O Seminarista/XXIV

No dia seguinte, que era um domingo, o padre Eugênio tinha de dizer a sua primeira missa na vila de Tamanduá.

O pai fazia uma grande festa, a que havia convidado a melhor gente do lugar. Era um dia de regozijo e prazer para a família, e de grande expectação para os demais habitantes. Depois da missa um lauto jantar esperava os convidados.

Muitos parentes e amigos da família de Antunes, que tinham batizados e casamentos a fazer, estavam esperando pela vinda do padre Eugênio, querendo ter o gosto de ver esses sacramentos ministrados por suas mãos.

Portanto o padre teve de apresentar-se na igreja muito antes da hora da missa, a fim de ter tempo de celebrar esses batizados e casamentos.

Quando o sacrílego padre entrou no templo, dizem que os sinos, sem que ninguém os tocasse, deram badaladas fúnebres, e que um tufão escancarando a porta interior do frontispício entrara pela nave e apagara a lâmpada do santuário.

O padre estava de palidez cadavérica, e seus olhos desvairados despediam de quando em quando lampejos torvos e sombrios.

Sinistros pensamentos lhe ondeavam desencontrados pela mente agitada, como nuvens que se despedaçam por um céu tempestuoso ao sopro rijo das refegas.

Precipitado do alto do seu puro e austero ascetismo no abismo da fraqueza, o espírito do padre tombou em outro abismo mais fundo e talvez mais degradante. Atassalhado de remorsos, de vergonha e desesperação, julgando-se perdido sem remédio e para sempre, entregou-se de corpo e alma à torrente da fatalidade que o arrastava.

— Já que assim o quiseram os homens - murmurava consigo -, já que assim o ordena a sanha irresistível do destino, assim seja; serei um padre sacrílego, um padre infame, como tantos outros, que todos os dias profanam com mãos impuras os vasos do altar e a hóstia sacrossanta. Era essa a sina fatal que desde o berço me estava fadada... Margarida não morre... o que a atormenta não é mais do que uma deplorável apreensão... O céu não quis que eu fosse seu esposo, o inferno me fez seu... que horror, meu Deus! que abominável sacrilégio!... mas... já agora que hei de eu fazer... caí até o fundo do abismo, donde nunca mais poderei levantar-me. Ah, celibato!... terrível celibato!... ninguém espere afrontar impunemente as leis da natureza! tarde ou cedo elas têm seu complemento indeclinável, e vingam-se cruelmente dos que pretendem subtrair-se ao seu império fatal!...

Apenas o padre tinha acabado de fazer uma breve oração no altar do consistório, quando a ele se dirigiu uma pobre velha e lhe pediu pelo amor de Deus para fazer a encomendação a um cadáver que ia dar à sepultura, e que se achava no corpo da igreja.

O padre ficou transido de horror. Afeito a esse triste espetáculo, Eugênio não era medroso; mas desta vez sem saber por que, sentia um pavor irresistível. Um suor gelado inundava-lhe a testa, e as artérias lhe titilavam nas fontes com dolorosa vibração; mas não podia deixar de cumprir esse piedoso dever para com um morto. Vestiu a sobrepeliz, tomou o ritual e acompanhado do sacristão, que levava na não o hissope, dirigiu-se para o corpo da igreja.

Num pobre caixão sem tampo, pobremente amortalhado, inteiriçava-se um corpo de mulher. Dois tocheiros ardiam de um lado e outro da cabeceira do caixão. Um lenço branco cobria o rosto da finada, e sobre o seu peito via-se uma capela de alvas flores, símbolo da virgindade.

O templo estava quase deserto; apenas aqui e ali algumas velhas ajoelhadas murmuravam em voz baixa suas orações.

O sacristão para se dar começo à encomendação, tirou o lenço ao rosto da finada; o padre soltou um grito rouco e sufocado, cambaleou, e teria baqueado em terra, se não deparasse o braço que o sacristão lhe apresentava para escorar-se. A finada era Margarida!

— Que tem, senhor padre? está incomodado? perguntou-lhe o sacristão.

— Não há de ser nada... passei mal a noite, e... não estou ainda acostumado a estas coisas... ia tendo uma vertigem.

O padre limpou o suor gelado, que lhe inundava a fronte, e desempenhou atabalhoadamente, sem saber o que fazia, a sua cruel e fúnebre tarefa.

Chegando ao consistório, depois de ter dito ao sacristão, que os batizados e casamentos se faziam depois da missa, debruçou-se sobre a credência e escondendo o rosto entre as mãos ali ficou imóvel por largo tempo orando, chorando, delirando.

A turba das pessoas, que em companhia de seu pai com o rosto prazenteiro e conversando alegremente iam invadindo a sacristia, o despertou daquele angustioso letargo. A fim de evitar conversas e olhares curiosos tratou imediatamente de revestir-se. Todavia um amigo que estando ao pé dele havia notado sua extrema palidez e o transtorno das feições:

— O senhor padre - disse-lhe - parece estar incomodado; se sofre alguma coisa melhor será não dizer missa hoje...

O padre olhou para ele espantado e sem dizer palavra continuou a paramentar-se.

A missa do padre novo, que gozava de uma grande nomeada de sabedoria e santidade, tinha atraído à igreja um numeroso e brilhante concurso. O pai e a mãe de Eugênio estavam no auge do contentamento.

Chegando à escada que sobe para o altar-mor o padre parou, e quando já todos de joelhos esperavam que rezasse o "intróito", viram-no com assombro arrancar do corpo um por um todos os paramentos sacerdotais, arrojá-los com fúria aos pés do altar, e com os olhos desvairados, os cabelos hirtos, os passos cambaleantes, atravessar a multidão pasmada, e sair correndo pela porta principal.

Estava louco... louco furioso.