O Purgativo

O Purgativo
por Humberto de Campos
Conto publicado em Grãos de Mostarda


(Bernard Gervaise)

A MÃE — Ainda não fez efeito, doutor! Nunca vi uma coisa assim!

O MÉDICO — Nenhum efeito?

A MÃE — Absolutamente nenhum. Eu chego a pensar que o farmacêutico talvez se tenha enganado ao preparar a receita.

O MÉDICO — Seria possível? Mostre-me o que ficou no fundo da garrafa.

A MÃE — aqui está, doutor; veja.

O MÉDICO — Hum! Hum! Não; não houve erro. É esta mesmo a poção laxativa que eu receitei... E a senhora deu como eu prescrevi: dois cálices, dos grandes?

A MÃE — Sim senhor. E os nosso cálices são bastante grandes... São destes...

O MÉDICO — De manhã, em jejum?

A MÃE — Sim, senhor.

O MÉDICO — E com aquele quarto de hora de intervalo?

A MÃE — Sim, senhor; contado a relógio.

O MÉDICO — É interessante. Interessante e incompreensível!

JULINHO — (derretendo-se em lágrimas} — Hi! hi! hi! Eu sei... porque é... que não fez... efeito... Eu sei!... hi! hi! hi!...

O MÉDICO — Que foi, meu filho? Diga...

JULINHO — Eu não quero dizer... hi! hi! hi!...

A MÃE — (derretendo-se em lágrimas) Dou duas moedas para o cofre... Diga!

JULINHO — Eu quero mais. Eu quero cinco moedas... Eu quero que não me castiguem... quando eu disser... hi! hi! hi!

A MÃE — Pois, bem, eu dou... Que foi que você fez? Vomitou a poção?

JULINHO — Hi! hi! hi!... Eu não vomitei a poção... Mas eu não fiz efeito... porque eu estava brincando com a garrafa... hi! hi! hi!... e engoli a rolha!...