O Mandarim/VI

O Mandarim por Eça de Queirós
Capítulo VI
 
VI
 

O mandarim (1889) - Letra capitular J.png

á a tarde declinava, e o sol descia vermelho como um escudo de metal candente, quando chegámos a Tien-Hó.

As muralhas negras da villa erguem-se, do lado do sul, ao pé d’uma torrente que ruge entre rochas: para o nascente, a planicie livida e poeirenta estende-se até a um grupo escuro de collinas onde branqueja um vasto edificio — que é uma Missão Catholica. E para além, para o extremo norte são as eternas montanhas rôxas da Mongolia, suspensas sempre no ar como nuvens.

Alojámo-nos n’um barracão fetido, intitulado Estalagem da Consolação terrestre. Foi-me reservado o quarto nobre, que abria sobre uma galeria fixada em estacas; era ornado estranhamente de dragões de papel recortado, suspensos por cordeis do travejamento do tecto; á menor aragem aquella legião de monstros fabulosos oscillava em cadencia, com um rumor sêcco de folhagem, como tomada de vida sobrenatural e grutesca.

Antes que escurecesse fui vêr com Sá-Tó a villa: mas bem depressa fugi ao fedor abominavel das viellas: tudo se me afigurou ser negro — os casebres, o chão barrento, os enxurros, os cães famintos, a populaça abjecta... Recolhi ao albergue — onde arrieiros mongoes e crianças piolhosas me miravam com assombro.

— Toda esta gente me parece suspeita, Sá-Tó — disse eu, franzindo a testa.

— Tem Vossa Honra razão. É uma ralé! Mas não ha perigo: eu matei, antes de partirmos, um gallo negro, e a deusa Kaonine deve estar contente. Póde Vossa Honra dormir ao abrigo dos maus espiritos... Quer Vossa Honra o chá?...

— Traze, Sá-Tó.

Bebido o chá, conversámos do grande plano: na manhã seguinte eu ia levar a alegria á triste choupana da viuva de Ti-Chin-Fú, annunciando-lhe os milhões que lhe dava, depositados já em Pekin: depois, de accordo com o Mandarim governador, fariamos uma copiosa distribuição de arroz pela populaça: e á noite illuminações, danças, como n’uma gala publica...

— Que te parece, Sá-Tó?

— Nos labios de Vossa Honra habita a sabedoria de Confucio... Vai ser grande! Vai ser grande!

Como vinha cançado, bem cedo comecei a bocejar, e estirei-me sobre o estrado de tijolo aquecido que serve de leito nas estalagens da China; enrolado na minha pelliça, fiz o signal da cruz, e adormeci pensando nos braços brancos da generala, nos seus olhos verdes de sereia...

Era talvez já meia noite quando despertei a um rumor lento e surdo que envolvia o barracão — como de forte vento n’um arvoredo, ou uma maresia grossa batendo um paredão. Pela galeria aberta, o luar entrava no quarto, um luar triste d’outono asiatico, dando aos dragões suspensos do tecto fórmas, semelhanças chimericas...

Ergui-me, já nervoso — quando um vulto, alto e inquieto, appareceu na facha luminosa do luar...

— Sou eu, Vossa Honra! — murmurou a voz apavorada de Sá-Tó.

E logo, agachando-se ao pé de mim, contou-me n’um fluxo de palavras roucas a sua afflicção: — emquante eu dormia, espalhára-se pella villa que um estrangeiro, o Diabo estrangeiro, chegára com bagagens carregadas de thesouros... Já desde o começo da noite elle tinha entrevisto faces agudas, d’olho voraz, rondando o barracão, como chacaes impacientes... E ordenára logo aos koulis que entrincheirassem a porta com os carros das bagagens, formados em semi-circulo á velha maneira tartara... Mas pouco a pouco a malta crescera... Agora vinha d’espreitar por um postigo: e era em roda da estalagem toda a populaça de Tien-Hó, rosnando sinistramente... A deusa Kaonine não se satisfizera com o sangue do gallo preto!... Além d’isso elle vira á porta d’um pagode uma cabra negra recuar!... A noite seria de terrores!... E a sua pobre mulher, o osso do seu osso, que estava tão longe, em Pekin!...

— E agora, Sá-Tó? — perguntei eu.

— Agora..., Vossa Honra, agora...

Calou-se: e a sua magra figura tremia, acaçapada como um cão que se roja sob o açoite.

Eu afastei o cobarde, e adiantei-me para a galeria. Em baixo, o muro fronteiro, coberto d’um alpendre, projectava uma funda sombra. Ahi com effeito estava uma turba negra apinhada. Ás vezes uma figura, rastejando, adiantava-se no espaço alumiado, espreitava, farejava as carretas, e sentindo a lua sobre a face, recuava vivamente, fundindo-se na escuridão: e como o tecto do alpendre era baixo, faiscava um momento á luz algum ferro de lança inclinada...

— Que querem vossês, canalha? — bradei eu em portuguez.

A esta voz estrangeira um grunhido sahiu da treva; immediatamente uma pedra veio ao meu lado furar o papel encerado da gelosia; depois uma flecha silvou, cravou-se por cima da minha cabeça, n’um barrote...

Desci rapidamente á cozinha da estalagem. Os meus koulis, acocorados sobre os calcanhares, batiam o queixo n’um terror; e os dois cossacos que me acompanhavam, impassiveis á lareira, cachimbavam, com o sabre nú nos joelhos.

O velho estalajadeiro d’oculos, uma avó andrajosa que eu vira no pateo deitando ao ar um papagaio de papel, os arrieiros mongoes, as crianças piolhosas, esses tinham desapparecido; só ficára um velho, bebedo d’opio, cahido a um canto como um fardo. Fóra ouvia-se já a multidão vociferar.

Interpellei então Sá-Tó, que quasi desmaiava, arrimado a uma viga: nós estavamos sem armas; os dois cossacos, sós, não podiam repellir o assalto: era necessario pois ir acordar o Mandarim governador, revelar-lhe que eu era um amigo de Camilloff, um conviva do principe Tong, intimal-o a que viesse dispersar a turba, manter a lei santa da hospitalidade!...

Mas Sá-Tó confessou-me, n’uma voz debil como um sôpro, que o Governador decerto é quem estava dirigindo o assalto! Desde as auctoridades até aos mendigos, a fama da minha riqueza, a legenda das carretas carregadas d’oiro inflammára todos os appetites!... A prudencia ordenava, como um mandamento santo, que abandonassemos parte dos thesouros, mulas, caixas de comestiveis...

— E ficar aqui, n’esta aldeia maldita, sem camisas, sem dinheiro e sem mantimentos?...

— Mas com a rica vida, Vossa Honra!

Cedi. E ordenei a Sá-Tó que fosse propôr á turba uma copiosa distribuição de sapeques, — se ella consentisse em recolher aos seus casebres, e respeitar em nós os hospedes enviados por Buddha...

Sá-Tó subiu á sacada da galeria, a tremer; e rompeu logo a arengar á malta, bracejando, atirando as palavras com a violencia d’um cão que ladra. Eu abrira já uma maleta, e ia-Ihe passando cartuchos, saccos de sapeques — que elle arremessava aos punhados com um gesto de semeador... Em baixo havia por momentos um tumulto furioso ao chover dos metaes; depois um lento suspiro de gula satisfeita; e logo um silencio, n’uma suspensão de quem espera mais...

— Mais! — murmurava Sá-Tó, voltando-se para mim ancioso.

Eu, indignado, lá lhe dava outros cartuchos, mais rôlos, mólhos de moedas de meio real enfiadas em cordeis... Já a maleta estava vazia. A turba rugia, insaciada.

— Mais, Vossa Honra! — supplicou Sá-Tó.

— Não tenho mais, creatura! O resto está em Pekin!

— Oh Buddha Santo! Perdidos! Perdidos! — clamou Sá-Tó, abatendo-se sobre os joelhos.

A populaça, calada, esperava ainda. De repente, uma ululação selvagem rasgou o ar. E eu senti aquella massa avida arremessar-se sobre as carretas que defendiam a porta em semi-circulo: ao choque todo o madeiramento da Estalagem da Consolação terrestre rangeu e oscillou...

Corri á varanda. Em baixo era um tropel desesperado em torno dos carros derrubados: os machados reluziam cahindo sobre a tampa dos caixotes: o coiro das malas abria-se fendido á faca por mãos innumeraveis: no alpendre, os cossacos debatiam-se, aos urros, sob o cutelo. Apesar da lua, eu via em roda do barracão errarem tochas, n’uma dispersão de fagulhas: um alarido rouco elevava-se, fazendo ao longe uivar os cães; e de todas as viellas desembocava, corria populaça, sombras ligeiras, agitando chuços e foices recurvas...

Subitamente, na loja terrea, ouvi o tumulto da turba que a invadia pelas portas despedaçadas: decerto me procuravam, suppondo que eu teria commigo o melhor do thesouro, pedras preciosas ou oiros... O terror desvairou-me. Corri a uma grade de bambús para o lado do pateo. Demoli-a, saltei sobre uma camada de matto grosso, n’um cheiro acre de immundicies. O meu poney, preso a uma trave, relinchava, puxando furiosamente o cabresto: arremessei-me sobre elle, empolguei-lhe as crinas...

N’esse momento, do portão da cozinha arrombada rompia uma horda com lanternas, lanças, n’um clamor de delirio. O poney, espantado, salta um regueiro; uma flecha silva a meu lado; depois um tijolo bate-me no hombro, outro nos rins, outro na anca do poney, outro mais grosso rasga-me a orelha! Agarrado desesperadamente ás crinas, arquejando, com a lingua de fóra, o sangue a gottejar da orelha, vou despedido n’uma desfilada furiosa ao longo d’uma rua negra... De repente vejo diante de mim a muralha, um bastião, a porta da villa fechada!

Então, allucinado, sentindo atraz rugir a turba, abandonado de todo o soccorro humano — precisei de Deus! Acreditei n’elle, gritei-lhe que me salvasse; e o meu espirito ia tumultuosamente arrebatando, para lhe offerecer, fragmentos de orações, de Salve-Rainhas, que ainda me jaziam no fundo da memoria... Voltei-me sobre a anca do potro: d’uma esquina ao longe surgiu um fogacho de tochas: era a corja!... Larguei de golpe ao comprido da alta muralha que corria ao meu lado como uma vasta fita negra furiosamente desenrolada: de subito avisto uma brecha, um boqueirão erriçado d’esgalhos de sarças, e fóra a planicie que sob a lua parecia como uma vasta agua dormente! Lancei-me para lá, desesperadamante, sacudido aos galões do potro... E muito tempo galopei no descampado.

De repente o poney, eu, rolámos com um baque surdo. Era uma lagôa. Entrou-me pela bôca agua putrida, e os pés enlaçaram-se-me nas raizes molles dos nenuphares... Quando me ergui, me firmei no sólo, — vi o poney, correndo, muito longe, como uma sombra, com os estribos ao vento...

Então comecei a caminhar por aquella solidão, enterrando-me nas terras lodosas, cortando através do matto espinhoso. O sangue da orelha ia-me pingando sobre o hombro: á frialdade agreste, o fato encharcado regelava-me sobre a pelle: e por vezes, na sombra, parecia-me ver luzir olhos de feras.

Emfim, encontrei um recinto de pedras soltas onde jazia, sob um arbusto negro, um d’aquelles montões d’esquifes amarellos que os chinezes abandonam nos campos, e onde apodrecem corpos. Abati-me sobre um caixão, prostrado: mas um cheiro abominavel pesava no ar: e ao apoiar-me sentia o viscoso d’um liquido que escorria pelas fendas das tábuas... Quiz fugir. Mas os joelhos negavam-se, tremiam-me: e arvores, rochas, hervas altas, todo o horisonte começou a girar em torno de mim como um disco muito rapido. Faiscas sanguineas vibravam-me diante dos olhos: e senti-me como cahindo de muito alto, devagar, á maneira d’uma penna que desce...

Quando recuperei a consciencia estava estirado n’um banco de pedra, no pateo d’um vasto edificio semelhante a um convento, que um alto silencio envolvia. Dois padres lazaristas lavavam-me devagar a orelha. Um ar fresco circulava; a roldana d’um poço rangia lentamente; um sino tocava a matinas. Ergui os olhos, avistei uma fachada branca com janellinhas gradeadas e uma cruz no topo: então, vendo n’aquella paz de claustro catholico como um recanto da patria recuperada, o abrigo e a consolação, rolaram-me das palpebras duas lagrimas mudas.