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O Caçador Feroz
por Gottfried August Bürger, traduzido por Alexandre Herculano
Poema originalmente publicado no jornal O Panorama, sendo posteriormente agrupado em Poesias (1850).

Sua buzina tocára
    O conde, altivo senhor:
    «De pé, de cavallo, álerta!―
    Disse; e monta o corredor.

O nobre animal relincha:
    Pula e parte; e a turba após.
    Ei-los vão! Quem era o conde?
    Era o caçador feroz.

Por estevaes e por sarças,
    Por campinas cultivadas,
    Voam rapidos. Resoam
    Motejos, gritos, risadas.

O sol que vinha rompendo
    Em luz as veigas banhava,
    E do zimborio do templo
    O lanternim scintillava.

«Tlim, tlão!―convocando á missa,
    Tangia o sagrado sino;
    E involto nos sons de um orgam,
    Do côro se ouvia o hymno.

Duas sendas lá se cruzam;
    E a turba chegára lá.
    Da direita um cavalleiro,
    E outro da esquerda está.

Nedio ginete, qual neve
    Alvo, guiava o primeiro;
    O segundo, á rédea solta,
    Esporeava um fouveiro.

Quem taes cavalleiros eram
    Creio certo adivinha-lo,
    Bem que ainda com certeza
    Não me atreva a declara-lo.

Da direita ao cavalleiro
    Fulgia o rosto formoso;
    Porém no olhar do da esquerda
    Fulgor havia horroroso.

―«Bem vindos sois, cavalleiros;
    Bem vindos á montaria!
    Qual prazer, no céu, na terra,
    Ao nosso se igualaria!―

Assim disse o conde, e rija
    Palmada na côxa deu.
    Atirando pelos ares
    A grande altura o chapeu.

―«O som da tua buzina―
    Tornou logo o da direita―
    Nem aos canticos do côro
    Nem do sino ao som se ageita.

Ruim caçada te espera!
    Atrás te cumpre voltar.
    Contra ti a ira celeste
    Não queiras desafiar.»―

―«Nobre conde monteae―
    Prestes o outro atalhou―
    Que importa a bulha do côro,
    E se o sino badalou?

Deixae ao povo o seu medo:
    Que para a relé foi feito.
    Não são palavras sandías
    Das que merecem respeito.»―

―«Ah, bem dicto! Oh tu da esquerda,
    Um heroe és quanto a mim.
    Só padre-nossos empecem
    A algum caçador ruim!

Que tem missas, que tem resas
    Com o montear, sandeu?
    Se medo queres metter-me,
    Falhou o calculo teu.―

Disse o conde. Ávante correm:
    Vão por campinas e outeiros.
    Sempre da direita e esquerda
    Estão os dous cavalleiros.

Eis, lá em distancia, um cervo
    Branco transpõe a assomada,
    Tendo de pontas galhosas
    A erguida fronte adornada.

Então o conde a buzina
    Com mais alento assoprou,
    E tudo, a pé, a cavallo,
    Com mais rapidez voou.

Ora dos que por diante,
    Ora dos que de trás vão,
    Um ou outro rebentado
    Fica no meio do chão.

E o conde:―Cahem? No inferno
    Baqueiar podesseis vós!
    Os que desalentam fiquem:
    Sem elles bem vamos nós.―

N'uma seara guarida,
    Fugindo, o cervo buscou:
    O pobre dono do campo,
    Triste, ao conde se chegou:

―«Meu bom senhor―clamou elle―
    Compaixão, meu bom senhor!
    Ah, poupae mesquinhos fructos
    De um abundante suor.―

Da direita o cavalleiro
    O conde amoestou então:
    Cortezes eram seus dictos,
    Cortezes e de razão:

Mas, atiçando-o o da esquerda
    Á maldade perpetrar,
    Desprezou o da direita
    Para o maldicto o enredar.

―«Fóra cão!―ao camponez
    Grita o conde esbravejando―
    Quando não, com mil diabos,
    Soltar-te a matilha mando.

Álerta, socios! O açoute
    Pelas orelhas chegae-lhe;
    E que sou fiel ás juras
    Dessa maneira provae-lhe.»–

Dicto e feito. O conde salta
    Por cima os vallos fronteiros;
    E atrás delle, estrepitando,
    Homens, cavallos, balseiros.

O tropel, com grita horrenda,
    Pisa e destroe a seara;
    Que ninguem do lavrador
    Dorido choro escutára.

Pelo estridor acossado,
    Que já bem perto sentia,
    O cervo os crueis intentos,
    Veloz fugindo, illudia.

Através de montes, valles,
    Perseguido e não tomado,
    Manhoso se foi metter
    Entre um rebanho de gado.

Entrando do campo ao bosque,
    Saindo do bosque ao claro,
    Seguiram-no os cães, e em breve
    Lhe acharam da pista o faro.

Cheio de angustia o pastor,
    Por seu rebanho temendo,
    Por terra se arremessou
    Aos pés do conde, tremendo.

―«Deixae meu pobre rebanho;
    Senhor, tende dó de mi:
    De muitas tristes viuvas
    O gado retouça aqui.

Cada qual das pobrezinhas
    Tem das rezes uma só:
    Eis toda a sua riqueza:
    Senhor, tende dellas dó.»―

Da direita o cavalleiro
    O conde amoestou então:
    Cortezes eram seus dictos,
    Cortezes e de razão:

Mas a maldade do conde
    Sempre atiçava o da esquerda,
    E elle, o bom ludibriando,
    Corria á ultima perda.

―«Cão! A mim oppôr-te queres?
    As contas vou-te eu fazer.
    Quem me déra entre essas vaccas
    Comtigo as taes velhas ver;

Que seria o mais suave
    Prazer do coração meu
    Montear-vos, mais que fosse
    Pelas campinas do céu.

Álerta, socios, ávante!
    Cães, avança! csê! perdido!―
    E os cães no que acham mais perto
    Saltam com fero latido.

O pegureiro por terra
    Cái em seu sangue banhado,
    E sanguento o gado fica
    Todo alli atassalhado.

Á morte escapou a custo
    O veado, que fugia
    Cada vez menos ligeiro,
    N'uma floresta sombria.

Cuberto de escuma e sangue,
    Perdida a respiração,
    Do bosque em meio salvou-se
    No alvergue de um ermitão.

Segue-o o tropel incançavel:
    Estala o açoute incessante:
    Soam buzinas; retinem
    Os gritos de «abóca! ávante!»

O solitario piedoso
    Da cabana então saíu,
    E ao conde, com brando gesto,
    Taes palavras dirigiu:

―«Senhor, deixa teus intentos,
    E o sacro asylo venera:
    A creatura ao céu se queixa;
    Delle teu castigo espera.

Aos bons avisos, oh conde,
    Cede pela ultima vez;
    Quando não, na perdição,
    Certo, abysmado te vês.»–

Cuidadoso o da direita
    Ao conde correu então:
    Cortezes eram seus dictos,
    Cortezes e de razão.

Mas o da esquerda atiçando
    Nelle o animo damnado,
    Do bom apesar do aviso,
    Ai, do mau foi enganado!

–«Perdição?! Disso me rio,
    Não cuideis que eu tenha susto.
    No terceiro céu que fôra
    Me escapára o cervo a custo.

Que me importa a ira divina?
    Vae-te prégar ao deserto.
    Teus sermões a montaria
    Não farão falhar, por certo.―

Assim disse o conde. O açoute
    Sacode; as buzinas soam.
    ―«Csê! abóca!..―Ui! de diante
    Homem e cabana voam.

De trás corceis, homens fogem:
    Sons e gritos de caçada
    Se esvaecem de repente
    Da morte na paz gelada.

Pávido o conde olha em roda:
    Tóca a buzina... não soa:
    Grita... em vão: nada ouve: o açoute
    Vibra: mas no ar não toa.

Para um e para outro lado
    O seu cavallo esporeia...
    Nem para trás voltar póde,
    Nem àvante se meneia.

Então escurece emtorno:
    Cada vez mais de ennegrece:
    Qual sepulchro fica: ao longe
    Bramir triste o mar parece.

Lá troa voz de trovão!
    Que era o que dizia a voz?
    Era a sentença do conde,
    Sentença medonha e atroz.

–«Genio infernal, atrevido
    Contra Deus, homens e feras!
    Das creaturas os gemidos
    Resoaram nas espheras.

Tuas maldades e insultos
    Alto pedem punição,
    Onde da vingança o facho
    Ondeia erguido clarão.

Malvado, foge; que os monstros
    Do inferno te vão seguir,
    Para que sejas exemplo
    Aos tyrannos do porvir!»–

Qual d'aurora boreal,
    Flavo pallido fulgor
    Tingiu então na floresta
    Das folhas a verde côr.

Immovel, pasmado, mudo,
    Gelado o conde ficou;
    Trépida angustia dos ossos
    Á medulla lhe chegou.

Frio susto pela frente
    Contra elle arroja o terror:
    Pelas costas o persegue
    O trovão atroador.

O susto o gela; o céu ruge...
    Da terra vai-se elevando
    Negra agigantada mão,
    Ora abrindo, ora fechando.

Pelos cabellos da fronte,
    Ai, quer o conde prender!..
    Elle atrás o rosto volta;
    Nem mais o pôde volver.

Em roda chammeja a terra
    Verde, azul, vermelho fogo:
    Delle um mar rodeia o conde:
    Surge o inferno em peso logo.

Lá dos abysmos profundos
    Sáem mil mastins raivosos,
    Que, pelo averno açodados,
    Se tornam mais furiosos.

Toma alento o conde, e foge:
    Por montes, por campos vai,
    Do seio arrancando a espaços
    Do espanto terrivel ai:

Mas por todo o largo mundo
    Atrás delle ruge o inferno,
    De dia do orbe no centro,
    De noite no ar superno.

Ficou-lhe a face voltada,
    Por mais que ávante corresse,
    Sem que dos horridos monstros
    Os olhos tirar podesse.

Eis como a caçada foi
    Do tropel desenfreiado,
    A qual até nossos dias
    Tão constante tem passado,

Que, muitas vezes, durante
    As horas da noite escura,
    Ainda ao dissoluto causa
    Do medo o horror e amargura

De bastantes caçadores
    Podia a boca dize-lo,
    Se antes não lhes conviesse
    Calado comsigo te-lo.