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O canto da serrana
por Francisco Leite de Bittencourt Sampaio
Poema agrupado posteriormente e publicado em Parnaso Sergipano


Pomba do valle, que azinha
Vais tão distante á voar !
Si lá n’outras terras
Vagando por serras,
Tu vires o esposo,
Saudoso
A chorar…

Oh ! dize, avezinha,
Que triste e mesquinha
Falleço de dor !
Que n’este retiro
Saudosa deliro
De amor !

Pobre amor ! triste serrana
Traz dorido o coração !
Crueis agonias
Affeião-lhe os dias,
Chorando sem termo
No êrmo
Ao sertão !

Que sorte tyranna !
Na pobre cabana
Sosinha à gemer…
Que angustia ! que dores !
Podesse eu de amores
Viver !



Vivera vida de enleio
N’este deserto á sonhar,
Em vêz d’agro pranto,
Se ouvira o meu canto
Na brisa macia,
Que ancia
No ar !

Do esposo no seio,
Então sem receio
Podera eu dormir ;
E ao fresco do vento,
Da lua ao relento
Sorrir.



Vem ! terà, meu sertanejo,
Os favos de jatahy :
E’ tão saboroso,

Tão puro e cheiroso
O mel delicado,
Guardado
P’ra ti…

Ai ! vida ! n’um beijo
Bem fundo desejo
Se mata co’ardor
Do goso nos lumes
Sorvendo os perfumes
De amor.



Os meus compridos cabellos
Com baunilha os perfumei.
No leito macio
Te aguardo do frio
Com flores do monte
Que a fronte
Adornei.

Não queres mais vel-os ?
Meu Deus ! que de zelos
Eu vivo a sentir !
Nem um só momento
Me é dado ao tormento
Fugir !…



Escuta ! são teus filhinhos
Que choram por ti tambem !
Cruenta saudade
Era mesta soidade
Recresce na vida,
Ferida
Que têm !

Tres mezes sósinhos
Aqui, coitadinhos !
Sem verem seu pai !
Ai delles ! em pranto
Traduzem seu canto
N'um ai !



Volta, volta, meu tropeiro
Que è deserto o teu casal.
Da pobre morena
Adoça-lhe a pena,
Subindo p'ra serra
Da terra
Natal.

Cruel forasteiro !
Procura o carreiro
Do gamo veloz ;
Nos braços d'amante
Ai ! pousa um instante
A' sós !…