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O carreiro
por Luís Delfino
Publicada em Rosas Negras.


Desde a alva anda o carreiro a trabalhar cantando,
Chapéu de palha à orelha, alta a aguilhada, e ao lado,
Roupa branca da terra, um cinturão floreado,
Ao mugir de dois bois, que vão a passo brando:
 
O braço livre à canga, ele os conduz: o arado
Corta a leiva, abre o sulco, avança, freme, ondeando,
Tece o ninho ao trigal; envolve-o aéreo bando,
E ouve um flavo rumor de luz batendo o prado.
 
Pensa. — As bocas, que rasga, um fogo intenso engolem,
Fogo que coalha em vivo, em palpitante pólen!...
Chia-lhe o ouvido. — Pára; e, as mãos pondo às ilhargas,
 
Sorri-se ao imaginar que cai tanto pó de oiro
Da transparência azul das asas de um besoiro,
Largas, como a campina... e inda talvez mais largas!...