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O Janota
por Luís da Gama

Sou bonito, sou da moda,
Chibatão de belo gosto;
Sou gamenho, tendo garbo,
Porte airoso e bem composto.

Vivo alegre, passo à larga,
Tenho trinta namoradas,
— Dez viúvas, seis donzelas
Sete velhas , não casadas.

Quatro negras, cinco cabras,
Sem contar certa mulata
E a vizinha, que é zanaga.
Com seu beque de fragata.

Aias, amas e criadas,
Das matronas que apontei,
Baronesas e Condessas,
E mais outras, que eu só sei.

Dos janotas sou modelo,
Figurino abaloado,
Calça larga, mangas fofas,
Cabelinho bem frisado.

A luneta ao olho presa,
Sapatinho envernizado.
Casaquim à Dom Murzelo
E o casquete afunilado.

Faço andar em roda viva,
Mil cabeças d’alto bordo;
Mas se um vil credor esbarro,
Foge o sonho, então acordo!

E de Rodes qual colosso,
Fico mudo, altivo e quedo;
Ouço a lenda impertinente,
Sem tugir — como um penedo.

Após um vem grosso bando,
Este grasna, aquele ruge,
Rosna o lorpa taberneiro,
Todo o resto orneja e muge.

Perfilando o colarinho,
Que da orelha passa além,
Corro a mão nas algibeiras,
Mas não puxo nem vintém!

Berra o criado,
Grita o barbeiro;
— Quero dinheiro!
Que frioleira!
Eu que, sem gimbo.
Ando pulando,
Vou me safando
Que pagodeira!

Eis que de um canto
Salta, raivosa,
A gordurosa
Da cozinheira;
Pede os salários,
Fala em tomate,
— Eu, em remate,
Dou-lhe a traseira!

Chora de raiva,
— Pobre coitada;
Que vinagreira!
Eu sou da moda,
Chupo o meu trago,
Como o não — pago,
— Por brincadeira.

E se há quem diga,
Que sou tratante,
Sagaz birbante,
É maroteira;
Porque só finto
Parvos mascates,
Maus alfaiates,
— Por bandalheira.

Também por mofa,
Logro os lojistas,
Foros cambistas,
De mão ligeira;
Abelhas mestras,
Ratões livreiros,
Os sapateiros,
E a engomadeira.

Que santa vida,
Meu anjo Bento,
Oh que portento,
Que pepineira!
Sempre folgando,
Sem ter cuidado,
Ser namorado,
— Que pagodeira!

Quem deve e paga
Não tem miolo,
É parvo, é tolo,
Não tem bom tino.
Viva a chibança,
Vá de tristeza,
Morra a pobreza,
Que isto é divino!