O Mandarim/II

O Mandarim por Eça de Queirós
Capítulo II
 
II
 

O mandarim (1889) - Letra capitular D.png

ecorreu um mez.

Eu, no emtanto, rotineiro e triste, lá ia pondo o meu cursivo ao serviço dos poderes publicos, e admirando aos domingos a pericia tocante com que a D. Augusta lavava a caspa do Couceiro. Era agora evidente para mim que, n’essa noite, eu adormecera sobre o in-folio e sonhára com uma «Tentação da Montanha» sob fórmas familiares. Instinctivamente, porém, comecei a preoccupar-me com a China. Ia lêr os telegrammas á Havaneza; e o que o meu interesse lá buscava, eram sempre as noticias do Imperio do Meio; parece porém que, a esse tempo, nada se passava na região das raças amarellas... A Agencia Havas só tagarellava sobre a Herzegovina, a Bosnia, a Bulgaria e outras curiosidades barbaras...

Pouco a pouco fui esquecendo o meu episodio phantasmagorico: e ao mesmo tempo, como gradualmente o meu espirito reserenava, voltaram de novo a mover-se as antigas ambições que lá habitavam, — um ordenado de Director Geral, um seio amoroso de Lola, bifes mais tenros que os da D. Augusta. Mas taes regalos pareciam-me tão inaccessiveis, tão nascidos dos sonhos — como os proprios milhões do Mandarim. E pelo monotono deserto da vida, lá foi seguindo, lá foi marchando a lenta caravana das minhas melancolias...

Um domingo d’agosto, de manhã, estirado na cama em mangas de camisa, eu dormitava, com o cigarro apagado no labio — quando a porta rangeu devagarinho e entreabrindo a palpebra dormente, vi curvar-se ao meu lado uma calva respeitosa. E logo uma voz perturbada murmurou:

— O snr. Theodoro?... O snr. Theodoro do Ministerio do Reino?...

Ergui-me lentamente sobre o cotovêlo e respondi, n’um bocejo:

— Sou eu, cavalheiro.

O individuo recurvou o espinhaço: assim na presença augusta d’el-rei Bobeche se arqueia o cortezão... Era pequenino e obeso: a ponta das suiças brancas roçava-lhe as lapellas do fraque d’alpaca: veneraveis oculos d’oiro reluziam na sua face bochechuda, que parecia uma próspera personificação da Ordem: e todo elle tremia desde a calva lustrosa até aos botins de bezerro. Pigarreou, cuspilhou, balbuciou:

— São noticias para vossa senhoria! Consideraveis noticias! O meu nome é Silvestre... Silvestre, Juliano & C.a... Um serviçal criado de vossa excellencia... Chegaram justamente pelo paquete de Southampton... Nós somos correspondentes de Brito, Alves & C.a, de Macau... Correspondentes de Craig and C.o d’Hong-Kong... As letras vem d’Hong-Kong...

O sujeito engasgava-se; e a sua mão gordinha agitava em tremuras um enveloppe repleto, com um sêllo de lacre negro.

— Vossa excelencia — proseguiu — estava decerto prevenido... Nós é que o não estavamos... A atrapalhação é natural... O que esperamos é que vossa excellencia nos conserve a sua benevolencia... Nós sempre respeitámos muito o caracter de vossa excellencia... Vossa excellencia é n’esta terra uma flôr de virtude, e espelho de bons! Aqui estão os primeiros saques sobre Bhering and Brothers, de Londres... Letras a trinta dias sobre Rothschild...

A este nome, resoante como o mesmo oiro, saltei vorazmente do leito:

— O que é isso, senhor? — gritei.

E elle, gritando mais, brandindo o enveloppe, todo alçado no bico dos botins:

— São cento e seis mil contos, senhor! Cento e seis mil contos sobre Londres, Paris, Hamburgo e Amsterdam, sacados a seu favor, excellentissimo senhor!... A seu favor, excellentissimo senhor! Pelas casas de Hong-Kong, de Chang-Hai e de Cantão, da herança depositada do Mandarim Ti Chin-Fú!

Senti tremer o Globo sob os meus pés — e cerrei um momento os olhos. Mas comprehendi, n’um relance, que eu era, desde essa hora, como uma incarnação do Sobrenatural, recebendo d’elle a minha força e possuindo os seus attributos. Não podia comportar-me como um homem, nem desconsiderar-me em expansões humanas. Até, para não quebrar a linha hieratica — abstive-me de ir soluçar, como m’o pedia a alma, sobre o vasto seio da Madame Marques...

D’ora em diante cabia-me a impassibilidade d’um Deus — ou d’um Demonio: dei, com naturalidade, um puxão ás calças, e disse a Silvestre, Juliano & C.a estas palavras:

— Está bem! O Mandarim... esse Mandarim que disse portou-se com cavalheirismo. Eu sei do que se trata: é uma questão de familia. Deixe ahi os papeis... Bons dias.

Silvestre, Juliano & C.a retirou-se, ás arrecuas, de dorso vergado e fronte voltada ao chão.

Eu então fui abrir, toda larga, a janella: e, dobrando para traz a cabeça, respirei o ar calido, consoladamente, como uma corça cançada...

Depois olhei para baixo, para a rua, onde toda uma burguezia se escoava, n’uma pacata sahida de missa, entre duas filas de trens. Fixei, aqui e além, inconscientemente, algumas cuias de senhoras, alguns metaes brilhantes d’arreios. E de repente veio-me esta idéa, esta triumphante certeza — que todas aquellas tipoias as podia eu tomar á hora ou ao anno! Que nenhuma das mulheres que via deixaria de me offerecer o seu seio nú a um aceno do meu desejo! Que todos esses homens, de sobrecasaca de domingo, se prostrariam diante de mim como diante d’um Christo, d’um Mahomet ou d’um Buddha, se eu lhes sacudisse junto á face cento e seis mil contos sobre as praças da Europa!...

Apoiei-me á varanda: e ri, com tedio, vendo a agitação ephemera d’aquella humanidade subalterna — que se considerava livre e forte, emquanto por cima, n’uma sacada de quarto andar, eu tinha na mão, n’um enveloppe lacrado de negro, o principio mesmo da sua fraqueza e da sua escravidão! Então, satisfações do Luxo, regalos do Amor, orgulhos do Poder, tudo gozei, pela imaginação, n’um instante, e d’um só sôrvo. Mas logo uma grande saciedade me foi invadindo a alma: e, sentindo o mundo aos meus pés, — bocejei como um leão farto.

De que me serviam por fim tantos milhões senão para me trazerem, dia a dia, a affirmação desoladora da villeza humana?... E assim, ao choque de tanto oiro, ia desapparecer a meus olhos, como um fumo, a belleza moral do Universo! Tomou-me uma tristeza mystica. Abati-me sobre uma cadeira; e, com a face entre as mãos, chorei abundantemente.

D’ahi a pouco Madame Marques abria a porta, toda vistosa nas suas sêdas pretas.

— Está-se á sua espera para jantar, enguiço!

Emergi da minha amargura para lhe responder sêccamente:

— Não janto.

— Mais fica!

N’esse momento estalavam foguetes ao longe. Lembrei-me que era domingo, dia de touros: de repente uma visão rebrilhou, flammejou, attrahindo-me deliciosamente: — era a tourada vista d’um camarote; depois um jantar com champagne; á noite a orgia, como uma iniciação! Corri á mesa. Atulhei as algibeiras de letras sobre Londres. Desci á rua com um furor d’abutre fendendo o ar contra a prêsa. Uma caleche passava, vazia. Detive-a, berrei:

— Aos touros!

— São dez tostões, meu amo!

Encarei com repulsão aquelle reles pedaço de materia organisada — que fallava em placas de prata a um colosso d’oiro! Enterrei a mão na algibeira ajoujada de milhões e tirei o meu metal: tinha setecentos e vinte!

O cocheiro bateu a anca da egoa e seguiu, resmungando. Eu balbuciei:

— Mas tenho letras!... Aqui estão! Sobre Londres! Sobre Hamburgo!...

— Não péga.

Setecentos e vinte!... E touros, jantar de lord, andaluzas núas, todo esse sonho expirou como uma bola de sabão que bate a ponta de um prego.

Odiei a Humanidade, abominei o Numerario. Outra tipoia, lançada a trote, apinhada de gente festiva, quasi me atropellou n’aquella abstracção em que eu ficára com os meus setecentos e vinte na palma da mão suada.

Cabisbaixo, enchumaçado de milhões sobre Rothschild, voltei ao meu quarto andar: humilhei-me á Madame Marques, aceitei-lhe o bife corneo; e passei essa primeira noite de riqueza bocejando sobre o leito solitario — emquanto fóra o alegre Couceiro, o mesquinho tenente de quinze mil reis de soldo, ria com a D. Augusta, repenicando á viola o Fado da Cotovia.

 

Foi só na manhã seguinte, ao fazer a barba, que reflecti sobre a origem dos meus milhões. Ella era evidentemente sobrenatural e suspeita.

Mas como o meu Racionalismo me me impedia d’attribuir estes thesouros imprevistos á generosidade caprichosa de Deus ou do Diabo, ficções puramente escolasticas; como os fragmentos de Positivismo, que constituem o fundo da minha Philosophia, não me permittiam a indagação das causas primarias, das origens essenciaes — bem depressa me decidi a aceitar sêccamente este Phenomeno e a utilisal-o com largueza. Portanto corri de quinzena ao vento para o London and Brazilian Bank...

Ahi, arremessei para cima do balcão um papel sobre o Banco d’Inglaterra, de mil libras, e soltei esta deliciosa palavra:

— Oiro!

Um cahexeiro suggeriu-me com doçura:

— Talvez lhe fosse mais commodo em notas...

Repeti sêccamente:

— Oiro!

Atulhei as algibeiras, devagar, aos punhados: e na rua, ajoujado, icei-me para uma caleche. Sentia-me gordo, sentia-me obeso; tinha na bôca um sabor d’oiro, uma seccura de pó d’oiro na pelle das mãos: as paredes das casas pareciam-me faiscar como longas laminas d’oiro: e dentro do cerebro ia-me um rumor surdo onde retilintavam metaes — como o movimento d’um oceano que nas vagas rolasse barras d’oiro.

Abandonando-me á oscillação das molas, rebolante como um ôdre mal firme, deixava cahir sobre a rua, sobre a gente, o olhar turvo e tedioso do sêr repleto. Emfim, atirando o chapéo para a nuca, estirando a perna, empinando o ventre, arrotei formidavelmente de flatulencia ricaça...

Muito tempo rolei assim pela cidade, bestialisado n’um gozo de Nababo.

Subitamente um brusco appetite de gastar, de dissipar oiro, veio-me enfunar o peito como uma rajada que incha uma véla.

— Pára, animal! — berrei, ao cocheiro.

A parelha estacou. Procurei em redor com a palpebra meio cerrada alguma coisa cara a comprar — joia de rainha ou consciencia de estadista: nada vi; precipitei-me então para um estanco:

— Charutos! de tostão! de cruzado! Mais caros! de dez tostões!

— Quantos?... — perguntou servilmente o homem.

— Todos! — respondi com brutalidade.

Á porta, uma pobre toda de luto, com o filho encolhido ao seio, estendeu-me a mão transparente. Incommodava-me procurar os trocos de cobre por entre os meus punhados d’oiro. Repelli-a, impaciente: e, de chapéo sobre o olho, encarei friamente a turba.

Foi então que avistei, adiantando-se, o vulto ponderoso do meu Director Geral: immediatamente achei-me com o dorso curvado em arco e o chapéo comprimentador roçando as lages. Era o habito da dependencia: os meus milhões não me tinham dado ainda a verticalidade á espinha...

Em casa despejei o oiro sobre o leito, e rolei-me por cima d’elle, muito tempo, grunhindo n’um gozo surdo. A torre, ao lado, bateu tres horas; e o sol apressado já descia, levando comsigo o meu primeiro dia de opulencia... Então, couraçado de libras, corri a saciar-me!

Ah, que dia! Jantei n’um gabinete do Hotel Central, solitario e egoista, com a mesa alastrada de Bordeus, Borgonha, Champagne, Rheno, licôres de todas as communidades religiosas — como para matar uma sêde de trinta annos! Mas só me fartei de Collares. Depois, cambaleando, arrastei-me para o Lupanar! Que noite! A alvorada clareou por traz das persianas; e achei-me estatelado no tapete, exhausto e semi-nú, sentindo o corpo e a alma como esvaírem-se, dissolverem-se n’aquelle ambiente abafado onde errava um cheiro de pó d’arroz, de fêmea e de punch...

Quando voltei á travessa da Conceição, as janellas do meu quarto estavam fechadas, e a véla expirava, com fogachos lividos, no castiçal de latão. Então, ao chegar junto á cama, vi isto: estirada de través, sobre a coberta, jazia uma figura bojuda de Mandarim fulminado, vestida de sêda amarella, com um grande rabicho solto; e entre os braços, como morto tambem, tinha um papagaio de papel!

Abri desesperadamente a janella; tudo desappareceu; — o que estava agora sobre o leito era um velho paletot alvadio.