O Mulato/V

O Mulato por Aluísio Azevedo
Capítulo V


Era Ana Rosa. Logo que ela se recolhera ao quarto, gritara pela Mônica.

— Mãe- pretinha!

Assim tratava a cafuza que a criara e que dormia todas as noites debaixo da sua rede...

— Mãe-pretinha! Ó senhores!

— O que é, laiá? Não se agaste!

— Você tem um sono de pedra! oh!

Deu um estalo com a língua.

— Dispa-me!

E estendeu-se negligentemente em uma cadeira, entregando à criada os pés pequeninos e bem calçados.

Mônica tomou-os, com amor, entre as suas mãos negras e calejadas; descalçou-lhe cuidadosamente as botinas, sacou-lhe fora as meias; depois, com um desvelo religioso, como um devoto a despir a imagem de Nossa Senhora, começou a tirar as roupas de Ana Rosa; desatou-lhe o cadarço das anáguas; desapertou-lhe o colete e, quando a deixou só em camisa, disse, apalpando-lhe as costas:

— laiá? vos vossemecê está tão suada!...

E correu logo ao baú.

A senhora pusera-se a cismar, distraída, coçando de leve a cintura, o lugar das ligas e as outras partes do seu corpo que estiveram comprimidas por muito tempo. Mônica voltou com uma camisola toda cheirosa, impregnada de junco, a qual, abrindo-a com os braços, enfiou pela cabeça de Ana Rosa, esta ergueu-se e deixou cair a seus pés a camisa servida e conchegou a outra à pele, afagando os seus peitos virgens num estremecimento de rola. Depois suspirou baixinho e deu uma carreira para a rede, na pontinha dos pés, como se neo quisesse tocar no chão.

A cafuza ajuntou zelosamente a roupa dispersa pelo quarto e guardou as jóias.

— laiá quer mais alguma coisa?

— Água, disse a moça, aninhando-se já nos lençóis defumados de alfazema. Só se lhe via a graciosa cabeça, saindo despenteada dentre nuvens de pano branco.

A cafuza trouxe-lhe uma bilha de água, e a senhora, depois de servida, beijou-lhe a mão.

— Boas noites mãe-pretinha. Abaixe a luz e feche a porta.

— Deus te faça uma santa! respondeu Mônica, traçando no ar uma cruz com a mão aberta.

E retirou-se humildemente, toda bons modos e gestos carinhosos.

Mônica orçava pelos cinqüenta anos; era gorda, sadia e muito asseada; tetas grandes e descaidas dentro do cabeção Tinha ao pescoço um barbante, com um crucifixo de metal, uma pratinha de 200 réis, uma fava de cumaru, um dente de cão e um pedaço de lacre encastoado em ouro. Desde que amamentara Ana Rosa, dedicara-lhe um amor maternalmente extremoso, uma dedicação desinteressada e passiva. Iaiá fora sempre o seu ídolo, o seu único 'querer bem", porque os próprios filhos esses lhos arrancaram e venderam para o Sul. Dantes, nunca vinha da fonte, onde passava os dias a lavar, sem lhe trazer frutas e borboletas, o que, para a pequenina, constituía o melhor prazer desta vida. Chamava-lhe "sua filha, seu cativeiro" e todas as noites, e todas as manhãs, quando chegava ou quando saia para o trabalho, lançava lhe a bênção, sempre com estas mesmas palavras: "Deus te faça uma santa! — Deus te ajude! Deus te abençoe!" Se Ana Rosa fazia em casa qualquer diabrura, que desagradasse a mãe-preta, esta a repreendia imediatamente, com autoridade; desde, porém, que a acusação ou a reprimenda partissem de outro, fosse embora do pai ou da avó, punia logo pela menina e voltava-se contra os mais.

Havia seis anos que era forra. Manuel dera-lhe a carta a pedido da filha, o que muita gente desaprovou, "terás o pago!..." diziam-lhe. Mas a boa preta deixou-se ficar em casa dos seus senhores e continuou a desvelar-se pela laia melhor que até então, mais cativa do que nunca.

Ana Rosa, mal ficou sozinha, no aconchego confidencial da sua rede, intima tranqüilidade do seu quarto frouxamente iluminado à luz mortiça do candeeiro de azeite, principiou a passar em revista todos os acontecimentos desse dia. Raimundo avultava dentre a multidão dos fatos como uma letra maiúscula no meio de um período de Lucena; aquele rosto quente, de olhos sombrios, olhos feitos do azul do mar em dias de tempestade, aqueles lábios vermelhos e fortes, aqueles dentes mais brancos que as presas de Uma fera, impressionavam-na profundamente. "Que espécie de homem estaria ali!..."

Procurava com insistência recordar-se dele em algum dos episódios da sua infância—nada! diziam-lhe. entretanto, que brincara com ela em pequenino, e que foram amigos, companheiros de berço criados juntos, que nem irmãos. E todas estas coisas lhe produziam no espírito um efeito muito estranho e singular. As meias sombras, as reservas e as reticências, com que a medo lhe falavam dele, ainda mais interessante o tomavam aos olhos dela. "Mas, afinal, quem seria ao certo aquele belo moço?... Nunca '"o explicaram; paravam em certos pontos, saltavam sobre outros como por cima de brasas; e tudo isto, todos estes claros que deixavam abertos a respeito do passado de Raimundo, todos esses véus em que o envolviam como a Uma estátua que se não pode ver emprestavam-lhe atrações magnéticas, Um encanto irresistível e perigoso de mistério, uma fascinação romântica de abismo.

Entontecia de pensar nele. O hibridismo daquela figura, em que a distinção e a fidalguia do porte se harmonizavam caprichosamente com a rude e orgulhosa franqueza de um selvagem produzia-lhe na razão o efeito de Um vinho forte, mas de Uma doçura irresistível e traidora ficava estonteada; perturbava-se toda com a lembrança do contraste daquela fisionomia, com a expressão contraditória daqueles olhos, suplicantes e dominadores a Um tempo; sentia-se vencida, humilhada defronte daquele mito; reconhecia-lhe certo império, certa preponderância que jamais descobrira em ninguém; quanto mais o comparava aos outros, mais o achava superior, único, excepcional.

E Ana Rosa deixava-se invadir lentamente por aquela embriaguez esquecendo-se, alheando-se de tudo, sem querer pensar em outro objeto que não fosse Raimundo. De repente surpreendeu-se a dizer: "Como deve ser bom o seu amor!..." E ficou a cismar, a fazer conjeturas, a julgá-lo minuciosamente, da cabeça aos pés. Parou nos olhos: "Quantos tesouros de ternura não estariam neles escondidos? neles, do feitio de amêndoas, banhados de bondade e cercados de pestadas crespas e negras, como os pêlos de um bicho venenoso; aquelas pestanas lembravam-lhe as sedas de uma aranha caranguejera." Estremeceu, porém, vieram-lhe desejos de os apalpar com os lábios. "Como devia ser bom ouvir dizer — Eu te amo! — por aquela boca e por aquela voz!..." E ficava assustada, como se de fato, no silêncio da alcova, Uma voz de homem estivesse a segredar-lhe, junto ao rosto, palavras de amor.

Mas logo tomava a si com a idéia do porte austero e frio de Raimundo. Esta indiferença, ao mesmo tempo que lhe pungia e atormentava o orgulhoso, levanta-lhe. na sua vaidade de mulher, Um apetite nervoso de ver rendida a seus pés aquela misteriosa criatura, aquele espectro inalterável e sombrio, que a vira e contemplara sem o menor sobressalto.

E entre mil devaneios deste gênero, com o sangue a percorrer-lhe mais apressado as artérias, conseguir afina! adormecer. vencida de cansaço. E, quem pudesse observá-la pela noite adiante. vê la-ia de vez em quando abraçar-se aos travesseiros e, trêmula, estender os lábios, entre abertos e sôfregos. como quem procura um beijo no espaço.

Na manhã seguinte acordara pálido e nervosa, a semelhança de uma noiva no dia imediato às núpcias. Faltava-lhe animo até para se preparar e sair do quarto: deixava-se ficar deitada na rede, a cismar, sem abrir de todo os olhos cheia de fadiga.

Parecia-lhe sentir ainda na face o calor do rosto de Raimundo.

Decorreram duas horas e ela continuava na mesma irresolução: as pálpebra]s lânguidas, as narinas dilatadas pelo hálito quente e doendo: os beiços secos e ásperos; o corpo moido sob um fastio geral, que lhe dava espreguiçamentos de febre e má vontade. E., assim prostrada, deixava-se ficar entre os lençóis, tolhida de vexame e enleio, pelas loucuras da noite.

A voz clara de Raimundo que conversava na varanda enquanto tomava café, despertou-a; Ana Rosa estremeceu, mas, num abrir e fechar de olhos, ergueu-se. lavou se e vestiu-se. Ao fitar o espelho, achou-se feia e mal enforcada, posto não estivesse pior que nos outros dias, endireitou-se toda, cobriu o rosto de pó de arroz, arranjou melhor os cabelos e escovou um sorriso.

Apareceu lá fora com grande acanhamento; deu a Raimundo um "Bons dias" frio. de olhos baixos. Não podia encará-lo. Maria Bárbara já lá estava na labutação, a cuidar da casa, a dar voltas. a gritar com os escravos.

— Olha esse bilhete da Eufrásia. disse ela, ao ver a neta. E passou-lhe uma tira de papel. engenhosamente dobrada em laço c com um galhinho de alecrim enfiado no centro.

Ana Rosa teve um gesto involuntário de contrariedade. Aborrecia-lhe agora sem saber por quê, a amizade da viúva, dela, que era ate ai a sua íntima, a sua confidente, a sua melhor amiga; dos outros havia muito que se tinha enfastiado o seu desejo, naquele instante, era ficar só, bem só, num lugar em que ninguém pudesse importuná-la.

Serviu-se de uma xícara de café, deu-se por incomodada.

— V. Exª sente alguma coisa? perguntou Raimundo com delicadeza.

Ana Rosa sobressaltou-se ligeiramente, ergueu os olhos, viu os do rapaz, abaixou logo os seus e entressorrindo, gaguejou:

— Não é nada... Nervoso...

— É isto! acudiu Maria Bárbara, que parara para ouvir a resposta da neta. Nervoso! Olhem que estas moças dagora são tão cheias de tanta novidade e de tantas invenções!... E o nervoso! é a tal da enxaqueca! é o flato! é o faniquito! Ah, meu tempo, meu tempo!...

Raimundo riu-se e Ana Rosa deu de ombros, simulando indiferença pelo que dizia a velha.

— Não faça caso, moço! Esta menina está assim já de tempos, e ninguém me tira que foi quebranto que lira botaram!...

Raimundo tomou a rir. e Ana Rosa endireitou-se na cadeira em que acabava de assentar-se. 'Esta vovó!... pensou ela envergonhada. Que idéia não ficará ele fazendo da gente!..."

— Não se ria, nhô Mundico! não se ria, prosseguiu a sogra de Manuel, que aqui esta — e bateu no peito — quem já andou de quebranto a dar-não-dá com os ossinhos no Gavião!

E, tirando do seio um trancelim, com uma enorme figa de chifre encastoada em ouro:—Ai, minha rica figa, a ti o devo! a ti o devo, que me livraste do mau-olhado!

— Mas, Srª D. Maria Bárbara, conte-me como foi essa história do quebranto, pediu Raimundo.

— Ora o quê! Pois então o senhor não sabe que o mau-olhado pegando Uma criatura de Deus —está despachadinha?... Então, credo! que andou o senhor aprendendo lá por essas paragens que correu?!

— V. Ex.ª, minha prima, também acredita no quebranto? interrogou o moço, voltando-se para Ana Rosa.

— Bobagens... murmurou esta, afetando superioridade.

— Ah, então não é supersticiosa?...

— Não, felizmente. Além disso — e abaixou a voz, rindo-se mais — ainda que acreditasse, não corria risco... dizem que o quebranto só ataca em geral as pessoas bonitas...

E sorriu para Raimundo.

— Nesse caso, é prudente acautelar-se... volveu ele galanteando.

E, como se Ana Rosa lhe chamara a atenção para a própria beleza passou a considerá-la melhor; enquanto a velha taramelava:

— Meu caro senhor Mundico, hoj' em dia já não se acredita em coisa alguma!... por isso é que os tempos estão como estão — cheios de febres, de bexigas, de tísicas e de paralisias, que nem mesmo os doutores de carta sabem o que aquilo é! Diz que é "beribéri" ou não sei quê; o caso é que nunca vi em dias de minha vida semelhante diabo de moléstia, e que o tal como-chama está matando de repente que nem obra do sujo, credo! Até parece castigo! Deus me perdoe! Isto vai, mas é tudo caminhando para uma república há de dar-lhes uma. que os faça ficar ai de dente arreganhado! Pois o que, senhor! se já não há tementes de Deus! já poucos são os que rezam!.. Hoje, com perdão da Virgem Santíssima — e bateu uma palmada na boca — até podres! até há padres que não prestam!

Raimundo continuava a rir.

— Quanto mais, observou ele de bom humor para a fazer falar quanto mais se V. Ex.a conhecesse certos povos da Europa meridional.

Então e que ficaria pasma deveras!

— Credo, minha Nossa Senhora! que inferno não irá ,: ir esse mundão de esconjurados! Por isso e que agora está se vendo li sue se vê, benza-me Deus!

E, benzendo-se ela própria com ambas as mãos, pediu que a deixassem ir dar uma vista de olhos pela cozinha.

— É eu não estar lá e o serviço fica logo pra trás!. Caem no remancho, diabo das pestes!

Afastou-se gritando, desde a varanda pela Brígida: Aí estavam a pingar as nove, e nem sinal de almoço!..."

Raimundo e Ana Rosa ficaram a sós defronte um , outro, ela de olhos baixos, confusa, na aparência quase aborrecida; e ele. de cara alegre, a observá-la com interesse, gozando em contemplar, assim de perto, aquela provinciana simples e bem disposta, que se lhe afigurava agora uma irmã, de quem ele estivera ausente desde a infância "Deve ser, com certeza, uma excelente moca... calculou de si para si Pelo seu todo esta a dizer que é boa de coração e honesta por natureza Além do que, bonita..."

Sim, que até ai Raimundo ainda não tinha reparado que sua prima era bonita. Notou-lhe então a frescura da pele, a pureza da boca, a abundância cabelos. Achou-a bem tratada; as mãos claras, os dentes asseados, a tez muito limpa, fina e lustrosa, na sua palidez simpática de flor do Norte.

Principiaram a conversar, depois de algum silêncio, com muita cerimônia. Ele continuava a dar-lhe excelência, o que a constrangia um tanto, perguntou lhe pelo pai

Que tinha ido para o armazém, como de costume, e só subiria para almoçar e para jantar. Daí, queixou-se da solidão em que vivia no aborrecimento daquela casa "Um cemitério de triste!..." Lamentou não ter um irmão e, em resposta a uma pergunta que lhe fez o rapaz, disse que lia para se distrair, mas que a leitura muitas vezes a fatigava também. O primo, se tinha um romance bom, que lho emprestasse.

Raimundo prometeu ver entre os seus livros, logo que abrisse um caixão que ainda estava pregado.

A propósito do romance, entrou a conversa pelas viagens. Ana Rosa lamentou não ter saido nunca do Maranhão. Tinha vontade de conhecer outros climas, outros costumes; entusiasmava-se com a descrição de certos lugares; falou, suspirando, da Itália. "Ah, Nápoles!...""

— Não, não! objetou o rapaz. Não é o que V. Exª supõe! Os poetas exageram muito! É bom não acreditar em tudo o que eles dizem, os mentirosos!

E, depois de uma ligeira súmula das impressões recebidas na Itália, perguntou à prima se queria ver os seus desenhos. A menina disse que sim e Raimundo, muito solicito, correu a buscar o seu álbum.

Logo que ele se levantou, Ana Rosa sentiu um grande alívio: respirou como se lhe houvessem tirado um peso das costas. Mas já não estava tão nervosa e até parecia disposta a rir e gracejar; é que Raimundo, no meio da conversa, dissera despretensiosamente que simpatizava muito com ela; que a achava interessante e bonita, e isto sem precisar de mais nada, tornou-a logo bem disposta e restituiu-lhe ao semblante a sua natural expressão de bom humor.

Ele voltou com o álbum e abriu-o de par em par defronte da rapariga.

Começaram a ver. Ana Rosa era toda atenção para os desenhos; enquanto Raimundo, ao seu lado ia virando as folhas com os seus dedos morenos e roliços. e explicando as paisagens montanhosas da Suíça os edifícios e os jardins de França, os arrabaldes de Itália. E contava os passeios que realizara, os almoços que tivera em viagem, as serenatas em gôndola; ia dizendo tudo o que aqueles desenhos lhe chamavam à memória: como chegara a certo lago; como passara tal ponte; como fora servido em tais e tais hotéis e o que sabia daquele chalezinho verde, que a aquarela representava escondido entre árvores sonolentas e misteriosas.

Ana Rosa escutava com um silêncio de inveja.

— Que é isto? perguntou ela, ao ver um esboço, que expunha dois bispos, já amortalhados dentro dos competentes caixões de defunto, como à espera do momento de baixarem a tenra. Um estava imóvel, de mãos postas e olhos cerrados; o outro, porém, erguia-se a meio e parecia voltar à vida. Ao lado deles havia um frade.

— Ah! fez ele rindo, e explicou: Isso é copiado de um quadro, que vi na sacristia do velho convento de São Francisco, da Paraíba do Norte. Não vale nada, como todos os quadros que lá estão, e não poucos, pintados sobre madeira; um colorido impossível; as figuras mal desenhadas, muito duras. Esse é um dos mais antigos; copiei-o por isso. Pura curiosidade cronológica. Vê esse escudo nas mãos do frade? Tenha a bondade de virar a página; que V. Exª encontrará um soneto que aí estava escrito a pincel.

Ana Rosa virou a folha e leu:

"Este quadro, Leitor, onde a figura Vivo um Bispo te põe. que morto estar a, Mostra quanto Francisco o estimava Pois não quer vá com culpa à sepultura.

Olha o outro defronte. em que a pintura Jugulado o expõe: este formava Contra a Ordem mil queixas. que esperava Fossem dos Frades trágico jatura.

Tu agora, Leitor, que a diferente Sorte u es nestes dois acontecida Toma a ti a que for mais conducente:

O primeiro ama a Ordem e toma à vida: O segundo a aborrece e o golpe sente. Ambos prêmios têm por igual medida."

— Quem há de gostar disto. é vovó... ela tem muita devoção com São Francisco!

— Olhe! ai tem Vossa Exª um dos pontos mais bonitos de Paris.— É desenho de um pintor meu amigo; muito forte! — Essas ruínas, que aparecem ao fundo, são das Tulherias.

E passaram a conversar sobre a Guerra Franco-Prussiana, extinta pouco antes. Ana Rosa, sem desprender os olhos do álbum, via e ouvia tudo, com muito empenho; queria explicações; não lhe escapava nada. Raimundo, debruçado nas costas da cadeira em que ela estava. tinha às vezes de abaixar a cabeça para afirmar o desenho e rogava involuntariamente o rosto nos cabelos da rapariga.

Ao virar de uma folha deram de súbito com um cartão fotográfico, que estava solto dentro do livro; um retrato de mulher sorrindo maliciosamente numa posição de teatro: com as suas saias de cambraia, curtíssimas, formando-lhe uma nuvem vaporosa em torno dos quadris; colo nu, pernas e braços de meia.

— Oh! articulou a moça, espantando-se como se o retrato fosse uma pessoa estranha que viesse entremter-se no seu colóquio.

E maquinalmente, desviou os olhos daquele rosto expressivo que lhe sorria do cartão com um descaramento muito real e uma ironia atrevida. Declarou-a logo detestável.

— Ah, certamente!... E uma dançarina parisiense, explicou Raimundo, fingindo pouco caso. Tem algum merecimento artístico...

E, tomando a fotografia com cuidado, para que Ana Rosa não percebesse a dedicatória nas costas do retrato, colocou-a entre as folhas já vistas do álbum.

Ao terminarem, ele falou muito da Europa e, como a música viesse à conversa, pediu a Ana Rosa que tocasse alguma coisa antes do almoço. Passaram-se para a sala de visitas, e ela, com um grande acanhamento e um pouco de desafinação, executou vários trecho italianos.

Benedito apareceu à porta de corpo nu.

— laiá! Sinhô está chamando pra mesa.

O almoço correu pilheriado e alegre. O cônego Diogo viera a convite de Manuel, no propósito de sairem os dois mais o Raimundo. para dar uma vista d'olhos pelas casinhas de São Pantaleão.

Servida a segunda mesa, os caixeiros subiram com grande ruído de pés.

Por esse tempo aqueles três surgiam na rua, formando cada qual mais vivo contraste com os outros: Manuel no seu tipo pesado e chato de negociante, calças de brim e paletó de alpaca; o cônego imponente na sua batina lustrosa, aristocrata, mostrando as meias de seda escarlate e o pé mimoso, apertadinho no sapato de polimento; Raimundo, todo europeu, elegante, com uma roupa de casimira leve adequada ao clima do Maranhão, escandalizando o bairro comercial com o seu chapéu-de-sol coberto de linho claro e forrado de verde pela parte de dentro. "Formavam dizia este último, chasqueando, sem tirar o charuto da boca uma respeitável trindade filosófica, na qual, ali, o Sr. Cônego representava a teologia, o Sr. Manuel a metafísica, e ele, Raimundo, a filosofia política; o que, aplicado à política, traduzia-se na prodigiosa aliança dos três governos — o do papado, o monárquico e o republicano!"

Ana Rosa espreitava-os e seguia-os com a vista, curiosa, por entre as folhas semicerradas de uma janela.

Por onde seguiam, Raimundo ia levantando a atenção a todos. As negrinhas comam ao interior das casas, chamando em gritos a sinhá-moça para ver passar "Um moço bonito!" Na rua, os linguarudos paravam com ar estúpido, para examiná-lo bem; os olhares mediam-no grosseiramente da cabeça aos pés, como em desafio; interrompiam-se as conversas dos grupos que ele encontrava na calçada.

— Quem e aquele sujeito, que ali vai de roupa clara e um chapéu de palha?

— Or'essa! Pois ainda não sabes? respondia um Bento. É o hóspede de Manuel Pescada!

— Ah! este é que é o tal doutor de Coimbra?

— O cujo! afirmava o Bento.

— Mas Brito, vem cá! disse o outro, com grande mistério, como quem faz uma revelação importante. — Ouvi dizer que é mulato!...

E a voz do Brito tinha o assombro de uma denúncia de crime.

— Que queres, meu Bento? São assim estes pomadas cá da terra dos papagaios! E ainda se zangam quando queremos limpar lhes a raça, sem cobrar nada por isso!

— Branquinho nacional! É gentinha com quem eu embirro. ó Bento, como com o vento, disse Brito com uma troca e baldroca de VV e BB, que denunciava a sua genealogia galega.

Em outra parte, dizia-se:

— Olé Um cara nova? Que achado!

— É o Dr. Raimundo da Silva...

— Médico?

— Não. Formado em Direito

— Ah! É advogado? Que faz ele? do que vive? o que possui?

— Vem advogar a própria causa por cá! Está tratando do que lhe pertence e do que lhe não pertence!

— O que me conta você, homem?...

— Coisas da vida, meu amigo! Estes doutores pensam que aqui os casamentos ricos andam a ufa!...

Em uma casa de família:

— Sabem? passou por aí o Raimundo!

— Que Raimundo? perguntam logo em coro.

— Aquele mulato, que diz que é doutor e está às sopas do Manuel Pescada!

— Dizem que ele tem alguma coisa...

— Pulha, minha rica, todos estes aventureiros, que arribam por cá, trazem o rei na barriga!

— E o Pescada para que o quer em casa?

Qual quer o quê! O Manuel despachou-o bonito, porem o mitra deixou-se ficar!

— Sempre há muita gente sem vergonha!...

Em outras partes, juraram que Raimundo era filho do cônego Diogo e que vinha dos estudos; ainda noutras, viam em Raimundo uma carta do Partido Conservador; o redator do "Maritacaca" dizia a um correligionário: "Espere um pouco! deixe chegarem as eleições e então você verá este sujeito de cama e mesa com o presidente. Olhe! eles hão de dar-se perfeitamente, porque, tanto cara de safado tem um, como o outro!"

E assim ia Raimundo, sendo inconscientemente, objeto de mil comentários diversos e estúpidas conjeturas.

À noite estava fechado o negócio das casas, e decidido que, mel fizesse bom tempo, iria ele ao Rosário com o Manuel, resolver o da fazenda.

No dia imediato, Raimundo deu um passeio ao Alto da Carneira; no outro dia foi até São Tiago; no outro percorreu a praça do Mercado; foi três ou quatro vezes ao Remédios; repetiu a visita aos pontos citados e — não tinha mais onde ir. Meteu-se em casa, disposto a cultivar as relações familiares do tio e visitá-las de vez em quando, para se distrair; mas, posto lhe repetissem com insistência que o Maranhão em uma província muito hospitaleira, como é de fato, reparava despeitado, que, sempre e por toda a parte, o recebiam constrangidos. Não lhe chegava as mãos um só convite para baile ou para simples sarau; cortavam muita vez a conversação, quando ele se aproximava; tinham escrúpulo em falar na sua presença de assuntos, aliás, inocentes e comuns; enfim — isolavam-no, e o infeliz, convencido de que era gratuitamente antipatizado por toda a província, sepultou-se no seu quarto e só saía para fazer exercício, ir a uma reunião pública, ou então quando algum dos seus negócios o chamava à rua. Todavia, uma circunstância o intrigava, e era que, se os chefes de família lhe fechavam a casa, as moças não lhe fechavam o coração; em sociedade o repeliam todas, isso e exato, mas em particular o chamavam para a alcova. Raimundo via-se provocado por várias damas, solteiras, casadas e viúvas, cuja leviandade chegava ao ponto de mandarem-lhe flores e recados, que ele fingia não receber, porque, no seu caráter educado, achava a coisa ridícula e tola. Muitos e muitos dias neo se despregava do quarto, senão para comer ou, o que sucedia com freqüência, para ir à varanda dar dois dedos de palestra à prima.

Estes cavacos faziam-se pelo alto dia, a horas de mais calor, e, muita vez, também a noite, das sete às nove, durante o serão. O rapaz, sempre respeitoso, assentava-se, defronte da maquina em que Ana Rosa costa, e com um livro entre os dedos ou a rabiscar algum desenho, conversavam tranqüilamente, com grandes intervalos. As vezes dava lhe para pedir explicações sobre a costura; queria saber, com um interesse pueril e carinhoso, o modo de arrematar as bainhas, de tirar os alinhavos; outras vezes, distraídos, falavam de religião, política, literatura, e Raimundo, de bom humor, concordava em geral com tudo o que ela entendia, mas, quando lhe dava na cabeça, discordava, de manhoso, para que a menina se exaltasse, discorresse sobre o ponto, e ralhasse com ele, procurando, muito seria, chamá-lo a verdade religiosa, dizendo-lhe "que não fosse maçom e respeitasse a Deus!"

Raimundo, que nunca, depois de homem, vivera na intimidade da família, dedicava-se com aquilo. D. Maria Bárbara, porem, vinha quase sempre quebrar com o seu mau gênio aquele remanso de felicidade. Em cada vez mais insuportável o diabo da velha! berrava horas inteiras tinha ataques de cólera; não podia passar muito tempo sem dar pancadas nos escravos. O rapaz, por diversas vezes, enterrara o chapéu na cabeça e saíra protestando mudar-se.

— Que carrasco! dizia a descer a quatro e quatro os degraus. Da bordoada por gosto! Diverte-se em fazer cantar o relho e a palmatória!

E aquele castigo bárbaro e covarde revoltava-o profundamente, punha-o triste, dava-lhe ímpetos de fazer um despropósito na casa alheia. "Estúpidos!" exclamava a sós, indignado. Mas, como a mudança não fosse tão fácil, contentava-se ele com o passar uma parte do dia no bilhar do único restaurante da província, não sem pena de abandonar as inocentes palestras da varanda.

Em breve criou fama de jogador e bêbado.

O fato era que, por tudo isto, lhe minava o espírito uma surda repugnância pela província e contra aquela maldita velha. Quando o estalo do chicote ou dos bolos rebentava no quintal ou na cozinha, Raimundo repelia a pena com que trabalhava no quarto.

— Lá está o diabo! Nem me deixa fazer nada! arre!

E saía furioso para o bilhar.

Ora, Ana Rosa, era também contra o castigo, e o procedimento da avó foi um pretexto para a sua primeira solidariedade de pontos de vista com o primo; os dois conversavam em voz baixa contra Maria Bárbara, e esta conspiração aproximava-os mais um do outro, unia-os. Mas um belo dia, em que o Benedito levou uma mela mais estrada, Raimundo chegou-se a Manuel e falou-lhe resolutamente em mudança. "Que sabia estava incomodando e não queria abusar. O Sr. Manuel que tivesse paciência e lhe arranjasse uma casinha mobiliada e um criado..."

— O que, homem!... protestou logo Manuel, a quem não convinha a mudança do seu hóspede antes de realizada a compra da fazenda. O doutor pensa que está na Europa ou no Rio?... Pois então casinhas mobiliadas e com criado, isto é lá coisa que se encontre por cá?... Ora deixe-se disso!

E, como o sobrinho insistisse, continuou declarando que semelhante exigência, sobre ser quase inexeqüível acarretava para ele, Manuel, certa odiosidade. "Que não diriam por ai?... Diriam que Raimundo fora tão maltratado pelos parentes de seu pai que preferira sepultar-se entre quatro paredes a ter de aturá-los!"

— Não senhor! concluiu ele, afagando-lhe o ombro com uma palmada, deixe-se ficar cá em casa, pelo menos ate o verão — em agosto, iremos juntos ver a fazenda — e, como por esse tempo já todos os seus negócios estarão liquidados. ou o senhor volta para a Corte, ou se instala aqui mesmo na província, porém com decência! Não lhe parece isto acertado? Para que fazer as coisas mal feitas?...

Raimundo consentiu afinal, e, desde então, esperava o mês de agosto com uma impaciência de faminto. Não era tanto a vontade de fugir a Maria Bárbara o que lhe fazia desejar com tamanha febre aquela viagem ao Rosário, mas o empenho a sede velha de tornar a ver o lugar, em que lhe diziam, tão secamente, ter ele nascido e vivido os seus primeiros anos. "E daí, quem sabe lá se não iria encontrar a decifração do mistério da sua vida?..."

Esperou, e na espera entretinha-se todos os dias com Ana Rosa, tanto e com tal satisfação, que ainda nos princípios de junho, confessava já não lamentar a dificuldade da mudança. Ao contrario, pressentia até que já não podia realizá-la, sem sofrer pela falta daquele conchegozinho de família sem curtir grandes saudades por aquela irmã, sua amiga, franca e delicada, que lhe dera a provar pela primeira vez o suavíssimo prazer da convivência em família.

Efetivamente, a filha de Manuel já era muito chegada a Raimundo...

O tratamento de excelência desaparecera como inútil entre parentes que se estimam; os sustos, os sobressaltas, as desconfianças, que dantes a acometiam na presença daquele moço austero e na aparência tão pouco comunicativo, foram substituídos, graças às providências do negociante sobre Maria Bárbara, por momentos agradáveis, cheios de doçura, em que o primo, ora contava com graça as peripécias de uma jornada; ora desenhava a lápis a caricatura dos conhecidos da casa; ora solfejava alguma melodia alemã ou algum romance italiano; ou, quando menos, lia versas e contos escolhidos.

Ana Rosa sentia em tudo isso um grande encanto, mas incompleto: Raimundo, pelos modos, parecia que lhe não tributava mais do que respeitosa amizade de irmão; e isto, para ela, não bastava. Raro era o dia em que a maca sob qualquer pretexto, não lhe fazia uma carícia disfarçada; dizia por exemplo: 'Esta varanda e muito fresca... Não acha primo? Olhe, veja como tenho as mãos frias..." E entregava-lhe as mãos, que ele tenteava frouxamente, com medo de ser indiscreto. Outras vezes fingia reparar que o rapaz tinha os dedos muito longos e vinha-lhe à fantasia medi-los com os seus. ou queixava-se de ameaças de febre e pedia-lhe que lhe tomasse o pulso. Mas, a todas estas dissimulações da ternura. a todas estas tímidas hipocrisias do amor, sujeitava-se ele frio, indiferente e por vezes distraído.

Este pouco caso desesperava-a; doía-lhe aquela falta de entusiasmo, aquele nenhum carinho. por ela, que tanto se desvelava em merecê-lo. Cercos dias a pobre moca aparecia sem querer dar lhe palavra e com os olhos vermelhos s e pisados; Raimundo atribuia tudo a qualquer indisposição nervosa e procurava distraí-la por meio da conversa, da música. sem nunca lhe falar do aspecto triste e abatido que lhe notava; tinha receio de impressioná-la e só conseguia afligi-la mais, porque Ana Rosa, quando, ao levantar-se da rede, se percebia pálida e triste, esforçava-se por conservar intacta na fisionomia a expressão da sua mágoa, na esperança de comovê-lo; de ser interrogada por ele, de ter enfim uma ocasião de confessar-lhe o seu amor. O ar friamente atencioso de Raimundo, as suas perguntas calmas, cristalizadas pela delicadeza, com que ele se informava da saúde da prima, a imperturbabilidade médica com que falava daquelas tristezas, daquela insônia e daquela falta de apetite, a formal condescendência que afetava, como por obséquio a uma pobre convalescente que se não deve contrariar, enchiam-na de raiva e despedaçavam-lhe a esperança de ser correspondida.

Uma ocasião, em que ela se lhe apresentou muito mais desfeita e pálida, Raimundo chamou a atenção de Manuel para a saúde da filha:

— Tenha cuidado! disse-lhe Aquela idade é muito perigosa nas mulheres solteiras... Talvez fosse acertado uma viagem... Em todo o caso, não há efeito sem causa.. E bom consultar o médico.

Manuel coçou a cabeça, em silêncio; a verdadeira causa já o Jauffret lhe havia declarado; mas. como Raimundo voltasse à questão e pintasse o caso muito feio, insistindo em que era preciso fazer alguma coisa, teve o bom português, nessa mesma tarde, uma conferência com o compadre e com o seu caixeiro Dias a quem prometeu sociedade comercial, na hipótese de que se efetuasse para o seguinte mês, como ficava resolvido, o casamento dele com Ana Rosa.

— Mas a D. Anica levará em gosto?... perguntou o Dias, abaixando os olhos, com o melhor sorriso hipócrita do seu repertório.

— Naturalmente... respondeu Manuel. porque da última vez que lhe toquei nisso, ela deu-me esperança... agora é provável que dê certeza!

— De não casar talvez! observou o cônego.

— Como não casar?...

— Como? Eu lho digo...

E o cônego apresentou as suas razões, fez bons argumentos, estabeleceu premissas, tirou conclusões, citou máximas latinas, e declarou que aquela hospedagem do cabrocha, no seio da família, nunca fora do seu gosto; e que, para se tratar do casamento de Ana Rosa, a primeira coisa a fazer era afastá-lo da casa.

Mas o negociante, que colocava os seus interesses pecuniários acima de tudo, abanou as orelhas às palavras do compadre, e descreveu a atitude respeitosa e desinteressada de Raimundo ao lado de Ana Rosa; falou no empenho com que o sobrinho quis mudar-se; no seu honor pela província; no seu entusiasmo pela Corte; e lembrou que fora ele próprio até, coitado! quem provocara aquela conferência dos três. Terminou dizendo que, por esse lado, nada temia. Além de que, depositava bastante confiança no bom senso de sua filha. "Não! por ai podiam estar descansados! Não havia perigo a recear!"

— Veremos... veremos... Enquanto não assistir ao casamento deste aqui com a minha afilhada, estou no que disse!... Cui fidas vide!

E o cônego assoou-se com estrondo.

Nessa mesma noite, Manuel, aproveitando a ausência do hóspede, levou a filha ao quarto de Maria Bárbara.. A velha embalava-se na rede, "bebendo" o seu fumo de corda no cachimbo e fitando um velho oratório de pau-santo. Ana Rosa, intrigada com a situação, encostou-se a uma cômoda, e o pai, depois de discorrer sobre várias coisas indiferentes, disse que, no dia seguinte, viriam as amostras da casa do Vilarinho, para a noiva escolher as fazendas do seu enxoval!

— Quem vai casar?... perguntou a menina, num alvoroço.

— Faze-te desentendida, minha sonsa!... Ora qual de nós aqui tem mais cara de noivo — eu ou tua avó?...

E Manuel fez uma festinha no queixo da filha.

— Casar! eu? mas com quem, papai?

E Ana Rosa sorriu, porque calculou que Raimundo a pedira em casamento.

— Ora com quem havia de ser, minha disfarçada?

E desta vez foi Manuel que riu, iludido pelo bom acolhimento que a filha dera à noticia.

— Não sei, neo senhor... respondeu ela, com ar de quem sabe perfeitamente. Com quem é?...

— Anda lá, sonsinha? Não sabes outra coisa!...

E, enquanto Ana Rosa parecia muito ocupada em raspar com a unha uns pingos de cera velha, espalhados pela madeira da cômoda, continuou o negociante:

— Mas por que não me falaste com franqueza há mais tempo, sua caprichosa, fazendo o pobre rapaz supor que o neo querias?...

Ana Rosa ficou seria.

O pai acrescentou:

— A fazê-lo, coitado! andar por ai tão derreado, que até metia dó!...

— Como?!

— Pois então não sabes como andava o nosso Dias?...

— O Dias?! interrogou Ana Rosa empalidecendo.

E fez-se muda, a cismar; só despertou, com estas palavras:

— Ora senhores!... Tem graça!

—Tem graça, não senhora! vossemecê disse que o aceitava para marido! Que diabo quer dizer agora esta mudança?... Ah, que temos mouros na costa! .. Bem me dizia o compadre!...

— Não sei o que lhe disse o padrinho, mas o que eu lhe digo, papai, é que definitivamente não me casarei com o Dias. Nunca, percebe?

— Mas, tu, se já não o queres, e porque tens outro de olho!...

— Não sei não senhor...

E abaixou os olhos.

— Bem! vê lá! Isto já me vai cheirando mal!... Ora dizes uma coisa; ora dizes outra!.. O mês passado respondeste-me na varanda: "Pode ser" e agora, às duas por três, dizes que não! Sabes que só quero a tua felicidade... não te contrario.. mas tu também não deves abusar!...

— Mas, gentes, o que foi que eu fiz?...

— Não estou dizendo que fizesses alguma coisa!... Só te aviso que prestes toda a atenção na tua escolha de noivo!.. Nem quero imaginar que seda capaz de escolher uma pessoa indigna de ti!...

— Mas, como, papai?... Fale claro!

— Isto vai a quem toca! Não sei se me entendes!...

— Ora, seu Manuel! exclamou Maria Bárbara, levantando-se e pousando no chão o enorme cachimbo de taquari do Pará Você às vezes tem lembranças que parecem esquecimento! Pois então, uma menina, que eu eduquei, ia olhar... — E gritou com mais forca — para quem, seu Manuel!?

— Bem, bem...

— Vejam se não é mesmo vontade de provocar uma criatura!...

— Bem, bem! Eu não digo isto para ofender!... desculpou-se o negociante. Mas é que temos cá um rapaz bem-aparecido, que...

— Um cabra! berrou a sogra. E era muito bem feito que acontecesse qualquer coisa, para você ter mais cuidado no futuro com as suas hospedagens! Também só nessa cabeça entrava a maluqueira de andar metendo em casa crioulos cheios de fumaças! Hoje todos eles são assim! Súcia de apistolados! Dá-se-lhes o pé e tomam a mão! Corja! Julgue-se mas é muito feliz em não lhe ter recebido o coice! porém fique você sabendo que só a mim o deve!—sei a educação que dei a minha neta!... por esta respondo eu!.. E, quanto ao cabra... é tratar de despachá-lo já, e já, se não quiser ao depois ter de pegar-se com trapos quentes!...

— Pois bem, pois bem, senhora! Amanhã mesmo tratarei disso! Oh!

E Manuel pensou logo em aconselhar-se com o cônego.

Ana Rosa continha o choro.

— Vou para meu quarto! disse ela, com mau modo.

— Ouça!... opôs-lhe o pai, detendo-a. A senhora...

— Não diga asneiras!... atalhou a velha, empurrando a neta para fora. Vai-te! e reza à Virgem Santíssima para que te proteja e te dê juízo!

Ana Rosa fechou-se, no seu quarto, rezou muito, não quis tomar chá, e soluçou até às quatro horas da manhã.

No dia seguinte, Manuel, depois de entender-se com o compadre, preveniu a Raimundo que se preparasse para ir ao Rosário.

— Estou às suas ordens, mas o senhor tinha dito que iríamos no mês de agosto.

— É certo! porem o tempo está seco e para a semana temos lua cheia. Podemos ir no sábado Convém-lhe?

— Como quiser. estou pronto.

E, daí a pouco, Raimundo foi ao quarto verificar se os seus pertences de viagens, a borracha de aguardente, as botas de montar, as esporas e o chicote, achavam-se em bom estado de servir. Estranhou encontrar tudo isso mexido e remexido de muito fresco, como se alguém houvera se servido daqueles objetos Já não era o primeiro reparo que fazia desse gênero. por outras vezes quis parecer que alguém curioso de mau gosto se divertia a remexer-lhe os papéis e a roupa "Talvez bisbilhotice do moleque!"

Mas, no dia seguinte, por ocasião de deitar-se achou sobre o travesseiro um atracador de tartaruga preso a um laço de veludo preto. Reconheceu logo estes objetos; pertenciam a Ana Rosa. "Mas, como diabo vieram eles imoralmente parar ali, na sua cama?... Havia nisso, com certeza, um mistério ridículo, que convinha por a limpo!..." Lembrou-se então de ter ficado uma vez muito intrigado por descobrir, na escova e no pente de seu uso, fios compridos de cabelo, cabelo de mulher, sem dúvida, e mulher branca.

Já maçado, resolveu passar busca minuciosa em todo o quarto e encontrou os seguintes corpos de delito: dois ganchos de pentear, um jasmim seco, um botão de vestido e três pétalas de rosa. "Ora. estes objetos lhe pertenciam tanto quanto o pentinho de tartaruga e o laço de veludo.. Quem fazia a limpeza e arrumava o quarto era o Benedito; este também não usava laços nem ganchos na cabeça... Logo, como havia pensado, alguém se divertia em vir, na sua ausência, revistar o que era dele, e esse alguém só poderia ser Ana Rosa!... Mas, que diabo vinha ela fazer ali?... Como adivinhar o fim daquelas visitas extravagantes?... Seria simples curiosidade ou andaria naquilo a base de alguma intriga maranhense, tramada contra o morador do quarto, ou talvez, quem sabe? contra a pobre menina?... Fosse o que fosse, em todo o caso, era urgente pôr cobro a semelhante patacoada!"

Desde esse dia, Raimundo prestou atenção a todos os objetos que deixava no quarto; marcou o ponto em que ficava o álbum, o despertador um livro, o estojo de barba ou qualquer coisa, que o moleque não precisasse tirar do lugar para fazer a limpeza. E com estas experiências, cada vez mais se convencia das visitas misteriosas; os corpos de delito reproduziam-se escandalosamente; uma vez encontrou toda riscada a unha a cara da dançarina, cuja fotografia ele, com tanto cuidado, escondera de sua prima, porque nas costas do cartão, havia a seguinte dedicatória: A mon brésillen bien-aimé, Raymond.

Que dúvida! Todas as suspeitas recaiam sobre a bela filha do dono da casa! A graça, porem. é que Raimundo, apesar de não agradar à sua índole de homem sério e franco tudo que cheirasse a subterfúgio e ilegalidade, sentia no entanto certo gosto vaidoso em preocupar tanto a imaginação de uma mulher bonita; lisonjeava-lhe aquele interesse, aquela espécie de revelação tímida e discreta; gostou de perceber que seu retrato era de todos os objetos, o mais violado, e, como bom policia chegou a descobrir-lhe manchas de saliva que significavam becos. Mas ou fosse levado pela curiosidade ou fosse na desconfiança de ser tudo aquilo obra de algum patife, ou fosse, enfim, porque o fato repugnasse ao seu caráter honesto verdade é que deliberou aproveitar a primeira oportunidade para acabar com aquela mistificação.

Poucos dias depois, saindo de casa e demorando-se defronte da porta a conversar com alguém, viu da rua fecharem cuidadosamente as rótulas do seu quarto. Não hesitou — subiu pé ante pé, atravessou a varanda deserta, e foi direito ao seu aposento.