Eugênia, vendo Sinhazinha entrar, levantou-se, foi ao seu encontro e, tomando-lhe o braço, encaminhou-se com ela para junto do salgueiro.

Aí estavam a conversar à meia voz, quando uma escrava de D. Rosa lhe entregou um papel. Era a carta de Maurícia.

Eugênia, na porta da casa, leu à luz que da sala se projetava até o pátio, as palavras seguintes:

"Minha querida irmã,

Mal sabia eu que no meio da maior ventura que ainda encontrei na terra, reapareceu o dragão que já devorou os meus últimos bens e agora se propõe a devorar a minha existência.

Fujo dele como quem foge de um mal mortífero. Não te canses em comunicar-me sua chegada. Eu já sei que ele está na terra. Fui eu a primeira que o vi; não; foi meu coração atemorizado, que adivinhou.

Mas defende a minha causa como se fosse tua.

Estas palavras vão ser-te entregues agora mesmo. Naturalmente, hás de lê-las, tendo o meu algoz a olhar para ti.

Rogo-lhe que digas que eu o detesto hoje mais do que nunca.

Tem coragem, minha irmã e amiga, para arrostar com o espectro que me persegue, ameaçando empolgar-me com suas garras que já uma vez me puseram as carnes em sangue.

Não lhe digas onde eu moro, e seja teu particular empenho em dissuadi-lo de se aproximar de mim e tentar uma reconciliação, que tenho por impossível.

Falta-me tempo e espaço para dizer-te tudo o que meu coração sente há um quarto de hora.

Virgínia manda-te um beijo em despedida; eu mando-te lágrimas.

Tua irmã e amiga

Maurícia.

Quando Eugênia terminou a leitura destas linhas, Bezerra acabava de contar o que se passara entre ele e Albuquerque no engenho.

Martins ouvira-o atento. silencioso, sem mudar a vista. Não o conhecia. Era aquela a primeira vez que lhe falava. Quando recebera o seu retrato, enviado do Pará por Maurícia alguns dias depois do casamento, Martins dissera como fisionomista experiente: "Esta cara não é a de um homem de bem". Agora, ouvindo o original falar com ares de contrito, vendo-lhe no rosto estampado certa expressão de quem sentia mágoa íntima, disse consigo: "Neste homem, há, pelo menos, um grande arrependido".

Ângelo sentara-se em uma cadeira de balanço que ficava afastada da mesa, ao lado da qual estavam os dois homens conferenciando. Estava pálido, comovido. Ouvira as últimas palavras de Bezerra, tocantes à sua entrevista com Albuquerque, e conheceu que corria risco o sossego de Maurícia. Isto o consternou por extremo. Mas, que fazer?

— O que mais me está custando é não ver minha mulher e minha filha, observou Bezerra.

Martins ia falar, quando Eugênia, penetrando na sala, disse:

— Maurícia, não sabendo que o senhor estava aqui, retirou-se com Virgínia.

— Retirou-se! - exclamou Bezerra com espanto.

E acrescentou logo:

— É singular. Eu tinha que a má fortuna já me havia deixado de mão; mas, enganei-me; vejo agora que ainda conspira contra mim.

Martins interveio:

— Minha cunhada há de voltar. Veio passar com a irmã o dia dos seus anos, e não é natural que se retire, antes de terminado o dia, sem se despedir de nós.

— Maurícia não volta, acudiu Eugênia. Escreveu-me, dizendo que um súbito mal-estar de Virgínia a obrigara a tornar ao engenho.

Ouvindo estas palavras, não pode Bezerra ocultar o seu desgosto.

— Vejo, Sr. Martins, que minha mulher foge de mim. Mas... perdão! disse, moderando a voz, ao dar com os olhos em Ângelo e Sinhazinha que entrara. Parece que tudo isso se deve antes atribuir a ser inoportuno o momento de apresentar-me do que à recusa formal de um dever. Eu procurarei ocasião oportuna. A casa está em festa, e eu sou de mais entre os que devem tomar parte nela.

— Não é de mais. Fique, disse Martins.

Volvendo os olhos a Eugênia, que se conservava silenciosa, Bezerra respondeu:

— Preciso falar-lhe, Sr. Martins, quando estivermos desacompanhados de qualquer testemunhas. Voltarei, amanhã, e rogo-lhe que indique a hora que lhe parecer mais conveniente para a nossa conferência.

— Venha jantar conosco. Depois do jantar, conversaremos.

No dia seguinte, por ocasião de Martins sentar-se à mesa para almoçar, vieram trazer-lhe uma carta. Era de Maurícia. Dizia:

Sr. Martins,

Passei a noite em claro.

Não sei como ainda tenho forças para lhe escrever, tal é a prostração em que estou.

Mas a desgraça não tem piedade, não se condói de suas vítimas.

Estou resolvida a divorciar-me por justiça.

Venho por isso pedir-lhe que se entenda com algum advogado de sua confiança para defender os meus interesses.

Todas as economias que durante estes três últimos anos pude realizar ficam à sua disposição para qualquer despesa com a causa.

Eugênia que não se esqueça de mim.

Sua cunhada e amiga

Maurícia

Martins, passando a carta à mulher que estava sentada a seu lado, disse, não sem desgosto.

— Isto não pode ir assim.

Eugênia leu a carta, e não quis almoçar. A tristeza estendia sobre o seu rosto a sombra que a acompanha, destruidora de todo o viço e brilho com que a tranqüilidade, que é quase felicidade, esmalta os semblantes, ainda os menos frescos.

Bezerra não faltou ao prazo dado.

Às quatro horas, sentaram-se ele e Martins ao pé do salgueiro.

— Minha cunhada recusa voltar à vida conjugal, disse Martins, sem mais preâmbulos.

— O senhor tem fundamento para dizer-me isto? - perguntou Bezerra.

— Ela escreveu-me.

— Eu não podia esperar que ela estivesse em outro ânimo; mas nesta importante questão, Sr. Martins, o que deve merece maior peso não é a fantasia de minha mulher, são certos interesses, que não podem ficar expostos a graves prejuízos. Eu desejo, antes de tudo, saber qual é a sua opinião sobre este assunto.

— Não tenho ainda juízo formado a semelhante respeito. Meu desejo é o mais natural possível; é, por isso, trivial. Eu quisera que cessasse todo o motivo de repugnância, que traz o senhor e minha cunhada separados; quisera que voltassem a viver como cônjuges de condição distinta. Mas sua mulher insiste em não querer tornar à sua companhia, e dá razões em que assenta a recusa. Foi antes sua vítima do que sua mulher; antes escrava do que vítima, o que quer dizer que foi vítima duas vezes.

— Não foi tanto assim;

— Ela o diz; eu de nada sei, a não ser o que ela conta.

— O que ela sofreu muitas pessoas que moravam no Pará poderão atestar em qualquer tempo que seja preciso.

Estas palavras foram ditas por Eugênia, que viera tomar parte na conferência.

Em seu rosto, ordinariamente banhado em franca expressão de jovialidade, não se via impressa somente a tristeza que de manhã trazia, mas também certos tons de desgosto, que eqüivaliam às primeiras manifestações do ódio incipiente. Que coração, por grande que seja, não será capaz de acender-se em paixões hostis diante do sacrifício de um dos seus primeiros afetos?

Bezerra não se demorou em confutar aquele pensamento.

— Há muitos difamadores e intrigantes por toda a parte. Eu não nego o que na família de minha mulher ninguém ignora; Não fui mau nos primeiros tempos depois do meu casamento; o que tive foi pouco juízo. Maurícia era por esse tempo muito moça, e não tinha mais juízo do que eu.

— Minha irmã - acudiu Eugênia, atalhando a proposição de Bezerra - sempre foi muito ajuizada.

— Em minha companhia - prosseguiu Bezerra - deu provas de caprichosa e tenaz. Contrariou por diversas vezes minhas determinações; alimentou, em lugar de apagar, o incêndio que as minhas pequeninas loucuras acenderam entre nós. Mas depois e uma separação de três anos, depois do que eu e ela temos sofrido, depois de sua resignação e do meu arrependimento, que razão poderá justificar a sua tenacidade em permanecer fora da única companhia digna da mulher casada - a do seu marido?

— Quem é que pode assegurar que a antiga desarmonia não se renove?

— Estou pobre, e já passei da metade da vida. Sinto em mim moderadas, senão extintas, todas as paixões que me exaltavam a imaginação, e me incitavam outro do que fui. Demais, tenho uma filha moça, e o dever de tratar do seu futuro.

A vida, que passara nos últimos tempos, cheia de peripécias, variada em episódios, atravessada de dificuldades, curtida de desgostos, desenvolvera em Bezerra o espírito, apurara as suas faculdades, e do que era uma habilidade comum fizera quase um talento.

Bezerra não se apartou mais da conferência. Aduziu várias e abundantes considerações para provar a alta conveniência que o termo do escândalo devia trazer. Falou com tanta fecúndia que chegou a comover Eugênia, e a abalar a opinião que tinha dele Martins. Foi fatal aquela tarde para Maurícia. No mesmo dia recebeu ela esta carta que Martins ditara e Eugênia escrevera.

Minha irmã do coração

Acaba de sair daqui teu marido, que jantou conosco.

Depois do jantar, sentou-se com Martins junto do salgueiro, e começou a contar a sua história.

Quanto tem sofrido aquele pobre homem! Não o avalias.

Não nos ocultou a menor circunstância da sua vida... As faltas, os erros, as culpas tudo nos referiu, pedindo perdões. Coitado! É digno de compaixão.

Eu, que estava muito prevenida contra ele, e que entrei na conversação, sem que ele o esperasse, inteiramente resolvida a combater tudo o que ele dissesse, não pude deixar de mudar de opinião quando lhe ouvi a relação dos seus infortúnios.

Não te agastes comigo, minha querida irmã, pelo que vou dizer.

A minha opinião é que teu marido tem padecido muito mais que tu, Tem padecido doenças, desamparos, desprezos, e até prisões; e, pelo que diz, está inteiramente arrependido dos males que te deu a sofrer, e deliberado a não ter dora em diante senão extremos de amor para ti e tua filha.

Não sou suspeita neste assunto. Bem sabes quanto eu detestava o homem que foi a causa dos maiores desgostos que temos curtido na família, depois da morte de nossos pais.

Mas ele mostrou-se tão contrito, que só merece que o acolhas de novo ao teu coração.

Por que não hás de viver com o teu marido, quando é ele que te procura?

Eu sei que tu estás muito bem aí; que na casa onde estás todos te estimam; mas lá diz o ditado - Casa alheia, brasa no seio.

Tem paciência, Maurícia. Sou mais velha do que tu, posso aconselhar-te.

Torna de novo a ter casa.

Não irás para longe; por isso há de ter-nos sempre a teu lado para velarmos pela tua segurança e pelo teu sossego.

Se não me sentisse um pouco adoentada desde a noite dos meus anos, metia-me num carro e ia abraçar-te.

Adeus. Até breve.

Recebe afagos e saudades de

Tua irmã e amiga

Eugênia

Ainda bem Maurícia não tinha concluído a leitura destas linhas, quando um moleque lhe anunciava, por parte de Albuquerque a visita de Bezerra.

Maurícia levantou-se quase louca.

— Dize-lhe que não lhe falo, que não lhe quero falar - disse pálida, trêmula, sentindo-se próxima do desespero.

E trancando-se por dentro, recomeçou a leitura mal concluída da carta que lhe dava tanto que sofrer.

Depois de algum tempo, um pensamento sinistro atravessou-lhe o espírito, já combatido por tantos sopros da tormenta que se desencadeara sobre a sua cabeça.

E Virgínia?! - exclamou sobressaltada, ligando este nome querido à ordem de idéias que lhe tumultuavam em confusão e tropel no entendimento. Se ele lembrar de roubar-me Virgínia, o que será de mim? Nem quero pensar nisso.

Incontinente correu à porta, abriu-a violentamente, e atirou-se à escada, que ia ter na sala de jantar. Ainda não tinha descido os primeiros degraus, quando ouviu soluçar uma pessoa que subia. Era Virgínia.

— Mamãe! Mamãe! - dizia por entre lágrimas a menina.

Diante deste inopinado espetáculo, aflição íntima da desventurada mãe teve tréguas. Maurícia esqueceu tudo o que se referia especialmente a si, para só inquirir a causa ainda ignorada do pranto da filha.

— Que te aconteceu, Virgínia, que te aconteceu? - repetiu uma, duas e mais vezes, como em delírio.

— Está tudo acabado, mamãe! Meu Deus, meu Deus, como poderei viver sem Paulo?

— Sem Paulo? perguntou Maurícia cada vez mais dolorosamente surpreendida. Mas o que foi? Aconteceu-lhe algum desastre? Morreu? Casaram-no com outra?

— Querem privar-me de Paulo?

— Quem? Quem? Oh, meu Deus, se alguém se atrevesse a tentar contra a tua felicidade, eu teria para quem o tentasse, fosse homem ou mulher, todas as armas que o meu esforço e condição podem forjar. Como foi isso, Virgínia! Conta-me tudo.

— Mamãe! Mamãe! Oh, como me custa dizer o que ouvi.

— E que foi que ouviste? Quero saber o que foi. Não sei o que se passou, mas quase adivinho. Não esteve aí um homem, que diz ser teu pai? Foi ele que te ameaçou com a desgraça, não é verdade? Cedo começa o monstro.

A menina soluçava e as lágrimas teimosas e abundantes embargavam-lhe a voz.

Todavia, pode, dominando a sua impressão, referir o que se passara na sala de visitas.

— Meu pai abraçou-me, e deu-me um beijo na face. Então, o Sr. Albuquerque lhe disse que ele voltasse em outro dia, que havia de ser mais feliz na sua visita. Tanto que meu pai saiu, o Sr. Albuquerque dirigiu-me estas palavras: "Virgínia, se sua mãe não voltar para a companhia de sua pai, Paulo não casará com você. Eu não tenho meu filho para a filha de uma mulher que teima em viver separada do marido e lhe dá as costas quando ele a procura. Suba, e diga à sua mãe que a sua felicidade, Virgínia, está dependendo dela. Sem o preenchimento desta condição - a de restabelecer a união conjugal, poderá ser ainda por algum tempo a mestra de minha filha, mas nunca há de ser a sogra do meu filho." Ele entrou no gabinete, e eu subi, mamãe, para lhe pedir, pela alma dos meus avós, que não seja a causadora da minha desgraça.

Maurícia esteve um instante sem dizer palavra. Era cruel a colisão que se apresentava ao seu espírito - ou a felicidade de sua filha ou a sua felicidade.

— Não tenho ninguém por mim, disse com amargura. Todos conspiram contra o meu sossego. Meu cunhado, meu protetor, minha própria irmã, minha própria filha, parecem dizer-me nas palavras que me dirigem: "exigimos o teu sacrifício!" Oh, como são cruéis os grilhões que impõem o casamento! Fatal sociedade, em que um há de ser inevitavelmente a vítima do outro!

Ouvindo estas acerbas palavras , que Maurícia proferia entre lágrimas, Virgínia, abraçando-se com ela, disse-lhe ternamente:

— Perdoe-me mamãe. Não chore por meu respeito.

Maurícia soluçava com o rosto entre as mãos.