! Eu deceparei o colo da serpente... Gonçalo Mendes! Gonçalo Mendes! em hora aziaga vieste à corte, em hora aziaga te demoraste! Garcia Bermudes, a infanta de Portugal, a filha dos reis de Leão, acaba de escolher-te para seu alferes: a ti pertence o governo de todos os seus homens de armas. Ao acabar do banquete devem estar levantadas as pontes das barbacãs, estas guarnecidas de vigias, e em cada lanço uma rolda e sobrerrolda. A ninguém é permitido sair do recinto do burgo: nem a mim próprio. Alferes-mor de Portugal, são estes os mandados da rainha D. Teresa: vós fareis que sejam cumpridos à risca!

Ao proferir estas palavras, todas as paixões cruéis, tençoeiras, furiosas, que ferviam comprimidas no coração do conde, se lhe pintavam no demudado das faces, no trémulo dos lábios brancos, nas rugas profundas da fronte carregada. Depois de um momento de silêncio, saindo arrebatadamente do caramanchão, pros seguiu:

— Se tendes mais que dizer, dizei-o. No momento do perigo nunca hesitei. Tereis uma resolução pronta.

— Só que obedecerei pontualmente ao que ordena minha senhora e rainha - respondeu o novo alferes.

Neste momento um vulto apareceu no limiar da porta entreaberta por onde os dois haviam entrado. Era o bufão, que olhava fito para o Sol que se punha, fazendo-lhe visagens e cantarolando sem reparar nos cavaleiros:

 
Tu vais-te: mas voltas.
E eles ir-se-ão
E não voltarão.
Froilaz ou Froilão;
Fernando de Trava,
E o seu valentão,
Dom Bulrão,
D'Aragão,
Que de Dulce,
Bela Dulce,
Quer a mão...
Diabo!. . .

Engolfado na sua trova, Dom Bibas, a quem algum génio avesso impelira a esc oar-se pelo corredor escuro e a entrar no jar-dim, voltara de repente a cara e dera ao pé de si com os dois cavaleiros que o escutavam.

— Que dizias tu de Dulce, bufão? - perguntou o conde com gesto severo e lançando de relance os olhos para Garcia Bermudes.

O bobo leu no aspecto de Fernando Peres que se achava num daqueles trances arriscados, em que as suas injúrias em vez de aplausos só lhe acarretavam maus tratos. Todavia o dito estava dito. Pôs-se a mirar os balegões dos cavaleiros: eram de pele de gamo e de sola delgada, revirados na ponta em compridos bicos, segundo a moda do tempo. Fez rapidamente o seguinte dilema: ou a extrema ousadia me salva, ou o que já disse me perde. Em todo o caso, preso por mil, preso por mil e quinhentas. Avante! E fazendo uma profunda cortesia respondeu:

— Dizia esta humilde criatura que vós, mui nobre D. Garcia, sois parvo em perseguir com vossos ridículos amores a minha boa Dulce; e que vós, senhor conde de Galiza, nos faríeis especial mercê em irdes visitar as corujas do vosso castelo de Faro...

— Dom Bibas! - interrompeu o conde.

O bobo continuou:

— Deixando, com os vossos galegos brutais e com os vossos aragoneses estúpidos, os nobres paços de Guimarães àquele que os herdou de seu pai, o tio D. Henrique, antigo truão de minha corte...

— Dom Bibas! - atalhou de novo o conde, cuja cólera tinha chegado ao seu auge, sorrindo ferozmente - os que te enviaram para me dizeres o que eles guardam nos corações covardes esqueceram-se de vestir-te um saio de malha bem estofado!...

Neste momento abriu-se uma das portas dos aposentos da bela infanta, e o capelão Martim Eicha, acompanhado de dois donzéis de D. Teresa, dirigiu-se para o conde:

— Senhor de Trava - disse o reverendo cónego -, a rainha quer imediatamente falar-vos.

— Eu ia pedir isso mesmo - respondeu o conde. - Mas antes de partir quero mostrar a traidores, na punição de seu mensageiro, que também saberei puni-los. Donzéis, arrastai este miserável daqui, e entregai-o ao vílico do castelo, que o mande açoutar pelo mais robusto dos meus cavalariços, até que o sangue lhe brote das costas, como da língua vilíssima lhe brotam insolências alheias.

O pobre Dom Bibas tinha errado completamente o dilema, por não meter nele os tagantes ou tiras de couro cru com que se castigavam os homens de criação, e que ele nunca provara. Posto que já com voz trémula, tentou ainda uma bufonaria, e atirando ao chão aquele seu vulto de pipa pôs-se a gritar:

— Não, que eu não vou!

— Donzéis, obedecei! - bradou o conde, encaminhando-se para os aposentos da infanta.

Dom Bibas desenganou-se então de que o caso era sério. Dando largas ao temor, arrastou-se após Fernando Peres, exclamando com todos os sinais de viva aflição:

— Piedade, senhor conde! Prometo...

O conde desaparecera.

— Levai-o, donzéis! - disse o novo alferes-mor.

— Também vós, Garcia Bermudes? Não! não! vós salvar-me-eis destes...

Garcia saíra pela porta fatal do corredor escuro, que fora a perdição do bobo. Só ficara ali o cónego de Lamego, que parecia observar como os donzéis executavam as ordens do conde.

Estes, de feito, tinham posto mãos violentas no roliço vulto do respeitável Dom Bibas e, travando-lhe cada qual do seu braço, se assemelhavam a dois mastins pouco dispostos a largar a preia. O bufão com voz truncada de soluços acorreu-se então à ténue e última esperança que lhe restava.

— Assassinos malditos, deixai-me! - gritou ele dando um empuxão aos dois mancebos que levou após si. E, agarrando-se à garnacha de Martim Eicha com toda a ânsia do susto e da desesperação, começou uma ladainha de súplicas:

— Boníssimo e reverendíssimo senhor capelão-mor, que vossa virtuosa reverência valha a um miserável jogral, que a terra de ante vossos pés beija! É dos caridosos e de grande coração perdoar aos que os ofenderam. Eu tenho pecado contra vós. Peccavi! Estou contrito. Contritus sum! Pedi por mim, santíssimo e venerabilíssimo padre. Ninguém me incitou para dizer o que disse. Foi o diabo que me tentou. Abrenuntio!... Podeis asseverá-lo a meu ilustre senhor, o nobre conde de Trava!...

— Filho - respondeu Martim Eicha, fazendo um ademã entre hipócrita e de escárnio -, o castigo é muitas vezes caminho para o arrependimento. Resigna-te, meu filho. Se nisso não houvera vanglória, dir-te-ia que no sofrimento de injúrias podias aprender de mim a ser resignado.

Proferindo estas palavras, Martim Eicha alcançara soltar o vestido das mãos do bobo, e com um sorriso de vingança satisfeita, seguira os vestígios do conde.

Dom Bibas perdeu a derradeira esperança.

Então o excesso do terror e da desesperação produziu naquele espírito, onde por anos se desenvolvera e alimentara constante irritação, uma destas revoluções morais em que, no meio de tormentosa crise, o homem se transmuda em outro homem. Ergueu-se, e com gesto desvairado bradou:

— Está bom! Ninguém se compadece de mim! Serei açoutado como um vil servo judeu! O bobo receberá essa afrontosa pena; mas ele se converterá num demónio...

Neste ponto Martim Eicha, que cruzava o limiar da porta, voltou os olhos e fitando-os no bufão deu uma risada. Dom Bibas prosseguiu, cerrando os punhos e mordendo-os:

— Ris, vil renegado?! Ris, alcaiote paceiro?! Um dia virá em que chores!... Vamos, escravos! À risca as ordens do conde covarde!

Dizendo isto, o bobo, com passo firme e no meio dos dois donzéis que nunca o haviam largado, atravessou o corredor escuro. Daí a pouco, em um pátio interior, ouviam-se-lhe os gritos dolorosos por entre o som dos açoutes, e apupos e gargalhadas de pajens, sergentes e cavalariços.