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O destino do vate
por Bernardo Guimarães
Poema publicado em Cantos da Solidão.


À memória de F'. Dutra e Meio


           Entretanto não me alveja a fronte, nem minha cabeça pende
           ainda para a terra, e contudo sinto que hei pouco de vida.
         (Dutra e Melo)

Em manso adejo o cisne peregrino
Passou roçando as asas pela terra,
E sonorosos quebros gorjeando
Despareceu nas nuvens.
Não quis mesclar do mundo aos vãos rumores
A celeste harmonia de seus carmes;
Passou - foi demandar em outros climas
Pra suas asas mais tranqüilo pouso,
Ares mais puros, onde espalhe o canto;
Onde foi ele - em meio assim deixando
Quebrado o acento da canção sublime,
Que apenas encetara?
Onde foi ele? em que felizes margens
Desprende agora a voz harmoniosa?
Estranho ao mundo, nele definhava
Qual flor, qu'entre fraguedos
Em solo ingrato langue esmorecida:
Uma nuvem perene de tristeza
O rosto lhe ensombrava - parecia
Serafim exilado sobre a terra,
Da harpa divina tenteando as cordas
Pra mitigar do exílio os dissabores.

Triste poeta, que sinistra idéia
Pende-te assim a fronte empalecida?
Que dor fatal ao túmulo te arrasta
Inda no viço de teus belos anos?
Que acento tão magoado,
Que lacera, que dói no seio d'alma,
Exala a tua lira,
Funéreo como um eco dos sepulcros?
Tua viagem começaste apenas,
E eis que já de fadiga extenuado
Co desânimo n'alma te reclinas
À margem do caminho?!

Olha, ó poeta, como a natureza
Em torno te desdobra
Sorrindo o seu painel cheio de encantos:
Eis um vasto horizonte, um céu sereno,
Serras, cascatas, ondeantes selvas,
Rios, colinas, campos de esmeralda,
Aqui vales de amor, vergéis floridos,
De frescas sombras perfumado asilo,
Além erguendo a voz ameaçadora
O mar, como um leão rugindo ao longe,
Ali dos montes as gigantes formas
Com as nuvens do céu a confundir-se,
Desenhando-se em longes vaporosos.
Donoso quadro, que me arrouba os olhos,
N'alma acordando inspirações saudosas!
Tudo é beleza, amor, tudo harmonia,
Tudo a viver convida,
Vive, ó poeta, e canta a natureza.

Nas sendas da existência
As flores do prazer ledas vicejam;
À mesa do festim vem pois sentar-te,
Sob uma coroa de virentes rosas
Vem esconder os prematuros sulcos,
Vestígios tristes de vigílias longas,
De austero meditar, que te ficaram
Na larga fronte impressos.
Dissipe-se aos sorrisos da beleza
Essa tristeza, que te abafa a mente.
Ama, ó poeta, e o mundo que a teus olhos
Um deserto parece árido e feio,
Sorrir-se-á, qual horto de delícias:
Vive e canta os amores.

Mas se a dor é partilha de tua alma,
Se concebeste tédio de teus dias
Volvidos no infortúnio:
Que importa, ó vate; vê pura e donosa
Sorrir-se a tua estrela
No encantado horizonte do futuro.
Vive e sofre, que a dor co'a vida passa,
Enquanto a glória em seu fulgor perene
No limiar do porvir teu nome aguarda
Para enviá-lo às gerações vindouras.
E então mais belos brilharão teus louros
Entrançados co'a palma do martírio;
Vive, ó poeta, e canta para a glória.

Porém - respeito a essa dor sublime -
Selo gravado pela mão divina
Sobre a fronte do gênio,
Não foram para os risos destinados
Esses lábios severos, donde emana
A linguagem dos céus em igneos versos;
Longe dele a vá turba dos prazeres,
Longe os do mundo passageiros gozos,
Breves flores de um dia, que fenecem
Da sorte ao menor sopro.
Não, - não foi das paixões o bafo ardente
Que os ledos risos lhe crestou nos lábio;
A tormenta da vida ao longe passa,
E não ousa turbar com seus rugidos
A paz dessa alma angélica e serena,
Cujos tão castos ideais afetos
Só pelos céus adejam.
Alentado somente da esperança
Contempla resignado
As sombras melancólicas, qu'enlutam
O horizonte da vida; - mas vê nelas
Um crepúsculo breve, que antecede
O formoso clarão da aurora eterna.
Quando vem pois sua hora derradeira,
Saúda sem pavor a muda campa,
E sobre o leito do eternal repouso
Tranqüilo se reclina.
Oh! não turbeis os seus celestes sonhos;
Deixai correr nas sombras do mistério
Seus tristes dias: - triste é seu destino,
Como o luzir de mombunda estrela
Em céu caliginoso.
Tal é seu fado; - o anjo d'harmonia
C'uma das mãos lhe entrega a lira d'ouro,
Noutra lhe estende o cálix da amargura.

Bem como o incenso, que só verte aromas
Quando se queima, e ardendo se evapora,
Assim do vate a mente
Aquecida nas fráguas do infoitúnio,
Na dor bebendo audácia e força nova
Mais pura ao céu se arrouba, e acentos vibra
De insólita harmonia.
Sim - não turbeis os seus celestes sonhos,
Deixai, deixai sua alma isenta alar-se
Sobre as asas do êxtase divino,
Deixai-a, que adejando pelo empíreo
Vá aquecer-se ao seio do infinito,
E ao céu roubar segredos de harmonia,
Que sonorosos troem
D'harpa sublime nas melífluas cordas.

Mas ei-la já quebrada, -
Ei-la sem voz suspensa sobre um túmulo,
Essa harpa misteriosa, qu'inda há pouco
Nos embalava ao som de endeixas tristes
Repassadas de amor e de saudade.
Ninguém lhe ouvirá mais um só arpejo,
Que a férrea mão da morte
Pousou sobre ela, e lhe abafou pra sempre
A voz das áureas cordas.
Porém, ó Dutra, enquanto lá no elísio
Saciando tua alma nas enchentes
Do amor e da beleza, entre os eflúvios
De perenais delícias,
E unido ao coro dos celestes bardos,
O fogo teu derramas
Aos pés de Jeová em gratos hinos,
A glória tua, teus eternos cantos,
Quebrando a mudez fúnebre das campas
E as leis do frio olvido, com teu nome
Através do porvir irão traçando
Um sulco luminoso.