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O missionário por Inglês de Sousa
Capítulo 5


Aquele padre triste tinha mistérios no gesto e uma agressão no olhar - pensava Francisco Fidêncio Nunes, voltando para casa, sozinho, muito preocupado.

Fidêncio fora, essa tarde - uma tarde de junho - sentar-se junto ao balcão do Costa e Silva, à Rua do Porto, onde se reunia de ordinário o grupo anticlerical que o tinha por chefe.

O sol, procurando esconder-se por trás da cordinheira, esbraseava as vidraças miúdas das casas voltadas para o ocidente, e uma grande sombra cobria a beira da praia e a parte adjacente do lago, que as águas dos rios e dos montes enchiam. O porto, a vila e o lago achavam-se quase desertos àquela hora. Silves cedia à melancolia profunda das povoações sertanejas, agravada agora pela ausência de muitos habitantes. Uma brisa forte, vinda de sudoeste, agitava as raras folhas das amendoeiras do porto e refrescava o ar. O céu, em todo o quadrante do sul, cobria-se de nimbos pardos que seguiam lentamente em grupo cerrado, obedecendo ao mesmo impulso. Nas alturas, os urubus, parecendo pontos negros, vagavam, descrevendo círculos, vinham descendo e depois subiam até se perderem de vista nos páramos azuis, para reaparecerem a trechos e deixarem-se levar ao sabor do vento, como folhas arrancadas a uma árvore desconhecida. Curumins semi-nus, espojando-se na areia da praia entre gritos e risadas, rolavam até à beira da água, metiam-se pelo lago dentro, mergulhavam, nadavam, fazendo apostas, e logo voltavam à terra, a brincar em pêlo o esconde-esconde, dando uma nota alegre, que aumentava a tristeza do quadro da vila, a meio abandonada.

Francisco Fidêncio estivera mal disposto de espírito e de corpo. Incomodava-o aquele barulho de crianças. Levantara-se muitas vezes para as ir ver, pensando encontrar entre aqueles endiabrados algum discípulo, para o responsabilizar pelo excesso, e para o incumbir dum mandado.

Desde a noite do baile do Bernardino Santana, Francisco Fidêncio andava preocupado e descontente. O ingurgitamento do fígado agravara-se-lhe com a imprudência de dois copos de cerveja que o Costa e Silva o forçara a beber, rompendo a dieta que se impusera a conselho do Regalado e a rogos da Maria Miquelina. Demais, a roda, a sua boa roda de amigos, diminuíra depois daquela famosa festa. A poderosa atração dos castanhais arrancava todos os dias as ovelhas ao pastor católico e os ouvintes ao propagandista do livre-exame. Receando ficar isolado, sem os companheiros de palestra, o benévolo auditório que o seu prestígio criara para todas as tardes à porta do Costa e Silva, Francisco Fidêncio era obrigado a dissimular o aborrecimento que o fato lhe causava, para não dar o braço a torcer, não cair em contradição consigo mesmo, pois fora do conselho de preferir as festas alegres das praias e dos castanhais, às maçadas que o zelo antiquado do padreco pregava aos pobres moradores de Silves. Para contrariar o vigário e tirar-lhe gente, defendera o partido dos que pretextavam a necessidade de ganhar dinheiro para deixar a vila, e agora era punido com a mesma pena, a deserção chegara aos seus arraiais, o amor das festas rústicas, à sombra dos castanheiros, das pândegas à beira-rio, ganhava os seus mais ferventes adeptos, convictos de que deviam, exagerando o entusiasmo, dar o exemplo do pouco caso em que tinham as prédicas e conselhos do senhor vigário. A vitória fora completa, excedera mesmo a expectativa. Padre Antônio, solitário e abatido, ficava cada vez mais concentrado. O lorpa do sacristão tomara para si o desaforo daquelas maquinações atribuídas a ele, Chico Fidêncio, um ateu desrespeitador da religião. Macário estomagava-se contra todo aquele que falava em sair da vila. No entender daquele idiota, não havia nada melhor do que Silves, depois que morrera padre José e viera padre Antônio de Morais.

O sacristão comia bem, bebia bem, andava bem trajado, gozava de consideração crescente e até já ia a bailes para apanhar indigestões de fatias douradas e de chocolate! Ele dispunha das esmolas, ele dirigia o pequeno serviço do culto, ele vendia os repiques e dobres de sinos conforme lhe aprazia, ele arranjava capa-magna para o batizado dos filhos de seus amigos, ele fazia presentes de cera benta, zelava das opas, distribuía a seu talante as lanternas e as varas do pálio nas procissões solenes ou no simples Nosso-pai, e não maltratava pessoa alguma, não prejudicava a ninguém. Havia em Silves missa todas as manhãs, ladainha todas as noites, um bom sermão de vez em quando, enterros, batizados, casamentos, procissões às vezes, Nosso-pai sempre que era preciso, confissão sempre que pediam, falava-se numa crisma próxima, iam inaugurar-se as missas cantadas para os dias de festa, por um plano que o Macário concebera e que o vigário achara excelente. Que mais faltava, que mais queriam? Como deixar Silves que oferecia todas essas vantagens da civilização, para ir-se meter pelos castanhais dentro, expondo-se a febres, a sezões, a mordeduras de cobras, a ataques de onças? Macário não compreendia um tal procedimento: e queixavam-se do padre José, diziam o diabo do padre José! Mas o que Silves precisava era ter padre José ou padre João da Mata por vigário toda a vida!

O lorpa do sacrista não se continha, chegava a falar alto, censurando a quem quer que fosse, sem rebuço, mas não de frente, valha a verdade, sempre pelas costas. Falava pelas esquinas, à porta das lojas, no açougue e na padaria. Acompanhava os viajantes até o porto, até vê-los embarcados na canoa, e quando a canoa partia, o Macário voltava-se, dizendo em voz alta para os que ficavam:

- Vão, mas é para as profundas!

Pois, apesar disso, Francisco Fidêncio vencera. Aconselhara que preferissem a pândega lucrativa dos castanhais aos sermões de padre Antônio de Morais, e a sua voz, revestida do antigo prestígio, fora geralmente ouvida, e aquela tarde, na loja do Costa e Silva, constatando essa vitória quase completa, a que a partida do coletor viria em breve dar a última demão, Francisco Fidêncio achava que o triunfo fora além do que esperava, e que ferindo em cheio o adversário, não safra ileso do combate.

Bastava relancear os olhos pela sala quase vazia, para convencer-se de que a vitória custava sacrifícios. E, por isso, mais do que pela cerveja do Bernardino Santana, o seu fígado se ingurgitara de novo, reagindo contra as doses homeopáticas do sapientíssimo Regalado...

A loja do Costa e Silva era uma sala de tamanho regular, com três portas para a rua, e uma para o interior da casa. Tinha alta armação envidraçada, dividida em dois raios, um destinado às fazendas e outro aos objetos de armarinho, à sapataria, à louça e às quinquilharias. Logo à entrada da casa ficavam um comprido banco de pau, que o uso polira, e algumas cadeiras de palhinha destinadas aos principais freqüentadores do estabelecimento. O. grande balcão de cedro envernizado ia duma extremidade à outra, separando o vendedor do público, e pondo uma barreira alta entre o acesso livre da sala e a região cobiçada onde os panos americanos e as chitas pirarucus viviam em cordial confusão com as servilhas de marroquim vermelho e as garrafinhas de óleo de rícino, finas e azuis, ostentando, em rótulos dum colorido suave, os bagos de mamona branca sotopostos a um dístico inglês em letras pretas. Sobre o balcão algumas peças de algodão grosseiro, uma caixa com anzóis e um embrulho de cera virgem, a par do côvado, da vara de medir, atestavam a freqüência dos tapuios dos sítios, que a vantagem da proximidade atraía à loja do Costa e Silva. Na sala contígua, devassada pela porta sempre aberta, viam-se os barris de vinho, as caixas de cerveja e as pipas de aguardente, que formavam outro ramo de negócio do dono da casa, mas esse a grosso, para vender a cerveja às caixas, a aguardente e o vinho aos garrafões a gente de certa ordem, não aos tapuios, a menos que não pedissem as quantidades marcadas e pagassem mais do que os brancos. Era um meio que o Costa e Silva, moralizado e crente, inventara para combater a embriaguez do povo. Por trás do balcão, unida a ele, estava a mesa de pinho encerado em que o dono da casa fazia as contas e os trocos, e escrevia a correspondência, enquanto o caixeiro, um portuguesinho rechonchudo e claro, de olhos e cabelos pretos de azeviche, em mangas de camisa, aviava à freguesia, com uns modos calmos e prudentes que desmentia a petulância do olhar de vivo demônio. À guisa de tabuleta, sobre a parede exterior, privada de cal e de óleo, duas figuras, pintadas entre os vãos das portas, ostentavam as pretensões da primeira loja de Silves. Era um homem e uma senhora da altura de um metro, ele de calças justas, cor-de-rosa, terminando em pés enormes, tinha o ar dum peralvilho de aldeia, com grossa bengala na mão; ela trajava vestido vermelho armado sobre crinolina, e com uma sombrinha azul-ferrete abrigava do sol o monstruoso coque do penteado; por cima de ambos, um grande letreiro em tinha preta, já a meio apagado, anunciava - Modas e novidades de Paris, Joaquim da Costa e Silva.

Ordinariamente, ao cair da tarde, reuniam-se ali, em torno do chefe maçônico, o Regalado, o professor Aníbal, o Pedro Guimarães e o Chico Ferreira, o alfaiate, sempre distraído, assoviando por entre os dentes, e batendo a compasso sobre a perna esquerda, com a mão espalmada e mole. Três rapazes novos, o Pedrinho Sousa, o Totônio Bernardino e o Manduquinha Barata, gozando umas férias intermináveis, aplaudiam o Fidêncio por feição, por estímulo de parecerem adiantados e ao mesmo tempo por troça, para debicar os padres e caçoar das beatas de lenço branco. O tenente Valadão, o José Antônio Pereira, o vereador João Carlos, o Neves Barriga e o Dr. Natividade não passavam os batentes da porta do Costa e Silva, por via do ateu, como diziam, mas o capitão Manuel Mendes da Fonseca, a pretexto de comprar alguma coisa que de repente lhe faltara na loja, aparecia às vezes com o seu velho paletó de alpaca, o chapéu boliviano, as calças brancas engomadas, duras e largas como crinolina. E depois de regatear muito ao colega um par de sapatos ou dois metros de canículo de cor, tomava parte na palestra, medindo as frases, escolhendo os termos, refletindo devagar, discutindo gravemente os assuntos que o Fidêncio propunha; sacrificando facilmente a Igreja aos ódios da maçonaria, mas, defendendo a autoridade civil, o presidente da província, o ministério, confessando, entretanto, quando o apertavam muito, que o João Alfredo era um criançola, criatura do Camaragibe, e que não estava na altura da situação. O Paranhos, sim, era um talento. O dono da casa ouvia tudo da sua cadeira junto à mesa de pinho, arriscava algumas observações, mas não gostava das ousadias do Chico Fidêncio, porque se gabava de acreditar em milagres e de ser católico, apostólico, romano. Apesar disso, era um bom amigo o Costa e Silva, e não esquecera nunca as recomendações do Filipe do Ver-o-peso, a favor do professor. Por isso, gozava o Fidêncio de completa liberdade na casa do Costa, onde tinha a sua continha aberta, que passava de mês para mês num crescendo perigoso.

Mas agora o Costa e Silva estava ausente. Havia uma semana que seguira para o Ramos, buscando os castanhais. Levara a família toda, a igarité bem carregada de fazendas, de aguardente, fumo, café, corais, palmas e medidas do pé de Nossa Senhora. Outros muitos se haviam retirado, e, nessa tarde, de junho, o auditório do professor se compusera exclusivamente do Pedrinho Sousa e do Manduquinha Barata, porque mesmo o Totônio Bernardino, o mais sério e o mais inteligente dos três, afrontando as iras paternas, partira para o Urubus, doidamente apaixonado pela Milu, a sobrinha do Neves Barriga. Começara aquele namoro, por brincadeira, no baile do casamento do Cazuza, e rapidamente se transformara numa paixão profunda, em que aquelas duas crianças, sem levarem em conta as conveniências de família e a vontade dos pais, arriscavam o futuro, e, em todo o caso, a tranqüilidade do coração. Pobre Totônio! O pai o queria forçar a voltar aos estudos, ambicionando fazê-lo bacharel ou padre, para glória da família, cujas posses admitiam esse luxo; e ele, vadio e namorado, preferia ficar no Amazonas, vagabundeando pelas ruas de Silves, ou descansando à sombra das árvores frondosas do sítio do Urubus, ao lado de sua adorada Emília, num idílio perpétuo. Quem venceria nessa luta de vontades entre pai e filho? O Bernardino Santana era teimoso e rude, estava acostumado a lidar com escravos, mas o Totônio era moço, livre e apaixonado. Quem venceria?

Fazia-lhe falta o Totônio Bernardino. Se ele ao menos estivesse ali! Fidêncio não gostava de falar para tão pouca gente, principalmente não tendo à sua disposição senão os ouvidos do Pedrinho e do Manduquinha, que eram mais sócios e auxiliares do que público. Muito aborrecido, Fidêncio estava com vontade de mandar chamar o Regalado para lhe comunicar uma nova importante, a fim de que a espalhasse pela vila, mas não havia ali quem o fosse procurar.

Felizmente, um homem aproximara-se a passo vagaroso e grave. Era o coletor.

Enfim! Francisco Fidêncio podia desembuchar, podia falar, podia contar o que sabia de novo, apimentando-o com os comentários do costume!

O coletor tocara no boliviano, com muita cortesia.

- Boa-tarde, meus senhores.

- Boa-tarde.

Vinha pedir que lhe cedessem alguns anzóis para pirarucu. Faltavam-lhe no sortimento, fora um diabo de esquecimento do seu correspondente, porque no pedido estava bem explicado - anzóis para pirarucu. Mas o Elias tinha tanto em que pensar, andava sempre tão atarefado! E como queria partir o mais depressa possível para os castanhais, a fim de aproveitar a licença que lhe viera de Manaus, não tinha tempo de mandar buscar os anzóis ao Pará, e vinha pedir ao colega que lhe cedesse alguns.

- Sempre vai aos castanhais, senhor capitão?

- Vou, senhor professor. Há muito tempo que não deixo o emprego, estou aborrecido e cansado, e a D. Cirila, coitada! quer passar o S. João nas praias. Mas a coletoria nada perde. Fica aí o José Antônio Pereira.

E acrescentara, sentando-se numa cadeira, enquanto o Manuel ia escolher os anzóis na caixa:

- Aquilo é uma pérola.

- Não digo que não, disse o Fidêncio, sorrindo, mas...

O coletor atalhara, convencido:

- Homem de toda a probidade. Conheço-o.

Fidêncio não estivera de maré para discutir a pessoa do Pereira, o que ele queria era dar a última novidade.

- Já leu o Baixo Amazonas, senhor capitão?

O coletor não tinha lido; nunca lia aquela folha, porque só assinava o Diário do Grão-Pará, que o Elias lhe mandava por causa das cotações do cacau e da borracha. Demais, que lhe importavam os negócios de Santarém? Era duma província estranha, nada tinha com as brigas do barão com o Dr. Sousa.

Fidêncio contara então. Recebera aquele jornal, na véspera, por um regatão, e lera a notícia dum ataque de índios na Mundurucânia. Segundo o Baixo Amazonas, um bando de mundurucus ferozes atacara a pequena povoação de S. Tomé, incendiando as casas, e matara muitos moradores. Isto em pleno século dezenove, exclamara por sua conta, e sob o governo do José Maria da Silva Paranhos! O povo pagava impostos ao Estado para ter a sua vida garantida e a sua propriedade segura! A isto estava reduzido o Amazonas, graças à inércia do presidente da província, a uma floresta virgem, onde os habitantes a todo momento eram trucidados pelos silvícolas! Fidêncio ia escrever uma carta forte ao Democrata, verberando o ministério. Oh! havia de ser uma das suas mais apimentadas correspondências, mostraria o que era esse governo de fracalhões, de covardes, de malandros, que deixava que os roupetas de Lojola se assenhoreassem do povo, e não tratava de o defender contra os incolas da floresta, porque só cuidava de encher a pança ao Mauá e mais meninos bonitos.

- Hei de mostrar-lhes! terminara acendendo o cigarro e indo sentar-se no banco de pau, para limpar as unhas com um palito.

O coletor tomara a defesa do governo contra as injustiças de Fidêncio. O ministério não tinha culpa! O presidente era um excelente homem, um cavalheiro amável e não podia prever. O que provava contra o governo do país aquele lamentável fato da Mundurucânia? Que não temos braços.

- Varro, bradara o Pedrinho Sousa, por troça, varro, seu capitão. Braços tenho eu e mais V. S.a, o Chico e o Barata.

O capitão explicara complacentemente. Queria dizer que se a população aumentasse, os sertões se povoariam e o gentio fugiria para longe, para muito longe, lá para Mato Grosso. E porque não aumentava a população, coisa que já de si bastava para responder às censuras, à primeira vista justas, do Sr. Fidêncio? Evidentemente, por falta de braços...

- Talvez por falta de cabeças... acudira o professor, grifando a frase para o meter à bulha.

Os rapazes deram uma risada, dizendo: essa é que é a verdade!

O coletor sorria, assoara-se e continuara, fingindo não entender a pilhéria:

- Por falta de cabeça, diz V. S.a; e talvez tenha razão até certo ponto, porque sem cabeça não há homem e sem homem não há braços, sem braços não há população, nem lavoura, nem civilização, nem nada. Entretanto, o governo tem cuidado seriamente da catequese, que seria outro meio de acabar com os selvagens, convidando-os pela brandura e pelas boas maneiras a virem tomar parte no banquete do cristianismo. O diabo é que não se pode fazer catequese sem padres, e os padres...

- Disso não cuidam eles, interrompera Fidêncio aproveitando o ensejo. Catequese! Está fresco! Do que eles cuidam é de assegurar o seu predomínio sobre as famílias católicas pela confissão, pelas rezas, pelos bentinhos, a fim de conseguirem os seus fins tenebrosos, como dizia Voltaire. Eu não creio na catequese pelos padres, porque o índio não é civilizável, mas, enfim, antigamente os padres dedicavam-se à conversão do gentio, como, por exemplo, S. Paulo que foi chamado o Apóstolo dos Gentios. Mas, hoje, do que eles tratam é de namorar as mulatas e de encher a pancinha com petisqueiras finas, e aferrolhar o cobre para o que der e vier.

Os rapazes aplaudiam com profundo conhecimento da questão, bebido nas muitas lições anteriores. O capitão Fonseca sacudia a cabeça, como tendo muita coisa a opor. O portuguesinho do balcão, o Manuel da Costa e Silva, como o chamavam, encostado à mesa de pinho do patrão, de braços cruzados, silencioso, parecia não ouvir o que se dizia; enfiava o olhar negro e vivo pela porta que lhe ficava em frente, embebendo-o nas nuvens que sombreavam o lago, restringindo o horizonte, e que talvez lhe estivessem recordando o céu da sua querida aldeia minhota. Quando Fidêncio fazia uma pausa, um besouro verde-negro zumbia sonoramente, batendo-se pelas paredes. A vozeria das crianças diminuíra, ouviam-se as mães que as chamavam para a casa, ameaçando-as, de cipó em punho. De vez em quando um tapuio, retardado pelo porre da última hora, passava pelas portas, pisando forte, admirando com os olhos vermelhos as figuras pintadas nos vãos da fachada. A noite vinha vindo do fundo do Saracá.

Fidêncio desforrara-se então da privação de dias, repisando as declarações contra os padres. Todas as acusações formuladas pela imprensa livre-pensadora, pelos panfletos baratos, todas as banalidades cediças reeditadas de fresco pelos inimigos do clericalismo na luta travada a propósito do interdito das irmandades, tomaram na boca do professor - tinha presunção disso - a forma original dos seus calem-burgos brejeiros e das suas pilhérias desaforadas. O Pedrinho Sousa e o Manduquinha ajudavam-no, esclarecendo com o comentário das gargalhadas o sentido equívoco das expressões, revestidas de um respeito afetado pela pessoa do capitão Fonseca. O coletor já começava a ceder, meio vencido, mas entrincheirando-se na Divindade de Cristo e na Virgindade de Maria Santíssima. Desses dois dogmas é que não admitia que se duvidasse. O jornalista desfiara um longo rosário de anedotas picantes, reminiscências da Central, para provar que os padres eram os verdadeiros inimigos da religião católica e da moral pública. E, despertando-lhe aquelas reminiscências a indignação adormecida, bradara, batendo uma punhada sobre o balcão:

- Corja de jesuítas! Do que precisam é dum marquês de Pombal!

Nessa ocasião o vulto de padre Antônio de Morais, esbatido pela dúbia claridade do último crepúsculo da tarde, desenhouse no trecho de rua devassado pelas portas da loja, passando vagarosamente, sereno e triste, na batina negra.

Houve um momento de curiosidade. O Manuelzinho sorriu, olhando para o professor.

Fidêncio agarrara a ocasião, pelos cabelos:

- Olhe, olhe, dissera, apontando ao coletor o padre, veja lá se aquele é capaz de deixar a pelintragem, com que pretende enganar a todos, para meter-se no mato a converter tapuios bravos; se é homem para deixar a sua casinha cômoda da Rua da Matriz, o seu vinhito do Porto ao amanhecer, o gordo tambaqui macio, o descanso da vidinha de padre vigário para internar-se pelos sertões em busca de selvagens, arriscando a pele. - Nada, que isto de ser padre é meio de vida e não meio de morte, terminara vindo à porta contemplar o vigário que se demorara a conversar com um homem que encontrara.

- Sim, observou o coletor, bem sei que isto de padres, hoje em dia, é uma carreira, como a de advogado, por exemplo, cada um procura a maior comodidade possível. Não contesto, acentuou olhando para o Pedrinho Sousa que estava a rir; não contesto que a Igreja precise de reformas sérias; entretanto, há padres que não são de todo maus. Padre Antônio não bebe, não joga, não dá escândalos com mulheres, diz a sua missinha todos os dias, prega de vez em quando, é um pouco exigente talvez, pensa que o mundo está para acabar. É ainda muito moço - não digo que se faça de padre italiano para catequizar selvagens - mas pode vir a ser um padre distinto. Quanto a meter-se em catequeses...

- Pois sim, exclamara Fidêncio, subitamente iluminado por uma idéia ousada, olhe, aí o tem, senhor capitão, chame-o e pergunte-lho.

- Chamá-lo não tem propósito, respondeu o coletor.

E, assustado da lembrança, correu os olhos pelos circunstantes, perguntando:

- Que diria ele do meu procedimento irregular?

O Manduquinha Barata e o Pedrinho Sousa apoiaram o pedido do professor. O coletor resistia. Então Fidêncio manejara uma arma hábil:

- Pois o senhor capitão não tem familiaridade com o padre?! o que todos dizem. Ele é obrigado a V. S.a por muitos obséquios,

e não creio que a pessoa de sua consideração ele estranhe procedimento tão simples.

Francisco Fidêncio e os dois rapazes teimaram, provocando a vaidade do capitão Fonseca. Estavam vendo que não era o que se dizia! Ou o capitão era muito acanhado ou o vigário não o tinha em grande consideração. O coletor, para provar a influência de que gozava, não hesitara mais em sacrificar o padre.

Levantou-se, chegou à porta da rua. O vigário estava na ocasião de face para ele. No seu rosto calmo e sereno uma bondade reluzia. Falava afavelmente, em voz baixa, com o homem, um tapuio morador da beira do lago:

- Padre-mestre, faz favor? disse o coletor em voz alta.

- Estava aqui sustentando este senhor, continuou na sua voz autoritária e grave, quando o padre, largando o tapuio, chegou à porta da loja; estava aqui sustentando este senhor que no Brasil não há mais padres que façam catequese de índios, porque na Mundurucânia os gentios queimaram a povoação de S. Tomé e assassinaram os habitantes. Eu, pelo contrário, sustentava que ainda há missionários, posto que isso seja mais próprio de italianos. Que diz V. Rev.ma?

Padre Antônio olhou demoradamente para Fidêncio, para os dois rapazes, para a figura pascácia e grave do capitão Manuel Mendes da Fonseca. No olhar brilhou-lhe um relâmpago, com uma expressão de desafio e luta que Fidêncio estranhou, surpreso. Depois o padre sorrira e dissera:

-Este senhor tem razão; há muitos chamados e poucos escolhidos.

Saudara cortesmente e acrescentara:

- Queiram desculpar, são horas da ladainha.

Francisco Fidêncio Nunes voltara para casa, sozinho, muito pensativo.

Quando padre Antônio de Morais deixou a porta do estabelecimento do Costa e Silva, levava uma irritação surda que a custo contivera na presença do correspondente do Democrata, que nunca vira tão de perto, e cujos pequenos olhos pardos o desafiavam como dois punhais erguidos sobre o seu peito. Vira os dois rapazes maliciosos, sorridentes, preparados para arrebentar de riso com as pilhérias que o professor ia dizer ao padre, vira o capitão Mendes da Fonseca de cabeça inclinada, lenço desdobrado nas mãos espalmadas, pronto a ouvir a resposta e a assoar as ventas, e compreendera a intenção humilhante com que o haviam chamado. Lembrara-se de repente do tempo do Seminário e tivera um ímpeto de entrar na loja, de tornar patente a vacuidade daquela inteligência desregrada, a futilidade daquela erudição de algibeira, a insignificância daquele sujeito que Silves venerava, e cuja camisa amarrotada e suja, de punhos afiapados, cujas mãos suadas de anemia, com dedos culotados pelo abuso do cigarro, davam-lhe uma sensação de repugnância e de hostilidade, que não podia vencer. Compreendera, refletindo, a tolice duma discussão com aquele homem, naquele lugar, que o faria resvalar para o terreno da igualdade com aqueles três vadios insolentes, mas agora, continuando o seu caminho para a igreja, sob os últimos raios do sol já oculto por trás da cordilheira, tinha um vago pesar da vingança insatisfeita.

Chico Fidêncio simbolizava para padre Antônio de Morais todos os desgostos das ilusões perdidas, todo o desencanto da sua generosa tentativa de regeneração de Silves, e o amargor do amor-próprio vivamente ferido pelo insucesso dos seus esforços.

Fora cruel a desilusão causada pelos efeitos negativos do seu último sermão, trabalhado noite e dia com esmero, com carinho, com o entusiasmo da esperança numa vitória que se lhe afigurava garantida. E desde esse dia um aborrecimento mortal lhe viera invadindo a alma, produzindo um grande desânimo. Já se sentia incapaz de prosseguir naquela obra de moralização e doutrinamento para a qual se necessitavam uma paciência heróica e uma abnegação de todos os momentos, que teriam de ficar obscuras, para sempre desconhecidas. Fizera um enorme esforço sobre si mesmo para dedicar-se àquela modesta carreira, abafando os lampejos do gênio irrequieto e ousado, contendo a custo o ímpeto das paixões que lhe tumultuavam no cérebro, mordendo o freio da conveniência e da gravidade, como no caso da provocação do Chico Fidêncio, com a raiva impotente do cavalo que mão valente refreia. Sentia na vaidade picadas lancinantes, cada vez que adivinhava o olhar desconfiado e cáustico do jornalista a perscrutarlhe as intenções, com uma enorme avidez de lhe descobrir as falhas da armadura, para as expor nas colunas do Democrata, com as vítimas habituais da sua ímpia crueldade. E, como agora, cada vez lhe custava mais o dominar-se!

Aquela vida de obscuros e não apreciados sacrifícios, de virtudes negativas que os amigos de Silves resumiam em - não beber, não jogar, não dar escândalos com mulheres - começava a pesar de modo insuportável, e padre Antônio entrevia, cheio de profundo e íntimo desespero, um futuro vulgar de padre bem-comportado, preso à igreja duma vila de interior, numa colocação perpétua, engordando na vadiação estúpida dum paroquiato aldeão, e acabando, esquecido do mundo, numa icterícia negra. Agora estava farto das beatas de lenço branco na cabeça, de andar miúdo e língua viperina; cansado de ensinar o catecismo às crianças; enjoado das ladainhas, puxadas numa voz monótona, à frente de tapuios boçais, à luz mortiça das lâmpadas de azeite de mamona. E caminhava, à boca da noite, seguindo a curvatura graciosa do lago Saracá, soluçante e pardo, para ir rezar uma ladainha!

A obrigação que se impusera de dizer missa todas as manhãs para o povinho ouvir ia ficando uma sujeição incompatível com a dignidade do sacerdócio, uma maçada ativa e passiva, pensava, recordando os dissabores do dia que ia findar na estopante reza da noite. O vinho, o famoso vinhito do Filipe do Ver-o-peso, já lhe não parecia o mesmo. O português o teria deslealmente adulterado com passas e aguardente açucarada? As hóstias sabiam a mofo, apesar de constantemente renovadas. A igreja nua, fria, só era procurada por gente incapaz de perceber uma silaba de latim. Então, à beira do lago deserto, uma indignação o possuiu, achando ridículo o recitar frases latinas e gregas a uma dúzia de negras velhas que, de joelhos, vergadas para trás, com os olhos em alvo e os dentes brancos brilhando na sombra, estropiavam a ladainha na repetição fanhosa e grotesca das invocações da prece.

E cada passo que dava o aproximava da igreja, cada momento que fugia adiantava a hora em que teria de recitar em voz monótona as frases latinas e gregas que as negras não entendiam...

Sentiu um grande desgosto de si mesmo.

Não, não fora para aquele viver suave, unido e despreocupado, como a toalha escura do lago sertanejo, que cursara as aulas do Seminário grande, aprofundando a teologia. Não para ser mestre de curumins nem para corifeu de ladainhas, levara à parede tantas vezes o maior teólogo do Norte do Império, chegando a despertar a atenção do ilustre prelado paraense. Era digno de maiores ambições do que as resumidas no modesto sacerdócio que exercia, estando, como estava - modéstia à parte - convencido que o saber e a inteligência o podiam levar às mais altas posições da igreja. Estava deslocado -homem de gênio obrigado a viver no aperto dum meio estúpido e banal, incapaz de o compreender, indócil à sua ação regeneradora. Eram aqueles o fim e o resultado de tantos estudos e trabalhos?

Caminhava lentamente, preocupado, sentindo no coração uma inquietação vaga. O lago gemia tristemente, monótono e tranqüilo. A rua alargava-se, arenosa, escavada pela ação das chuvas, atravancada de cães vadios, de vacas de leite ruminando na sombra. O casario sumia-se na escuridão crescente, crivado de vez em quando por uma fachada nova e branca, salpicado a trechos de gotas vivas de candeeiros iluminados. No fundo, a massa escura da serra sustentava um céu negro, recamado de estrelas cintilantes. Uma brisa sutil, impregnada do perfume de cedro novo, vinha do fundo do lago, agitando de leve o recorte dos ramos das amendoeiras. Os sinos da Matriz começaram a tocar o sinal da ladainha, cortando de súbito com a voz de bronze bem fundido o silêncio da vila. Padre Antônio adivinhou a figura do Macário sacristão, de pé à porta da igreja, olhando para todos os lados, severo e impaciente, e um terror deteve-lhe de repente os passos vagarosos, pensando no sacrifício que mais uma vez faria e no insucesso das lutas até ali consigo mesmo travadas.

A liberdade de que gozava, as facilidades encontradas naquele meio relaxado e indolente, as provocações da vizinha tão fáceis de contentar no mistério dos quintais contíguos, as investigações dos que zombavam de sua virtude inacreditável, a inocupação do espírito, alheio aos pequenos detalhes do serviço diário, haviam-lhe espicaçado a paixão, dominante no temperamento paterno - a acreditar no que lhe haviam contado o padrinho e o Filipe do Ver-o-peso, excitando-o ao ponto de consumir-se em noites de insônia, todo entregue aos ardores da sensualidade reprimida, como no tempo do Seminário, pelo que lhe renasciam os terrores da condenação eterna, e, nos momentos de desânimo, julgava-se irremediavelmente perdido, vendo-se sem força para resistir por muito tempo às exigências da sua carne de vinte e dois anos.

Os sinos repicavam, numa impaciência alegre. Padre Antônio continuou a caminhar lentamente, pensando que cem vezes estivera a cair, cedendo à fatalidade da herança e à influência do meio que o arrastavam para o pecado. O medo da condenação eterna, espantalho que para sempre aterrara a imaginação supersticiosa do matuto, o desejo de ganhar a vitória, e, por que não o confessaria na solidão da rua adormecida? o olhar suspeitoso e investigador do jornalista liberal haviam-no salvado da queda. Quisera lutar e vencer. Dominara o ímpeto das paixões, na certeza de que vencia também o insolente colaborador do Democrata de Manaus. Mas agora - pela centésima vez o pensava - à sua natureza forte não podia quadrar aquele viver mesquinho que o tanger dos sinos lhe recordava. Forçoso era fugir a todo o custo às tentações da existência desocupada e fácil de pároco sedentário. Voltava novamente a desejar uma vida de tormentos e martírios da carne, sonho que esquecera por algum tempo no entretenimento do culto divino, mas que ultimamente se impusera como solução única do problema do futuro, prometendo sedutoramente na palma do martírio a glorificação desta vida e a segurança da outra.

Havia muitos dias que esta idéia se lhe fixara no cérebro como um prego metido a martelo. Descurara o serviço da igreja, dera sueto aos alunos, fora severo com as beatas e intratável para o sacristão. Andava preocupado e melancólico, sem apetite, passando horas compridas no cemitério, contemplando as campas mesquinhas, ornadas de cruzes toscas de madeira, e pensando na morte, na outra vida, no pouco que pesariam as suas ações na balança do julgamento final, e convencido agora, profundamente convencido que sem boas obras não poderia ir para o céu apesar da sua fé ardente, ao contrário da doutrina que despertara a justa indignação do maior teólogo do bispado, do ilustre padre Azevedo.

À vista das pobres sepulturas invadidas pelo mata-pasto e pelo cordão de S. Francisco, sentia uma tristeza infinita, misturada de raiva, pensando que um dia, como os pacíficos habitantes daquela humilde necrópole, ele, padre Antônio de Morais, dormiria esquecido o sono do aniquilamento, sem deixar de si memória alguma. Sobre o seu túmulo obscuro viriam pastar as cabras dos arredores e os mansos bois de carro, e como não ficava uma lembrança, uma saudade, a única voz que choraria sobre o seu corpo inanimado seria a do murucututu agoureiro, fugindo à luz do dia e ao alegre convívio da passarada na mata para gemer tristemente nas trevas e na solidão do cemitério os seus melancólicos amores.

De que lhe teriam então servido e a que ficariam reduzidas a mocidade, a inteligência, a extrema dedicação pelo próximo de que ele se sentia capaz, se tudo isso acabava numa cova escura e fria que os animais pisavam e os homens olhavam com indiferença? Meditara muito nessas ocasiões de isolamento, sobre a ignorância da hora suprema, sobre a incerteza da vida que, no dizer da Escritura Santa, é uma folha que cai à menor aragem, e pensava que ninguém há que não cuide viver ao menos até o dia seguinte. A morte podia surpreendê-lo dum momento para outro, tornando-o para sempre esquecido dos homens e deslembrado de Deus, a quem servia tibiamente no descanso do paroquiato cômodo de vila sertaneja, dormindo em macia rede de linho noites compridas e tranqüilas sob coberta enxuta, nutrindo o corpo de galinhas gordas e de tambaquis saborosos, acompanhados dum suave vinho verde, espesso e cheiroso. Recordava a sentença do filósofo, a vida é árvore que traz em si a semente da morte e nunca é cedo para cuidar da longa viagem, e estremecia de susto à idéia de que um desses acidentes dos climas tropicais, uma simples perniciosa podia colhê-lo de surpresa, não preparado para a vida eterna, não feito para a vida subjetiva da imortalidade do nome. E à beira daquele lago sertanejo, ao meio da vila deserta, ouvindo o segundo sinal da ladainha, e imaginando o Macário de pé, à porta da igreja, as negras velhas sentadas no ladrilho, à espera dele, numa passividade resignada, viu-se claramente condenado àquele suplício novo e doloroso, inventado pelo poeta para as almas tristes que neste mundo não caíram na infâmia, nem souberam merecer aplausos.

... l'anime triste de coloro

che visser senza infamia e senza lodo.

Não. O cumprimento banal do dever não bastava. Ser um bom padre, não beber, não jogar, nem dar escândalos com mulheres não bastava à ambição de padre Antônio de Morais. Demais o interesse da salvação da alma confundia-se singularmente com a sede de reputação e renome que o devorava. Fosse o modelo dos padres, em Silves, não conseguiria vencer a muralha do indiferentismo público. Ganhando a glória que perpetua uma personalidade na memória dos homens, asseguraria o triunfo da sua causa perante o tribunal do Juiz indefectível. Era preciso ser um herói para a humanidade e um mártir para Deus. A vasta ambição abraçaria o céu e a terra. Ser um santo célebre, eis um ideal digno que as circunstâncias contrariavam e o seu temperamento punha em risco.

E como combater esse risco? O isolamento, a falta de alimento sério para o espírito inquieto e agitado, a ociosidade em que o fastio das funções ordinárias do ofício e a indiferença dos fregueses o deixavam, entregavam-no desarmado e fraco às paixões ardentes que lhe tumultuavam no cérebro. A cultura intelectual recebida no Seminário a modo que lhe aumentava o mal-estar do coração, incapaz de afazer-se àquele meio ignorante. Não tinha com quem trocar duas idéias em conversa que lhe contentasse o espírito. Lia e relia o Flos Sanctorum, procurando achar nos inúmeros martírios dos grandes homens do cristianismo um tormento igual ao seu, nada o consolava, nada podia arrancar-lhe do coração o pungente espinho da sua inutilidade imbecil, da sua chata vulgaridade.

Depois do insucesso do último sermão, não passava mais pela Rua do Porto, nem pelos lugares mais povoados. Vagava pelos arredores da vila, sombrio, preocupado, fugindo às vistas curiosas dos poucos habitantes de Silves, maldizendo a irresolução e a fraqueza que a mãe lhe transmitira no sangue. A noite embalava-se na rede, fazendo ranger as cordas nas escápulas de madeira, e murmurando citações latinas como para se convencer dessa verdade que o seu temperamento de contradição repelia ainda, e parecendo-lhe ver, a cada trecho, na indecisa claridade dos cantos, surgir, provocadora e risonha, a figura juvenil da Luísa Madeirense.

Quando saiu ao Largo da Matriz era noite fechada, mas viu perfeitamente o vulto do Macário, à porta, esperando. E penetrando no templo escuro e frio, deu-lhe uma agonia, como se para sempre entrasse no aniquilamento total da sua personalidade.