Abrir menu principal
O Crime do Padre Amaro por Eça de Queirós
Capítulo XIX

— O senhor cônego? Quero-lhe falar. Depressa!

A criada dos Dias indicou ao padre Amaro o escritório, e correu a cima contar a D. Josefa que o senhor pároco viera procurar o senhor cônego, e com uma cara tão transtornada que decerto tinha sucedido alguma desgraça!

Amaro abrira abruptamente a porta do escritório, fechou-a de repelão, e sem mesmo dar os bons-dias ao colega, exclamou:

— A rapariga está grávida!

O cônego, que estava escrevendo, caiu como uma massa fulminada para as costas da cadeira:

— Que me diz você?

— Grávida!

E no silêncio que se fez o soalho gemia sob os passeios furiosos do pároco da janela para a estante.

— Está você certo disso? perguntou enfim o cônego com pavor.

— Certíssimo! A mulher já há dias andava desconfiada. Já não fazia senão chorar... Mas agora é certo... As mulheres conhecem, não se enganam. Há todas as provas... Que hei-de eu fazer, padre-mestre?

— Olha que espiga! ponderou o cônego atordoado.

— Imagine você o escândalo! A mãe, a vizinhança... E se suspeitam de mim?... Estou perdido... Eu não quero saber, eu fujo!

O cônego coçava estupidamente o cachaço, com o beiço caído como uma tromba. Representavam-se-lhe já os gritos em casa, a noite do parto, a S. Joaneira eternamente em lágrimas, toda a sua tranquilidade extinta para sempre...

— Mas diga alguma coisa! gritou-lhe Amaro desesperado. Que pensa você? Veja se tem alguma idéia... Eu não sei, eu estou idiota, estou de todo!

— Aí estão as consequências, meu caro colega.

— Vá para o inferno, homem! Não se trata de moral... Está claro que foi uma asneira... Adeus, está feita!

— Mas então que quer você? disse o cônego. Não quer decerto que se dê uma droga à rapariga, que a arrase...

Amaro encolheu os ombros, impaciente com aquela idéia insensata. O padre-mestre, positivamente, estava divagando...

— Mas então que quer você? repetia o cônego num tom cavo, arrancando as palavras ao abismo do tórax.

— Que quero! Quero que não haja escândalo! Que hei-de eu querer?

— De quantos meses está ela?

— De quantos meses? Está de agora, está dum mês...

— Então é casá-la! exclamou o cônego com explosão. Então é casá-la com o escrevente!

O padre Amaro deu um pulo:

— Com os diabos, tem você razão! É de mestre!

O cônego afirmou gravemente com a cabeça que era "de mestre".

— Casá-la já! Enquanto é tempo! Pater est quem nuptiae demonstrant... Quem é marido é que é pai.

Mas a porta abriu-se, e apareceram os óculos azuis, a touca negra de D. Josefa. Não se pudera conter em cima, na cozinha, tomada dum frenesi agudo de curiosidade; descera na ponta das chinelas e colara o ouvido à fechadura do escritório; mas o grosso reposteiro de baetão estava cerrado por dentro, um ruído de lenha que se descarregava na rua abafava as vozes. A boa senhora então decidiu-se a entrar, "a dar os bons-dias ao senhor pároco".

Mas debalde, por detrás dos vidros defumados, os seus olhinhos agudos esquadrinharam ansiosamente o carão espesso do mano e a face pálida de Amaro. Os dois sacerdotes estavam impenetráveis como duas janelas fechadas. O pároco mesmo falou ligeiramente do reumático do senhor chantre, da notícia que corria sobre o casamento do senhor secretário-geral... Ao fim duma pausa ergueu-se, contou que tinha nesse dia uma famosa orelheira para o jantar - e a Sra. D. Josefa, roendo-se, viu-o abalar depois de ter dito já por detrás do reposteiro ao cônego:

— Então até à noite em casa da S. Joaneira, padre-mestre, hem?

— Até à noite.

E o cônego, muito grave, continuou a escrever. D. Josefa então não se conteve; e depois de arrastar um momento as chinelas em tomo do banco do mano:

— Há novidade?

— Grande novidade, mana! disse-lhe o cônego, sacudindo os bicos da pena. Morreu o senhor D. João VI!

— Malcriado! rugiu ela rodando sobre os sapatões, cruelmente perseguida por uma risadinha do mano.

Foi à noite, embaixo, na saleta da S. Joaneira, enquanto Amélia em cima, com a morte na alma, martelava a Valsa dos Dois Mundos, que os dois padres, muito chegados no canapé, de cigarro nos dentes, por debaixo do tenebroso painel onde a vaga mão do cenobita se estendia em garra sobre a caveira, cochicharam o seu plano: - antes de tudo era necessário achar João Eduardo, que desaparecera de Leiria; a Dionísia, mulher de faro, ia bater todos os recantos da cidade para descobrir a toca em que a fera se acoutava; depois, imediatamente, porque o tempo urgia, Amélia escrever-lhe-ia... Só quatro palavras simples: que soubera que ele fora vítima duma intriga; que nunca perdera nada da amizade que lhe tinha; que lhe devia uma reparação; e que viesse vê-la... Se o rapaz hesitasse agora, o que não era provável (o cônego afirmava-o), fazia-se-lhe reluzir a esperança do emprego no governo civil, fácil de obter pelo Godinho, inteiramente governado pela mulher, que era uma escravazinha do pobre Natário?...

— Mas o Natário, disse Amaro, o Natário que detesta o escrevente, que dirá ele a esta revolução?

— Homem, exclamou o cônego com uma grande palmada na coxa, que me tinha esquecido! Pois você não sabe o que aconteceu ao pobre Natário?...

Amaro não sabia.

— Quebrou uma perna! Caiu da égua!

— Quando?

— Esta manhã. Eu soube-o agora à noitinha. Eu sempre lho disse: homem, esse animal ferra-lhe alguma! Pois senhores, ferrou-lha. E tesa! Tem para pêras... E eu que me tinha esquecido! Nem as senhoras lá em cima sabem nada.

Foi uma desolação, em cima, quando souberam. Amélia fechou o piano. Todos lembraram logo remédios que se lhe devia mandar, foi uma gralhada de oferecimentos - ligaduras, fios, um unguento das freiras de Alcobaça, meia garrafinha dum licor dos monges do deserto de ao pé de Córdova... Era necessário também assegurar a intervenção do Céu: e cada uma se prontificou a usar do seu valimento com os santos da sua intimidade; D. Maria da Assunção, que ultimamente praticava com Santo Eleutério, ofereceu a sua influência; D. Josefa Dias encarregava-se de interessar Nossa Senhora da Visitação; D. Joaquina Gansoso afiançou S. Joaquim.

— E lá a menina? perguntou o cônego a Amélia.

— Eu?...

E fez-se pálida, numa tristeza de toda a sua alma, pensando que ela, com os seus pecados e os seus delírios, perdera a útil amizade de Nossa Senhora das Dores. - E não poder ela também concorrer com a sua influência no Céu para restabelecer a perna de Natário, foi uma das amarguras maiores, talvez a punição mais viva que sentira desde que amava o padre Amaro.



Foi em casa do sineiro, daí a dias, que Amaro participou a Amélia o plano do padre-mestre. Preparou-a, revelando-lhe primeiro que o cônego sabia tudo...

— Sabe tudo em segredo de confissão, acrescentou para a sossegar. Além disso ele e tua mãe têm culpas em cartório... Tudo fica em família...

Depois tomou-lhe a mão, e olhando-a com ternura, como compadecendo-se já das lágrimas aflitas que ela ia chorar:

— E agora, escuta, filha. Não te aflijas com o que te vou dizer, mas é necessário, é a nossa salvação...

Às primeiras palavras, porém, do casamento com o escrevente, Amélia indignou-se com espalhafato.

— Nunca, antes morrer!

O quê? Ele punha-a naquele estado e agora queria descartar-se dela e passá-la a outro? Era ela porventura um trapo que se usa e que se atira a um pobre? Depois de ter posto fora de casa o homem, havia de humilhar-se, chamá-lo e cair-lhe nos braços?... Ah, não! Também ela tinha o seu brio! Os escravos trocavam-se, vendiam-se, mas era no Brasil!

Enterneceu-se então. Ah, ele já não a amava, estava farto dela! Ah, que desgraçada, que desgraçada que era! - Atirou-se de bruços para a cama e rompeu num choro estridente.

— Cala-te, mulher, que te podem ouvir na rua! dizia Amaro desesperado, sacudindo-a pelo braço.

— Não me importa! Que ouçam! Para a rua vou eu, gritar que estou neste estado, que foi o Sr. padre Amaro, e que me quer agora deixar!...

Amaro fazia-se lívido de raiva, com desejo furioso de lhe bater. Mas conteve-se; e com uma voz que tremia sob a sua serenidade:

— Tu estás fora de ti, filha... Dize lá, posso eu casar contigo? Não! Bem, então que queres? Se se percebe que estás assim, se tens o filho em casa, vê o escândalo!... Por ti, estás perdida, perdida para sempre! E eu, se se souber, que me sucede? Perdido também, suspenso, metido em processo talvez... De que queres tu que eu viva? Queres que morra de fome?

Enterneceu-se também àquela idéia das privações e das misérias do padre interdito. - Ah, era ela, era ela que o não amava, e que depois dele ter sido tão carinhoso e tão dedicado, lhe queria pagar com o escândalo e com a desgraça...

— Não, não, exclamou Amélia em soluços, lançando-se-lhe ao pescoço.

E ficaram abraçados, tremendo no mesmo enternecimento, - ela molhando de pranto o ombro do pároco, ele mordendo o beiço com os olhos todos turvos de água.

Desprendeu-se brandamente, enfim, e limpando as lágrimas:

— Não, filha, é uma desgraça que nos sucede, mas tem de ser. Se tu sofres, imagina eu! Ver-te casada, a viver com outro... Nem falemos nisso... Mas então, é a fatalidade, é Deus que a manda!

Ela ficara aniquilada, à beira do leito, tomada ainda de grandes soluços. Tinha chegado enfim o castigo, a vingança de Nossa Senhora, que ela sentia preparar-se há tempos no fundo dos céus, como uma tormenta complicada. Aí estava, agora, pior que os fogos do Purgatório! Tinha de se separar de Amaro que imaginava amar mais, e ir viver com o outro, com o excomungado! Como poderia ela nunca reentrar na graça de Deus, depois de ter dormido e vivido com um homem que os cânones, o papa, toda a terra, todo o Céu consideravam maldito?... E devia ser esse seu marido, talvez o pai de outros filhos... Ah, Nossa Senhora vingava-se demais!

— E como posso eu casar com ele, Amaro, se o homem está excomungado?!

Amaro então apressou-se a tranquilizá-la, prodigalizando os argumentos. Era necessário não exagerar... O rapaz, verdadeiramente, excomungado não estava... Natário e o cônego tinham interpretado mal os cânones e as bulas... Bater num sacerdote que não estava revestido não era motivo de excomunhão ipso facto, segundo certos autores... Ele, Amaro, era dessa opinião... De mais a mais podiam levantar-lhe a excomunhão.

— Tu compreendes... Como disse o santo concilio de Trento, e como sabes, nós atamos e desatamos. O moço foi excomungado?... Bem, levantamos-lhe a excomunhão. Fica tão limpo como dantes. Não, isso não te dê cuidado.

— Mas de que havemos de viver, se ele perdeu o emprego?

— Tu não me deixaste dizer... Arranja-se-lhe o emprego. Arranja-lho o padre-mestre. Está tudo combinadinho, filha!

Ela não respondeu, muito quebrada e muito triste, com duas lágrimas persistentes ao comprido das faces.

— Dize cá, tua mãe não desconfia de nada?

— Não, por ora não se percebe, respondeu ela com um grande ai.

Ficaram calados: ela limpando as lágrimas, serenando para sair; ele de cabeça baixa, trilhando lugubremente o soalho do quarto, pensando nas boas manhãs de outrora, quando só havia ali beijos e risadinhas abafadas; tudo mudara agora, até o tempo que estava todo nublado, um dia de fim de Verão, ameaçando chuva.

— Percebe-se que estive a chorar? perguntou ela, compondo ao espelho o cabelo.

— Não. Vais-te?

— A mamã está à minha espera...

Deram um beijo triste, e ela saiu.



No entanto a Dionísia farejava pela cidade na pista de João Eduardo. A sua atividade desenvolvera-se, sobretudo, mal soubera que o cônego Dias, o ricaço, estava interessado na pesquisa. E todos os dias, à noitinha, esgueirava-se cautelosamente pelo portão de Amaro a dar-lhe as novidades: já sabia que o escrevente estivera ao princípio em Alcobaça com um primo boticário; depois fora para Lisboa; ai, com uma carta de recomendação do doutor Gouveia, empregara-se no cartório dum procurador; mas o procurador, passados dias, por uma fatalidade, morrera de apoplexia; e desde então o rasto de João Eduardo perdia-se no vago, no caos da capital. Havia, sim, uma pessoa que lhe devia saber a morada e os passos: era o tipógrafo, o Gustavo. Mas infelizmente o Gustavo, depois duma questão com o Agostinho, deixara o Distrito e desaparecera. Ninguém sabia para onde fora; por desgraça, a mãe do tipógrafo não a podia informar - porque morrera também.

— Oh, senhores! dizia o cônego quando o padre Amaro lhe ia levar estes fios de informação. Oh, senhores! mas então nessa história toda a gente morre! Isso é uma hecatombe!

— Você graceja, padre-mestre, mas é sério. Olhe que um homem em Lisboa é agulha em palheiro. É uma fatalidade!

Então, aflito já, vendo passar os dias, escreveu à tia, pedindo-lhe que esquadrinhasse por toda a Lisboa, a ver se por lá aparecera "um tal João Eduardo Barbosa..." Recebeu uma carta da tia em garatujas de três páginas, queixando-se do Joãozinho, do seu Joãozinho, que lhe fizera a vida um inferno, embebedando-se com genebra a ponto que não lhe paravam hóspedes em casa. Mas estava agora mais tranquila: o pobre Joãozinho havia dias jurara-lhe pela alma da mamã que daí por diante não beberia senão gasosa. Enquanto ao tal João Eduardo, perguntara na vizinhança e ao Sr. Palma do Ministério das Obras Públicas, que conhecia toda a gente, mas nada averiguara. Havia, sim, um Joaquim Eduardo que tinha uma loja de quinquilharias no bairro... E se fosse o negócio com ele bem ia, que era um homem de bem...

— Lérias! lérias! interrompeu o cônego impaciente.

Resolveu-se ele então a escrever. E instado pelo padre Amaro (que não cessava de lhe representar o que a S. Joaneira e ele mesmo, cônego Dias, sofreriam com o escândalo) chegou a autorizar ao seu amigo da capital as despesas necessárias para empregar a polícia. A resposta demorou- se, mas veio enfim, prometedora e magnifica! O hábil polícia Mendes descobrira João Eduardo! Somente não lhe sabia ainda a morada, avistara-o apenas num café; mas em dois ou três dias o amigo Mendes prometia informações precisas.

O desespero dos dois sacerdotes, porém, foi grande quando, daí a dias, o amigo do cônego escreveu que o indivíduo, que o hábil polícia Mendes tomara por João Eduardo, num café da Baixa, sobre sinais incompletos, era um moço de Santo Tirso que estava na capital a fazer concurso para delegado... E havia três libras e dezessete tostões de despesa.

— Dezessete demônios! rugiu o cônego, voltando-se para Amaro furioso. E no fim de contas foi o senhor que gozou, que se refocilou, e sou eu que estou aqui a arrasar a minha saúde com estas andadas, e a fazer desembolsos desta ordem!

Amaro, dependente do padre-mestre, vergou os ombros á injúria.

Mas não estava nada perdido, graças a Deus. A Dionísia lá andava no faro!



Amélia recebia estas notícias com desconsolação. Depois das primeiras lágrimas, a irremediável necessidade impusera-se-lhe, muito forte. Por fim que lhe restava? Daí a dois ou três meses, com aquele seu desgraçado corpo de cinta fina e quadris estreitos, não poderia esconder o seu estado. E que faria então? Fugir de casa, ir como a filha do tio Cegonha para Lisboa, ser espancada no Bairro Alto pelos marujos ingleses, ou como a Joaninha Gomes, que fora a amiga do padre Abílio, levar pela cara os ratos mortos que lhe atiravam os soldados? Não. Então, tinha de casar...

Depois vir-lhe-ia um menino ao fim dos sete meses (era tão frequente!), legitimado pelo sacramento, pela lei e por Deus Nosso Senhor... E o seu filho teria um papá, receberia uma educação, não seria um enjeitado...

Desde que o senhor pároco lhe afirmara, em juramento, que o escrevente não estava realmente excomungado, que com algumas orações se lhe levantaria a excomunhão, os seus escrúpulos devotos esmoreciam como brasas que se apagam. No fim, em todos os erros do escrevente, ela só podia descobrir a incitação do ciúme e do amor: fora num despeito de namorado que escrevera o Comunicado, fora num furor de paixão traída que espancara o senhor pároco... Ah! Não lhe perdoava esta brutalidade! Mas que castigado fora! Sem emprego, sem casa, sem mulher, tão perdido na miséria anônima de Lisboa que nem a polícia achava! E tudo por ela. Pobre rapaz! No fim não era feio... Falavam da sua impiedade; mas vira-o sempre muito atento à missa, rezava todas as noites uma oração especial a S. João que ela lhe dera impressa num cartão bordado...

Com o emprego no governo civil podiam ter uma casinha e uma criada... Por que não seria feliz, por fim? Ele não era rapaz de botequins, nem de vadiagem. Tinha a certeza de o dominar, de lhe impor os seus gostos e as suas devoções. E seria agradável sair aos domingos de manhã para a missa, arranjada, de marido ao lado, cumprimentada de todos, podendo, à face da cidade, passear o seu filho muito vistoso na sua touca de rendas e na sua grande capa franjada! Quem sabe se, então, pelos carinhos que desse ao pequerrucho e pelos confortos de que cercasse o homem, o Céu e Nossa Senhora se não abrandariam! Ah! para isso faria tudo, para ter outra vez no Céu aquela amiga, a sua querida Nossa Senhora, amável e confidente, sempre pronta a curar-lhe as dores, a livrá-la de infortúnios, ocupada a preparar-lhe no Paraíso um luminoso conchego!

Pensava assim horas inteiras, sobre a sua costura; pensava assim, mesmo no caminho para casa do sineiro; e depois de ter estado um momento com a Totó, muito quieta agora, extenuada da febre lenta, quando subia ao quarto, a primeira pergunta a Amaro era:

— Então, há alguma novidade?

Ele franzia a testa, rosnava:

— A Dionísia lá anda... Por quê, tens muita pressa?

— Tenho muita pressa, tenho, respondia ela muito séria, que a vergonha é para mim.

Ele calava-se; e havia tanto ódio como amor nos beijos que lhe dava - àquela mulher que se resignava assim tão facilmente a ir dormir com outro!



Tinha ciúmes dela - que lhe tinham vindo ultimamente desde que a vira conformar-se àquele casamento odioso! Agora, que ela já não chorava, começava a enfurecer-se da falta das suas lágrimas; e secretamente desesperava-se dela não preferir a vergonha com ele à reabilitação com o outro. Não lhe custaria tanto se ela continuasse a barafustar, a fazer um alarido de prantos; isso seria uma prova séria de amor, em que a sua vaidade se banharia deliciosamente; mas aquela aceitação do escrevente agora, sem repugnância e sem gestos de horror, indignava-o como uma traição. Viera a suspeitar que a ela no fundo não lhe desagradava a mudança. João Eduardo por fim era um homem; tinha a força dos vinte e seis anos, os atrativos dum belo bigode. Ela teria nos braços dele o mesmo delírio que tinha nos seus... Se o escrevente fosse um velho consumido de reumatismo, ela não mostraria a mesma resignação. Então, por vingança de padre, para "lhe desmanchar o arranjo", desejava que João Eduardo não aparecesse: e muitas vezes, quando a Dionísia lhe vinha dar conta dos seus passos, dizia-lhe com um mau sorriso:

— Não se canse. O homem não aparece. Deixe lá... Não vale a pena ganhar dor de peito...

Mas a Dionísia tinha o peito forte - e uma noite veio, triunfante, dizer-lhe que estava na pista do homem! Vira enfim o Gustavo, o tipógrafo, entrar para a casa de pasto do tio Osório. Ao outro dia ia-lhe falar, e havia de se saber tudo...

Foi uma hora amargurada para Amaro. Aquele casamento, por que ansiara no primeiro momento de terror, agora, que o sentia seguro, parecia-lhe a catástrofe da sua vida.

Perdia Amélia para sempre!... Aquele homem que ele expulsara, que ele suprimira, ali lhe vinha, por uma destas peripécias malignas em que a Providência se compraz, levar-lhe a mulher legitimamente. E a idéia que ele ia tê-la nos braços, que ela lhe daria os beijos fogosos que lhe dava a ele, que balbuciaria oh, João! - como agora murmurava oh, Amaro! - enfurecia-o. E não podia evitar o casamento; todos o queriam, ela, o cônego, até a Dionísia com o seu zelo venal!

De que lhe servia ser um homem com sangue nas veias e as paixões fortes dum corpo são? Tinha de dizer adeus à rapariga, - vê-la partir de braço dado com o outro, com o marido, irem ambos para casa brincar com o filho, um filho que era seu! E ele assistiria à destruição da sua alegria de braços cruzados, esforçando-se por sorrir, voltaria a viver só, eternamente só, e a reler o Breviário!... Ah! se fosse no tempo em que se suprimia um homem com uma denúncia de heresia!... Que o mundo recuasse duzentos anos, e o Sr. João Eduardo havia de saber o que custa achincalhar um sacerdote e casar com a menina Amélias...

E esta idéia absurda, na exaltação da febre em que estava, apoderou-se tão fortemente da sua imaginação que toda a noite a sonhou - num sonho vívido, que muitas vezes depois contou rindo às senhoras. Era uma rua estreita batida dum sol ardente; entre as altas portas chapeadas, uma populaça apinhava-se; pelos balcões, fidalgos muito bordados retorciam o bigode cavalheiresco; olhos reluziam, entre as pregas das mantilhas, acesos num furor santo. E pela calçada, a procissão do auto-de-fé movia-se devagar, num vasto ruído, sob o tremendo dobre a finados de todos os sinos vizinhos. Adiante os flagelantes seminus, de capuz branco sobre o rosto, dilaceravam-se, uivando o Miserere, com as costas empastadas de sangue: sobre um jumento ia João Eduardo, idiota de terror, com as pernas pendentes, a camisa alva sarapintada de diabos cor de fogo, tendo no peito um rótulo em que estava escrito - POR HEREGE; por trás um medonho servente do Santo Ofício espicaçava furiosamente o jumento; e ao pi um padre, erguendo alto o crucifixo, berrava-lhe aos ouvidos os conselhos do arrependimento. E ele, Amaro, caminhava ao lado cantando o Requiem, de Breviário aberto numa mão, com a outra abençoando as velhas, as amigas da Rua da Misericórdia que se agachavam para lhe beijar a alva. Às vezes voltava-se para gozar aquela pompa lúgubre, e via então a longa fila da confraria dos Nobres: aqui era um personagem pançudo e apoplético, além uma face de místico com um bigode feroz e dois olhos chamejantes; cada um levava uma tocha acesa, e na outra mão sustentava o chapéu cuja pluma negra varria o chão. Os capacetes dos arcabuzeiros reluziam; uma cólera devota contorcia as faces esfomeadas do populacho; e o préstito ondeava nas tortuosidades da rua, entre o clamor do cantochão, os gritos dos fanáticos, o dobrar aterrador dos sinos, o tlintlim das armas, num terror que enchia toda a cidade, - aproximando-se da plataforma de tijolo onde já fumegavam as pilhas de lenha.

E o seu desengano foi grande, depois daquela glória eclesiástica do sonho, quando a criada o veio acordar cedo com água quente para a barba.

Era pois nesse dia que se ia saber do Sr. João Eduardo, e escrever-se-lhe!... Devia encontrar-se com Amélia às onze horas; e foi a primeira coisa que lhe disse, atirando a porta do quarto com mau modo:

— O homem apareceu... Pelo menos apareceu o amigo intimo, o tipógrafo, que sabe onde a besta pára.

Amélia, que estava num dia de desalento e terror, exclamou:

— Ainda bem, que se acaba este tormento!

Amaro teve um risinho repassado de fel:

— Então agrada-te, hem?

— Se te parece, neste susto em que ando...

Amaro teve um gesto desesperado de impaciência. Susto! Não estava má hipocrisia! Susto de quê? Com uma mãe que era uma babosa, que lhe consentia tudo... O que era, era que queria casar... Queria outro! Não lhe agradava aquele divertimento pela manhã, de fugida... Queria a coisa comodamente, em casa. Imaginava a menina que o iludia a ele, um homem de trinta anos e quatro anos de experiência de confissão? Via bem através dela... Era como as outras, queria mudar de homem.

Ela não respondia, muito pálida. E Amaro, furioso com o seu silêncio:

— Calas-te, está claro... Que hás-de tu dizer? Se é a verdade pura!... Depois dos meus sacrifícios... Depois do que tenho sofrido por ti... Aparece-te o outro, larga para o outro!

Ela ergueu-se, e batendo o pé, desesperada:

— Foste tu que quiseste, Amaro!

— Pudera! Se imaginas que me havia de perder por tua causal Está claro que quis!... - E olhando-a de alto, fazendo-lhe sentir um desprezo de alma muito reta; - Mas nem vergonha tens de mostrar a alegria, o furor de ir para o homem!... És uma desavergonhada, é o que é...

Ela, sem uma palavra, branca como a cal, agarrou o mantelete para sair.

Amaro, exasperado, segurou-a violentamente pelo braço:

— Para onde vais? Olha bem para mim. És uma desavergonhada... Estou-te a dizer. Estás morta por dormir com o outro...

— Pois acabou, estou! disse ela.

Amaro, perdido, atirou-lhe uma bofetada.

— Não me mates! gritou ela. É o teu filho!

Ele ficou diante dela, enleado e trêmulo: àquela palavra, àquela idéia do seu filho, uma piedade, um amor desesperado revolveu todo o seu ser: e arremessando-se sobre ela, num abraço que a esmagava, como querendo sepultá-la no peito, absorvê-la toda só para si, atirando-lhe beijos furiosos que a magoavam, pela face e pelos cabelos:

— Perdoa, murmurava, perdoa, minha Ameliazinha! Perdoa, que estou doido!

Ela soluçava, num pranto nervoso, - e toda a manhã foi no quarto do sineiro um delírio de amor a que aquele sentimento da maternidade, ligando-os como um sacramento, dava uma ternura maior, um renascimento incessante de desejo, que os lançava cada vez mais ávidos nos braços um do outro.

Esqueceram as horas; e Amélia só se decidiu a saltar do leito quando ouviram embaixo na cozinha a muleta do tio Esguelhas.

Enquanto ela se arranjava à pressa diante do bocado de espelho que ornava a parede, Amaro diante dela contemplava-a com melancolia, vendo-a passar o pente nos cabelos - nos cabelos que ele dentro em breve não tornaria a ver pentear; deu um grande suspiro, disse-lhe enternecido:

— Estão a acabar os nossos bons dias, Amélia. És tu que queres... Hás-de-te lembrar algumas vezes destas boas manhãs...

— Não diga isso! fez ela com os olhos arrasados de água.

E atirando-se-lhe de repente ao pescoço, com a antiga paixão dos tempos felizes, murmurou-lhe:

— Hei-de ser sempre a mesma para ti... Mesmo depois de casada.

Amaro agarrou-lhe as mãos sofregamente:

— Juras?

— Juro.

— Pela hóstia sagrada?

— Juro pela hóstia sagrada, juro por Nossa Senhora!

— Sempre que tenhas ocasião?

— Sempre!

— Oh, Ameliazinha! oh, filha! não te trocava por uma rainha!

Ela desceu. O pároco, dando uma arranjadela ao leito, ouvia-a embaixo falar tranquilamente com o tio Esguelhas; e dizia consigo que era uma grande rapariga, capaz de enganar o diabo, e que havia de fazer andar numa roda-viva o pateta do escrevente.

Aquele "pacto", como lhe chamava o padre Amaro, tornou-se entre eles tão irrevogável que já lhe discutiam tranquilamente os detalhes. O casamento com o escrevente consideravam-no como uma destas necessidades que a sociedade impõe e que sufoca as almas independentes, mas a que a natureza se subtrai pela menor fenda, como um gás irredutível. Diante de Nosso Senhor, o verdadeiro marido de Amélia era o senhor pároco; era o marido da alma, para quem seriam guardados os melhores beijos, a obediência intima, a vontade: o outro teria quando muito o cadáver... Já às vezes mesmo tramavam o plano hábil das correspondências secretas, dos lugares ocultos de rendez-vous...

Amélia estava de novo, como nos primeiros tempos, em todo o fogo da paixão. Diante da certeza que em algumas semanas o casamento ia tornar "tudo branco como a neve", os seus transes tinham desaparecido, o mesmo terror da vingança do Céu calmara-se. Depois, a bofetada que lhe dera Amaro fora como a chicotada que esperta um cavalo que preguiça e se atrasa: e a sua paixão, sacudindo-se e relinchando forte, ia-a de novo levando no ímpeto duma carreira fogosa.

Amaro, esse regozijava-se. Ainda às vezes, decerto, a idéia daquele homem, de dia e de noite com ela, importunava-o... Mas, no fundo, que compensações! Todos os perigos desapareciam magicamente, e as sensações requintavam. Findavam para ele aquelas atrozes responsabilidades da sedução, e ficava-lhe a mulher mais apetitosa.

Instava agora com a Dionísia para que acabasse enfim aquela fastidiosa campanha. Mas a boa mulher, decerto para se fazer pagar melhor pela multiplicidade de esforços, não podia descobrir o tipógrafo - aquele famoso Gustavo que possuía, como os anões de romance de cavalaria, o segredo da torre maravilhosa onde vive o príncipe encantado.

— Oh, senhor! dizia o cônego, isso até já cheira mal! Há quase dois meses à busca dum patife!... Homem, escreventes não faltam. Arranje-se outro!

Mas enfim, uma noite em que ele entrara a descansar em casa do pároco, a Dionísia apareceu; e exclamou logo da porta da sala de jantar, onde os dois padres tomavam o seu café;

— Até que enfim!

— Então, Dionísia?

A mulher, porém, não se apressou: sentou-se mesmo, com licença dos senhores, porque vinha derreada... Não, o senhor cônego não imaginava os passos que se vira obrigada a dar... O maldito tipógrafo lembrava-lhe a história que lhe contavam em pequena, dum veado que estava sempre à vista e que os caçadores a galope nunca alcançavam. Uma perseguição assim!... Mas, finalmente, apanhara-o... E tocadito, por sinal.

— Acabe, mulher! berrou o cônego.

— Pois aqui está, disse ela. Nada!

Os dois sacerdotes olharam-na mistificados.

— Nada quê, criatura?

— Nada. O homem foi para o Brasil!

O Gustavo recebera de João Eduardo duas cartas: na primeira, onde lhe dava a morada, para o lado do Poço do Borratém, anunciava-lhe a resolução de ir para o Brasil; na segunda dizia-lhe que mudara de casa, sem lhe indicar a nova adresse, e declarava que pelo próximo paquete embarcava para o Rio; não dizia nem com que dinheiro, nem com que esperanças. Tudo era vago e misterioso. Desde então, havia um mês, o rapaz não tornara a escrever, donde o tipógrafo concluía que ia a essa hora nos altos-mares... - "Mas havemos de vingá-lo!" tinha ele dito a Dionísia.

O cônego remexia pausadamente o seu café, embatocado.

— E esta, padre-mestre? exclamou Amaro, muito branco.

— Acho-a boa.

— Diabo levem as mulheres, e o inferno as confunda! disse surdamente Amaro.

— Amém, respondeu gravemente o cônego.