O Janota

Sou bonito, sou da moda,
Chibantão de bello gosto;
Sou gamenho, tenho garbo,
Porte airoso e bem composto.

Vivo alegre. passo á larga,
Tenho trinta namoradas
—Dez viuvas, seis donzellas,
Sette velhas, não casadas.

Quatro negras, cinco cabras.
Sem contar certa mulata
E a visinha, que é zanaga,
Com seu beque de fragata.

Ayas, amas e criadas,
Das matronas que apontei,

Baronezas e Condessas,
E mais outras, que eu só sei.

Dos janotas sou modello,
Figurino abaloado,
Calça larga, mangas fòfas,
Cabellinho bem frisado.

A luneta ao olho presa,
Sapatinho envernisado,
Casaquim a Dom Murzelo
E o casquete afunilado.

Faço andar em roda viva,
Mil cabeças d’alto bordo;
Mas se um vil credor esbarro,
Foge o sonho, então acórdo!

E de Rhodes qual colosso,
Fico mudo, altivo e quedo;
Ouço a lenda impertinente,
Sem fugir—como um penedo.

Após um vem grosso bando,
Este grasna, aquelle ruge,
Rosna o lorpa taberneiro,
Todo o resto orneja e muge.

Perfilando o collarinho,
Que da orelha passa além,
Corro a mão nas algibeiras,
Mas não pucho nem vintem!

Berra o criado,
Grita o barbeiro:
—Quero dinheiro !
Que frioleira!

Eu que, sem gimbo,
Ando pulando.
Vou me safando —
Que pagodeira!

Eis que de um canto
Salta, raivosa,
A gordurosa,
Da cosinheira;
Pede os salarios,
Falla em tomate,
—Eu, em remate,
Dou-lhe a trazeira!

Chora de raiva,
—Pobre coitada;
Fica zangada,
Que, vinagreira!
Eu sou da moda;
Chupo o meu trago,
Como e não-pago,
—Por brincadeira.

E si ha quem diga,
Que sou tratante,
Sagaz birbante,
E’ maroteira;
Porque só finto
Parvos mascates,
Máos alfaiates,
—Por bandalheira.

Tambem, por mofa,
Logro os logistas,
Foros cambistas,
De mão ligeira;

Abelhas mestras,
Ratoens livreiros,
Os sapateiros,
E a engommadeira.

Que santa vida,
Meu anjo Bento,
Oh que portento,
Que pepineira!
Sempre folgando,
Sem ter cuidado,
Ser namorado,
—Que pagodeira!

Quem deve e paga
Não tem miolo,
E' parvo, é tolo,
Não tem bom tino.
Viva a chibança,
Va de tristeza,
Morra a pobreza,
Que isto é divino!