CAPITULO QUARTO

 
OUTROS FRUCTOS DO INFERNO
 
O mal que produz o inferno. — Incredulidade, desalento, desesperação
 

Esquadrinhando o bem que procede do inferno, já divisamos o mal que produz. Bem negativo e limitadissimo; mal positivo mas profundo, extensissimo, apenas por em quanto entre-vimos. Faz-se mister examinal-o mais pelo miudo. Não perderemos o tempo.

É facto incontestavel que a maior parte dos homens se occupa menos de céo e inferno que das precisões, interesses, prazeres e dôres da terra. A Egreja o confessa admirada e lacrimosa. Por que se admira? Que remedio senão ser assim? Pois acaso póde toda a gente retirar-se ao deserto? Pois todo o encanto da vida se apagou? Os direitos da natureza foram abolidos?

Na sociedade cuja moral se funda sobre o medo das penas eternas, todo movimento paralysaria, se instinctivamente, e por necessidade de viver, não viesse o esquecimento d'esse tremendo futuro. A esperança do ceo não bastaria a contrabalançar os effeitos de tal susto, mormente quando nos affiançam que a porta do ceo é estreita, e que o inferno tem milhares de portas sempre abertas. Á medida que esta crença se incutir nas turbas, assim ellas hão de lidar por esquecel-a, abafando-a no seio, sem querer sequer meditar n'isso. Quanto mais pura, exigente, austera e angelica fôr a vossa moral, tanto mais impraticavel vol-a hão de considerar; e, se a fundamentaes no inferno, fechar-se-hão os ouvidos ao vosso apostolado, e ninguem quererá sequer aproximar-se d'aquella perfeição immaculada, que sómente florece em estufas claustraes, que se desbota ao leve bafejo do homem, e só está ao alcance de ociosos.

Se no inferno tão sómente fossem castigados certos crimes monstruosos e excepcionaes, mas claramente definidos, taes como o assassinio, o incesto, o estupro, poder-se-hia ainda examinar a justiça de tão exorbitante penalidade: ao menos cada qual sabia quando lhe era applicada a pena. Porém, se vão ás chammas eternas o aváro, o glotão, o preguiçoso, o prodigo, o orgulhoso, o invejoso, o impaciente, o maledico, o voluptuoso, o incontinente, o ambicioso, o calumniador, o usurario, o mentiroso, o hypocrita, o lisongeiro, o ingrato, o philosophante, o rebelde, etc., etc., etc., congela-se o sangue nas veias; ninguem ousa vender, comprar, emprestar, traficar, fallar, pensar, beber, comer, respirar; por quanto, quem sabe onde começa a avareza? o orgulho? e a lisonja, reverendissimos senhores, onde começa a lisonja? e a usura? e os limites da temperança quem os abalisou? Occasiões, tentações e perigos em tudo!

A questão não é saber se ahi ha crimes hediondos e puniveis: ninguem nega que os haja; — o que se tracta é de saber se é racional e discreto, e se os bons costumes lucram, que nos ameacem com eternos castigos, por peccados que mal podem definir-se. Quem ha ahi isempto de seu tanto ou quê de orgulho? Quem se presume bastante sobrio, bastante comedido nos prazeres licitos, menos egoista em suas legitimas affeições, menos desinteressado em seus lavores e mercantilismo, bastante paciente nos revezes e resignado nas desgraças? Quem se crê assaz justo, caritativo e perfeito? Ao parecer dos theologos, uma tal presumpção seria peccado capital, até nos conventos, até para os anachoretas envelhecidos em abstinencias e orações. Ninguem sabe ao certo o momento, o ponto em que um acto licito descahe no illicito; que dóse de alimento quadra á sua saude, e onde no rico principia o superfluo, que é o necessario do pobre. Para que vem seis pratos á meza? Se um basta, para que são dois? A regra onde está?

Cautela! esse copo que chegaes aos beiços risonhos, em vez de vos apagar a sêde, vae abrazar-vos em sêde eterna. Cautela! Theologo nenhum poderá dizer-vos exactamente o que vos cumpre dar, o que vos cumpre não dar; e o caso é que, se vos enganaes com tal incerteza, folga o diabo. Um padre da Egreja, um papa, um santo, Gregorio o Grande, não disse que Deus nos arguiria de peccados que antes de morrer não conhecemos?

Estas e outras mais terriveis cousas podeis lêr no Quotidiano do Christão, livro approvado e recommendado por todos os bispos, e que anda em mãos de creancinhas. Portanto, verdadeiras ha só duas cousas: a condemnação, se nos enganamos, e a abstenção para nos não enganarmos.

Mas a abstenção não é viver. Viver é a actividade inteira, incessante, e arriscada a peccar. É lei do genero humano viver e perpetuar-se. Não nega, mas esquece os dogmas oppressores que lhe pesam na alma, e a cada passo lhe apontam aberto um alçapão do inferno. Vivem os homens n'uma especie de indifferença religiosa que os avilta, movidos unicamente por suas paixões, e apenas enfreados pela justiça temporal. Fóra com isso do futuro! fóra com remorsos! Fechemos olhos a todos os clarões, e os ouvidos a todos os rumores do outro mundo, e concentremos n'este a nossa inteira vida, todos os desejos e pensamentos.

É effeito imprevisto, porém real, d'esta medonha crença induzir ao materialismo, não theorico, mas pratico, a maior parte dos que não leva ao ascetismo: attasca na lama os que não transvia nas nuvens; faz que se rojem durante o dia breve da existencia, grandes e pequenos. Os philosophos accusados d'este miseravel estado das almas, estão innocentissimos: não ha em tudo isso faisca de philosophia; raciocinio é coisa que ahi não vislumbra. O instincto é que desde tempos esquecidos, e não de ha pouco, nos propendeu áquelle cego materialismo: é a necessidade de arrostarmos com uma crença mortifera; é a vida que resalta d'entre as mãos desvairadas que intentam comprimil-a, e d'este desbordar de toda a fórma surdem os excessos.

Já não lhes abasta esquecerem o inferno. Quem o esquece são os fracos; os fortes vão mais além: escarnecem-no. Anda já por ahi o diabo cantado, e do mesmo feitio o inferno, e o céo com os seus moradores. E de taes canções vendem-se tantos exemplares como dos Canticos de S. Sulpicio: antiquissima impiedade, de que ha vestigios, não só na Grecia pagã, mas tambem nas fabulas da edade média, e até nas paredes das vetustas cathedraes onde os artistas zombeteiros esculpiram, ha mais de seiscentos annos, o Inferno de Béranger. A ironia mascarava-se então com tregeitos beatificos; o impudor, porém, não se disfarçava nem se constrangia.

Os lamuriantes da edade média talvez digam que, apezar das galhofas audazmente esculpidas nos portaes e córos das egrejas, esses antigos imaginarios criam no inferno, e que, no leito da morte, não foliavam, tremiam; que os fabulistas tambem tremiam, e que os castellãos e castellãs, plebe e burguezia, quantos se haviam regalado com as taes caricaturas, tremiam tambem. Sim, meu Deus, é verdade. Mas circumvagae a vista, e dizei-nos se, a tal respeito, a sociedade mudou. A mesma educação religiosa não produz continuamente identicos phenomenos? Acreditam no inferno os epicuristas, os trampolineiros, os usurarios, os prodigos e os ladrões, os famintos e os repletos, os invejosos e os ingratos, os indifferentes e os chasqueadores? No intimo da alma guardam elles as superstições das amas: que farte o denotam na vida, e principalmente na morte. Em quanto são moços, ageis, febris de saude e esperança, repulsam uma crença que lhes tornaria maldita a mocidade, a saude, a força, a razão de todas as dadivas do céo. Quando caducam, infermam e agonisam, espantam-se de haver ardido em desejos que já não tem, e haver motejado praticas que se lhes agora figuram facilimas. É chegada então a hora e situação conveniente para intender a moral do inferno, que é a privação em tudo e por tudo, — a morte na vida.

Singular crença que não infrêa o maior numero de homens, quando o freio lhes é mais preciso; e quando o retêl-os é já inutil, e mais necessaria lhes seria a esperança, então, á entrada da sepultura, lhes sahe espantadora! Levado por ella vae o anachoreta ao suicidio, e o mundano ao embrutecimento. Esteril em verdadeiros dons, fertil em verdadeiros males, a crença no inferno bestialisa, desalenta, desespera, endurece. Melhor é esquecel-o á maneira das turbas, que pensar demasiado n'ella, que tanto monta sentir vertigens, sentir estontecida a cabeça á roda d'esse abysmo que vos attrahe e sorve. Mais algum prazer ou menos, defendido ou não, que faz? Lá no inferno não estaremos melhor nem peormente; a eternidade não terá hora menos ou hora mais. Constrangermo-nos para quê? Não ha termo medio entre o bem e o mal absolutos. Tudo que é humano é mau: é forçoso ser anjo ou demonio: seja-se diabo, que é mais comezinho. Vêde-me uns frades, padres, devotos, freiras, que a desanimação avassalou: não ha peores peccadores; rolam cada vez mais ao fundo, e vão-se consolando com as delicias que topam na sua queda. Um peccado de menos, que é na conta que hão de dar? Chegados a tal extremidade, qualquer boa acção lhes será vã. Como não podessem abster-se de tudo, os desgraçados já agora não se abstem de nada. Esta desesperada crença precipita-os abaixo do homem. D'ahi tem surdido mais libertinos que ermitões, mais blasphemos que santos, mais loucos que ajuizados; e, em verdade, é mister que o christianismo entranhe vivacissimos embriões, esplendorosissimas luzes, e poderosissimas verdades para resistir, como ha resistido, á influencia de taes doutrinas.

Tirae-nos, por favor, esse inferno tão fatal aos que o recordam como aos que o esquecem. É verdade que teremos menos monges com o purgatorio; mas teremos mais christãos. No purgatorio será util pensar, comprehender-lhe a justiça, e sentir-se o homem melhor, ainda a pesar seu; se é facil sacudir o jugo de uma revelação sobrenatural e inintelligivel, por mais beneficente que ser possa, não é facil desprendermo-nos de idêas excellentes e razoaveis, por mais importunas que nos sejam.