O clube de engenharia

O clube de engenharia
por Lima Barreto
Crônica publicada em Vida Urbana


Quem passa na Avenida, à tarde, ali, no canto dela com a Rua Sete de Setembro, encontra um portão largo, que, em arquitetura, tem um nome especial e duro, cheio de velhos gamenhos, derretidos em sorrisos para as mulheres que passam. Esses velhos aos quais se juntam alguns moços, ainda mais gamenhos, são engenheiros ou coisa parecida, e o lugar, a casa, o portão - tudo isso é o Clube de Engenharia.

É uma instituição ainda pior do que a Associação Comercial. E nela que se fazem, se ultimam, se homologam as maiores vergonhas administrativas do Brasil.

Não há judeu, cavador internacional que não lhe receba o patrocínio.

Têm eles sempre a seu dispor o prestígio do clube para dizer que a concessão que pedem, é maravilhosa, para o progresso do Brasil; que o nosso país vai ganhar muito com isto e que nós devemos fomentar a indústria particular. Mas, os favores que recebem, os privilégios, as apólices de juro-ouro, tudo o que pode onerar à totalidade da nação, não diz o clube. Precisamos recompensar o capital do... proteger os judeus.

O Teixeira Soares fala; o elegante Carlos Sampaio, que, de professor de Perspectiva e Sombras, passou a ser sabido no Renleaux da Mecánica Aplicada,deita um discurso com ares literários; o Galvão, um soneto bem idiota e o hebreu re­cebe a concessão e eles... nada.

Conheço bem esse pessoal de engenheiros. Eles são completamente indignos de semelhante titulo. São puros niveladores e levantadores de plantas - agrimensores.

O primeiro cuidado que têm os hábeis, é se fazerem antes da Escola Politécnica, disto ou daquilo. Há lá lugares para todos os gostos e a questão é escolher. Depois de len­tes, com o prestígio que lhes dá a posição oficial, se mancomunam com a judiaria internacional e ei-los cheios de brilho, de dinheiro e de valor.

Um professor de Química Industrial, é logo feito diretor de banco e erra bravamente na comparação e frações ordinárias, quando se trata de saber se o cambio deve ficar mais baixo ou mais alto. Posso citar o nome...

Um outro de Zootecnia é feito presidente da companhia de obras de um porto de Mar de Espanha, e logo que vê um escafandro, assusta-se.

Mas eles todos, graças à Cabala crematística do clube, vão adquirindo fortuna, posições, sem que entendam nada daquilo que dirigem ou fingem presidir.

O clube, como todos os clubes, foi feito para isto; e não há idiota que se forme em engenharia e disponha de algum dinheiro que não entre para ele imediatamente.

A nossa época não é das grandes e fortes iniciativas indi­viduais; a nossa época é das associações, dos clubes, dos tí­tulos, das subscrições entre medíocres para se valorizarem.

Ninguém quer se fazer por si, ninguém quer se bater em pessoa; todos querem um ... Clube de Engenharia.

Se pudessem saber o mal que semelhante associação tem feito ao Brasil; se soubessem de quantos crimes de lesa-comunhão ela é responsável, todos iriam à porta daquele casarão e correriam aqueles velhos gamenhos à batata. Basta dizer que foi ela quem aconselhou o Governo a encampar a antiga "Melhoramentos", hoje "Auxiliar", por não sei quantos mil contos, sob o pretexto de que ia fazer concorrência à Central.

Há anos que ela é a Central; e, apesar de estarem sob a mesma direção, uma não auxilia em nada à outra. Não podia, portanto, fazer concorrência...

A "Central" continua a ser a Central; e a antiga "Melhoramentos", uma estradinha muito vagabunda. Era-o mais quando o governo a encampou e há a esse respeito uma reportagem excelente, no Jornal do Comércio,que o senhor Frontin foi obrigado a contestar. Tenho as duas coisas.

Possuo no Clube de Engenharia, amigos; mas, sempre hei de protestar contra essa mania de clubes, de academias e associações, de inteligência. As opiniões sobre toda a matéria intelectual, não podem ser coletivas. A opinião é individual. É por isso que escrevo isto. E quando aqueles velhos ga­menhos da porta do Clube de Engenharia, dessa engenharia de que eles fazem parte e com a qual conseguiram fazer desabar-lhes o edifício duas ou mais vezes, lerem isto e ri­rem-se, eu lhes direi que: Rira mieux qui rira le dernier.

N.B. - O autor atende todas as respostas.

Brás Cubas, Rio, 11-7-1918.