O Rebate, 16 de julho de 1888

O Rebate, 16 de julho de 1888
por Júlio Ribeiro


A bandeira actual do Brasil não nos póde servir de symbolo nacional, a nós, republicanos, nem mesmo quando desornada dos attributos monarchicos.

A essa bandeira faltam todos os requisitos:

1º - Artisticamente, estheticamente, nada vale: verde e amarello não são côres complementares; e juntas produzem ao órgão visual uma tal sensação de crueza, uma tal gritaria chromática, que desafina os nervos, que põe a gente de máo humor.

2º - Não tem condições physicas de durabilidade; exposta ás intemperies, por poucos meses que seja, converte-se em um trapo de côrduvidosa, que faz lembrar um lenço vermelho de tabaquista, amollecido e desbotado por lavagens successivas.

3º - Não tem legitimidade heraldica: o amarelo não é côraceite na chromotecnologia do brasão.[1]

4º - Traz recordações ominosas: lembra o estabelecimento da monarquia imperial na América do Sul, lembra os reinados desastrosissimos dos dois Pedros.

A desculpal-a destas mazelas não vale a gloria de que os brasileiros a cobriram na campanha do Paraguay. Essa campanha fratricida não teve razão de ser, senão pela imprevidencia, pela cegueira do governo imperial.

Ganhámos vitórias, mas vitórias de Pyrrho, que nos exauriram.

Perdemos centenas de milhares de contos... Esquecê-la é quase um dever.

5º - Como symbolo nada diz, nada significa. Verde e amarelo! Por que verde e amarelo? Esperança e desespero? Capim e milho?

"On ne detruit que ce qu'on remplace". A substituir a bandeira e o brazão d'armas do imperialismo offerece-se o desenho chromotografado de bandeira e de brazão que ontem fizemos fixar nas esquinas e distribuir largamente.

Em nosso título vai o escorço da bandeira.[2]

Agora a descrição dela e do brazão, e as suas razões de ser:

Bandeira em listas horizontaes, alternativamente brancas e pretas, cantonadas de vermelho; no canto vermelho, sobre um globo de prata, o Brasil em azul, entre quatro estrelas de ouro.

O brazão d'armas - idêntico, mutatis mutandis: timbre - o gorro phrígio vermelho com tope branco e preto; paquifes - á esquerda, café em frutificação; á direita, cana e vide cacheada.

Esta bandeira preenche tudo o que se possa desejar:

1º - Agrada á vista pela opposição completa das côres preta e branca. O preto é a absorção completa da luz; o branco é o resultado da composição das sete côres do espectro. Com qualquer destas duas cores, estheticamente, vae bem o vermelho.

2º - Tem todas as condições physicas de durabilidade. Veja-se uma bandeira allemã, bandeira que tem as mesmas côres, após annos de serviço ao céo aberto, está quase como no primeiro dia.

3º - Tem legitimidade heraldica: o preto (sable), o branco (prata), o vermelho (góles), são côres nobilissimas, reconhecidas pelos reis de armas de todos os países.

4º - Ainda não tem tradições: a nós, cumpre-nos criar-lhe'as, honrosas, invejaveis; a nós incumbe ganhar-lhe o respeito de que se lhe deve ella rodear.

5º - Simboliza de modo perfeito a genese do povo brasileiro, as três raças de que ele se compõe - branca, preta e vermelha.

As quatro estrelas a rodear um globo, em que se vê o perfil geographico do país, representam o Cruzeiro do Sul, constellação indicadora da nossa latitude austral.

Assim, pois, erga-se, firme, palpite o Alvi-Negro Pendão do Cruzeiro!.

Notas do WikisourceEditar

  1. Essa afirmativa não é correta; o amarelo é usado para representar o ouro, assim como o branco é usado em substituição à prata na heráldica.
  2. O cabeçalho do jornal era formado pelo seu título ladeado pelo desenho do projeto de bandeira.