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O missionário por Inglês de Sousa
Capítulo 8


A canoa deslizava brandamente, entrando à boca do rio Canumã, cuja superfície calma enrugava de leve, despertando as sardinhas a meio adormecidas entre duas águas. Nenhum pássaro cantava, as vozes noturnas da floresta haviam-se calado, num recolhimento solene, ao despontar da aurora, como se ensaiassem as forças para a abertura do grande hino da manhã selvagem. Reinava profundo silencio, apenas entrecortado pelo ruído cadenciado do remo batendo alternadamente na água e nas falcas da montaria. Padre Antônio procurava concentrar o espírito numa meditação profunda, influenciada pelos materiais objetivos que o cercavam, sentindo que dava um passo decisivo na vida, e precisava reunir todas as forças da sua mentalidade para o conhecimento exato da sua situação moral. A meditação em que se absorvesse não impediria a marcha regular do governo da montaria, porque o grande rio Canumã oferecia navegação larga e franca, a corrente não era de todo desfavorável, e permitia imobilizar o remo do jacumã numa posição demorada. Naquela região inteiramente despovoada e sujeita às correrias dos índios bravos, entrava de repente num mundo novo, longe da vida social.

A cem braças da embocadura já o rio oferecia um aspecto muito diverso do que nas proximidades do sítio do Guilherme, tendo um cunho de selvagem grandeza que impressionava a imaginação e prendia a faculdade contemplativa. As árvores da beirada, sem receio do machado vandálico do lenhador, cresciam a uma altura descomunal, envoltas em intrincados cipós e em apaixonadas parasitas, que pareciam querer sufocá-las num abraço estreito; e à claridade dúbia da madrugada projetavam no rio a sua grande sombra, cheia de mistérios. As ribanceiras negras, irregulares, ora alteando-se como montanhas, ora arredondando-se em lombadas, aqui estendendo-se em praia alagadiça, salpicada de aningas magras, ali correndo a largos trechos um muro baixo, feito de tabatinga de veios cor-de-rosa; em alguns lugares retendo a custo os cedros que se esforçavam por despenhar-se no rio, ansiosos por vagabundear nos braços da correnteza; em outros esmagadas pelas possantes maçarandubas que lhes entranhavam no seio as raízes grossas como galhos de pau-pereira; tinham o aspecto triste e desconsolado das paragens ermas, das vastas solidões jamais pisadas pelo homem civilizado, e onde a pujança da natureza bruta parece opor uma resistência de bronze ao mesquinho que se aventura a perscrutar-lhe os segredos.

Mas, ao abrir do sol, bandos de macacos grandes e de guaribas assaltaram os castanheiros, pulando de galho em galho em gritos e porfia. Uma infinidade de pássaros de todas as cores cruzaram o ar, atravessando o rio num canto alegre de liberdade e de vida. Veados vieram beber confiadamente a água do rio, levantando a tímida cabeça para escutar o urro da onça que se fazia ouvir no mato, de vez em quando, dominando os ruídos da floresta, e pondo em sobressalto as capivaras vermelhas que se banhavam em numerosa vara à beira da corrente.

O movimento da fauna amazonense arrancara padre Antônio à meditação a que se queria entregar, sujeitando-o todo à encantadora contemplação das maravilhas da natureza selvagem, naquela esplêndida manhã de agosto, em meio do largo rio que se desdobrava, a perder de vista, numa luzente toalha em que se refletia, como em puríssimo cristal, o azul dum céu sem nuvens, sombreado pelas ramagens de árvores seculares, e riscado em diagonal pela linha de vôo de pássaros desconhecidos. As recordações da meninice assaltaram-no de novo, eram a mais grata memória do seu cérebro, evocadas sempre pelo espetáculo da natureza virgem. E vira-se a percorrer os campos incultos da fazenda, a aventurar-se numa pequena canoa pelo Amazonas fora, quando gostava de supor-se perdido na vastidão do rio, e a imaginação sonhava uma vida acidentada de combates com feras e de luta com os elementos na solidão das águas e das matas. Agora via quase realizado o seu sonho de menino, em pleno deserto, indo talvez perder-se em paragens desconhecidas, dormir ao relento, matar a fome nos maracujás silvestres e nas castanhas oleosas, talvez morrer às mãos dos índios do sertão, que não teriam pena da sua mocidade e gentileza. Mas em todo o caso ia saciar a alma de solidão e de liberdade, gozar talvez a inefável delícia de sentir-se só num grande país, de poder entregar-se desassombradamente ao enlevo dos seus queridos pensamentos íntimos, sem receio de olhares indiscretos nem de interrupções importunas. Ia, enfim, achar-se face a face com a grande e virgem natureza, num tête-à-tête misterioso, em que poderia desabafar as dores secretas do coração dilacerado por sentimentos incompreensíveis; pensar e falar sinceramente, pondo o peito a nu, reconhecer-se a si próprio, ser franco consigo mesmo, propondo e resolvendo com lealdade, despido de todos os preconceitos, de todos os prejuízos de educação e de doutrina, o até ali insolúvel problema da natureza humana. Esta idéia, esta esperança mergulhava-lhe os sentidos numa embriaguez estranha, que lhe fazia esquecer as horas, imóvel, à popa da montaria, não sentindo o sol que na sua marcha ascendente, vinha queimar-lhe as faces em carícias ardentes.

Macário, à proa, remando com afinco, suando em bica, começava a achar que os mundurucus estavam muito longe, e o remo lhe cairia das mãos antes de lhes pôr a vista em cima. Teimava naquela tarefa ingrata de repelir a água com a face do seu remo redondo, inabilmente manejado, porque, graças a Nossa Senhora, nunca fora remador de montarias. Sentia arderem-lhe as mãos, uma dor aguda comia-lhe as costas, descendo-lhe até os rins, e copioso suor inundava-lhe a fronte, dando uma sensação de crescimento ao lombinho, que o sol castigava com uma preferência incômoda. Desde alta madrugada estava Macário acordado, tinha perdido a noite, pela primeira vez na vida, na luta terrível que a prudência travara contra o prestigio e a força moral do vigário, e na qual fora vencida, por entre grandes suspiros e profundos desalentos. Carregara aos ombros os remos e os cachos de bananas, vendidos pela tia Teresa por muito bom dinheiro acompanhado das bênção de padre Antônio, e desde que as estrelas empalideceram à primeira claridade da aurora, sentara-se naquele banco e puxava pelo remo como se nunca tivesse feito outra coisa em dias de sua vida. O calor aumentava. Macário já não sentia as pernas adormecidas pela demorada imobilidade em que jaziam; os braços já se recusavam ao serviço. O lombinho, no meio da testa, crescia, interceptando-lhe a luz dos olhos.

Saberá V. Rev.ma que são horas de almoço, disse, enfim, voltando-se para o padre, descansando o remo, enxugando o suor na manga da camisa.

Seriam, com efeito, oito horas da manhã. Ardia o sol num céu sem nuvens. A água do rio tomava tons azulados, e o verdejante arvoredo das margens revestia-se dum colorido luxuriante, em plena seiva, banhado em luz intensa e poderosamente fecundado pelo calor que abrasava a terra. Ao longe a linha da cordilheira, suavemente ondulante, recortava o azul-celeste do firmamento em metátomos irregulares dum azul mais carregado, alargando o horizonte, numa perspectiva de afastamento indefinido. No meio da massa verde-escura da floresta, de um e de outro lado, as altas embaúbas abriam as folhas brancas, leques inúteis que a viração não abanava, e as bacabeiras carregadas de cachos, deixavam-se estar imóveis com as palmas estiradas, abertas, levemente amarelecidas, sem ânimo de as balançar no espaço, para não perder nenhum dos beijos vivificantes do sol.

Os sabiás, os corrupiões, os diversos trovadores das selvas amazônicas recolhiam-se à frescura do arvoredo para a modulação dos trenos amorosos no mistério das folhagens. Os macacos, preguiçosos e sonolentos, internavam-se no mato em busca de algum regato cristalino ou, saciados de castanhas, balançavam-se pachorrentamente em delgados cipós. As próprias ciganas arrastavam o grasnar desagradável, como vencidas do cansaço e do silêncio, que lhes não permitia a índole barulhenta e irrequieta. Os peixes tardavam em vir à tona da água, ou boiavam sem ruído, para não interromper a calada do dia. Era intenso o calor.

Padre Antônio acedera suspirando ao pedido contido no aviso do Macário, e dirigira a canoa para a beira, escolhendo lugar para o desembarque. Macário petiscara lume, fizera uma fogueirinha com ramos secos, e assara um naco de pirarucu, e umas bananas verdes.

Depois do almoço, como o calor aumentava, o sacristão obtivera o descanso de algumas horas à sombra. Escolhera um castanheiro, a cujo abrigo se estendera no chão, moído e escangalhado. E adormecera logo.

Padre Antônio aproveitara o tempo num longo passeio por entre as árvores da mata, enchendo os ouvidos dos sons sensuais do canto dos rouxinóis, e sentindo uma agradável impressão de isolamento e de bem-estar debaixo daquele teto de verdura. Quando viera a viração do mar, por volta de uma hora da tarde, toda a natureza, como reanimada pela varinha de condão de uma fada, acordara do letargo e repetira o concerto das vozes matutinas, com menos frescura e intensidade talvez, mas com a mesma agitação. Os peixes amiudaram-se à superfície do rio, como em brincos apostados, a quem mais vezes mergulhava e surgia no mesmo trecho do rio. As aves atreveram-se a deixar a sombra da floresta e a atravessar novamente o Canumã, voltando da viagem de amor ou de negócios feita pela manhã, e recolhendo-se aos ninhos, pressurosas e alegres. As palmeiras balançaram no espaço os leques verdes, auxiliando a viração na tarefa de refrescar a atmosfera; e grandes folhas de embaúba e palmas de coqueiros silvestres caíram com um ruído seco espantando as capivaras. Ao longe, o azul da cordilheira desmaiava, expirando numa orla esbranquiçada mal distinta da base dos altos cirros recém-formados, e cujos filamentos entrecortados semelhavam colunas de mármore veiado de azul sustentando rico dossel brilhantemente colorido. O sol, dardejando os raios quase a prumo sobre a coroa das palmeiras, parecia um sultão, recolhendo ao seu dormitório recôndito de tirano, satisfeito com as sultanas mais esbeltas e formosas e desdenhoso da turba das escravas. O ruído das franças agitadas pelo vento e o canto dos passarinhos distraíam a padre Antônio da meditação religiosa em que procurava afundar-se, suscitando-lhe imagens de gozo profano. Reagira, porém, contra aquela espécie de torpor moral que o invadia, e fora acordar o Macário para porem-se de novo em viagem.

O sacristão olhou tristemente para as mãos cheias de ampolas pelo desuso do exercício a que o padre o forçara, e sacudiu a desanimada cabeça. S. Rev.ma não percebeu aquela muda e eloqüente linguagem, e injungiu quase com dureza:

-Vamos, seu madraço, vamos aproveitar a fresca da tarde.

Macário fora aproveitar a fresca, mas estava no seu direito de resmungar, e foi resmungando. Aquilo já passava de caçoada! Um fomento de rebeldia estava a espicaçar-lhe o fígado... mas era um homem de juízo e compreendia que ante a obstinação cabeçuda do padre vigário de nada serviria persistir na teima de voltar para a vila. A canoa era uma só: ou havia de subir o Canumã ao sabor de padre Antônio ou de descê-lo como o pretendia e desejava o sacristão. O padre era o dono da montaria porque a tomara de aluguel com o dinheiro do seu bolso (que infelizmente o João e o Pedro lhe deixaram), e quando mesmo Macário o quisesse forçar a desistir da empresa, coisa, aliás, de que Nossa Senhora do Carmo o livrasse! era certo ser o vigário um rapaz sacudido e valente, de pulso forte e ânimo inteiro. Quanto a voltar sozinho por terra, não era idéia que se demorasse dois segundos na cabeça de um homem sensato. Macário, especialmente e de nascença, votava invencível ojeriza às onças, às queixadas e aos tamanduás que passeiam o sertão do Amazonas com a sem-cerimônia de quem conhece os seus domínios; e ele, o filho da lavadeira de Manaus, não contava entre os seus planos de futuro, ruminados ao cair da tarde, saboreando o cachimbo em frente à casa da Luísa Madeirense, o de ser estraçado por uma vara de caititus, para regalo de urubus vorazes, ou de perder o último alento no abraço apertado do tamanduábandeira, de unhas cortantes como navalhas. Se a perspectiva de ser banquete de tapuios bravos, embora em serviço de Cristo Crucificado, não lhe sorria muito, posto o lisonjeasse uma vaga esperança de ser recebido em boa paz por milagre de Nossa Senhora e do Senhor São Macário, menos o favoneava a empresa de galgar léguas e léguas por caminhos ínvios, por florestas intrincadas, por insondáveis gapós, trepando serras onde as onças moram, vadeando lagoas onde se ocultam sucurijus de enorme boca, palmilhando sobre espinhos, onde se aninham caninanas, e penetrando grutas onde habita o maracajá de súcia com a surucucu, para, por fim, se viesse a sair dessa impossível peregrinação, chegar morto de cansaço, doente e desmoralizado à sua saudosa e sempre lembrada Silves. Nada, antes morrer de uma só vez, flechado por um selvagem, ganhando foros de tartaruga. Era mais simples e não cansava tanto. Contemporizaria, sujeitar-se-ia ao insano capricho do padre vigário até que a Providência lhe oferecesse ocasião de pôr em prática o hábil maquiavelismo, de que tantas vezes colhera inesperados resultados.

A tarde estava muito fresca. A viração, vinda do Amazonas, acentuava-se, enrugando as águas do Canumã em pequenas vagas de prata e fazendo oscilar a humilde embarcação de pesca. As arvores da beirada balançavam-se graciosamente sobre as ribanceiras em saudações corteses aos atrevidos nautas que visitavam aquelas paragens despovoadas. As cigarras e os tananãs, sentindo avizinhar-se a noite, cantavam em notas melancólicas as saudades da vida efêmera que se desprendia do minguado corpinho. O unicorne denunciava a sua presença nas várzeas da beira do rio, cortando o ar com as vibrações da voz sonora e potente acordando o jaburu meditativo e tristonho na sua roupagem negra. Araras de torna-viagem enchiam o céu com a gritaria estridente que ia perder-se, num rumor longínquo e monótono, nos taperebás da serra, e cruzavam-se com os papagaios sertanejos voando alto, em bandos compactos; governando o impulso do vôo com os staccati do canto arquejado. No meio dos gapós a saracura e o galo-d'água gemiam um dueto amoroso, com o acompanhamento da orquestra desenxabida das lontras que vinham gozar do último calor do sol morrente; e no capinzal da beira os cururus enfatuados e bulhentos assustavam as tímidas rolas aninhadas na espessura da canarana, no aconchego da folhagem macia, e que se punham a dar gritozinhos aflitos, cedendo à fascinação irresistível. Com a despedida do dia as ciganas grasnavam à porfia, numa confusão de vozes discordantes, maltratando-se a bicadas, lutando por um mesmo ramo de árvore, donde pudessem, empoleiradas, mergulhar na água duvidosa do rio a profundeza escura do olhar corvino, em busca de um indício de carne morta. Frutos maduros se desprendiam das árvores ribeirinhas, caindo na água com um ruído sonoro que provocava uma avançada geral das tartarugas famintas, nadando entre duas águas. Enormes pirarucus vinham por sua vez, graves e solenes, gozar a fresca da tarde, aspirando com delícia e em grandes rabanadas a brisa do Amazonas. O sol já se escondia por trás da serra, desprendendo uma luz suave coada através das clareiras, dourando as cristalizações das rochas, e resvalando sobre a toalha do rio, salientava as cabeças silenciosas dos grandes jacarés imóveis, como tocos de pau, perdidos na correnteza, e cujos olhos ardentes e ferozes cravavam-se na montaria com fixidez de mau agouro. A canoa avançava lentamente.

Padre Antônio remara toda a tarde, subindo vagarosamente o Canumã, vencendo a custo a correnteza que o arrastava para o lago, como se uma força oculta o quisesse desviar da arriscada tentativa. Depois do jantar, que foi mesmo a bordo, ao cair da noite de treze de agosto, tratara de procurar um lugar em que ele e o companheiro pudessem repousar os membros fatigados. O problema, pensava, não era de fácil solução.

Era preciso amarrar a canoa em lugar que a abrigasse de alguma ventania noturna ou dessas rápidas tempestades dos países quentes, terríveis e imprevistas, despedaçando as florestas e convulsionando os rios. Ao mesmo tempo convinha não esquecer os perigos de terra, não menos de temer naquele trecho do Canumã, de aspecto tão diverso do que lhes oferecera ao desembocar no lago de que tira o nome. As ribanceiras eram altas, corridas a prumo, como se o Canumã, à semelhança do Amazonas, se ocupasse em devorar as margens, ameaçando espraiar-se até a raiz da cordilheira que padre Antônio divisava ao longe, enquadrando o vale numa cercadura azul. A beira do rio parecia coberta de aningais cerrados e doentios, que se compraziam num solo inconsistente e úmido, e defendiam-se da correnteza com uma larga faixa de densa canarana, dum verde cambiante. A noite enchia o céu, entenebrecendo o horizonte, depois dum rápido crepúsculo. Padre Antônio amolecia o remo, olhando para todos os lados, hesitando. Amarrar a canoa muito perto da terra, além de a sujeitar ao risco do desmoronamento das ribanceiras, era expô-la ao ataque das onças, protegidas pela escuridão do mato e pela frouxidão do solo. Fundear ao largo sem um mará que a garantisse contra a correnteza, impedia aos viajantes o sono repousado em terra, ao menos que não se aventurassem por entre as canaranas nos domínios da cobra e do jacaré. Não havia remédio senão continuar a viagem até que encontrassem um bom porto para o desembarque.

- Ali! exclamou de repente o Macário, lobrigando à última claridade do crepúsculo uma língua de terra que num trecho de cerca de três braças entrava pela água dentro, forçando a correnteza a desviar-se e formando um remanso. Por efeito do desabamento da ribanceira a margem abaixava-se numa pequena praia. Não havia mais hesitação possível. A noite já os impedia de viajar livremente.

Padre Antônio aproou a montaria para a beira.

- Desça e amarre a canoa, ordenou.

Macário arregaçou as calças até os joelhos, resmungou, tirou fora os sapatos e atirou-se à água. Mas imediatamente soltou um grito estridente, titubeou e foi cair de ventas sobre a terra mole da pequena praia improvisada.

O sacristão de Silves, repimpado sobre um montão de folhagem com que procurava evitar a umidade do solo, agitava-se como se o diabo lhe tivesse entrado no corpo por fenômeno de incubação. Eram murros no ar, sacudidelas de braços, cabeçadas no espaço, exclamações de ódio e rancor que lhe saíam em atropelo dos lábios espumantes para permitir a entrada repentina na cavidade bucal de alguma atrevida muriçoca, doida por chupar-lhe o véu do paladar, e logo após expectorada, nadando em saliva, numa grande careta de enjôo. Era um espetáculo estranho e fantástico, que o padre observava da montaria em que ficara, esse do Macário, sentado à beira do rio, junto a uma grande fogueira, com a frente aureolada por um enxame de insetos alados, e a vociferar imprecações de toda sorte, sacudindo os braços, as pernas, o tronco, num movimento desordenado e contínuo, como se estivesse atacado da dança de S. Guido. Dir-se-ia um feiticeiro que no silêncio da noite e da solidão, entregava-se aos mistérios da sua arte diabólica, invocando os espíritos familiares para os lançar contra a humanidade, ou algum pobre tapuio louco que se ensaiasse para o religioso sairé, dançando ao som de instrumentos imaginários.

Padre Antônio também não se sentia a gosto, forçado a repousar na montaria, porque a ardente preocupação com que deixara o sítio de Guilherme não lhe dera a calma necessária para cuidar em todos os preparativos duma viagem que devia durar muitos dias por inóspitas regiões, e agora, naquela noite cálida de agosto, à margem alagadiça daquele trecho do Canumã, sem cômodo e sem abrigo, começava a convencer-se de que os inumeráveis inimigos do sossego noturno, de diversas espécies e famílias, mudos e canoros, visíveis ou ocultos, venenosos ou simplesmente incômodos que estavam perseguindo atrozmente o pobre Macário, nem sequer lhe permitiriam a ele uma meditação profunda e tranqüila. Os mosquitos, os carapanãs, os piuns, as muriçocas, os pernilongos atiravam-se com uma gana desenfreada à iguaria rara e delicada daquela epiderme branca e daquele sangue ardente, parecendo buscar na fácil empresa uma compensação da luta velha contra a pele grossa, oleosa e repintada do caboclo que habita os seus domínios. Não havia meio de dormir ou sequer estar quieto, com as ferroadas agudas dos sanguinários bichinhos que lhe deixavam no corpo ampolas e inflamações de mau agouro.

A noite corria plácida e serena, iluminada pelo brilho vivíssimo das estrelas. O calor era intenso, cessara a viração do mar por volta de oito horas, as águas do rio corriam mansamente, arrastando grandes troncos de árvore e periantãs flutuantes. Ao longe, na floresta, ouvia-se o urro da onça errante e faminta, cruzando-se de modo estranho, num contraste frisante, com o zumbido prolongado de milhares de milhões de carapanãs vorazes.

Macário cansado de agitar o corpo em todos os sentidos arrancara a camisa de riscado, e dava fortes palmadas nas costas, no peito, na testa, nas faces e no querido lombinho para matar os insetos que o torturavam. O sacristão lamentava-se amargamente. Logo ao chegar àquele miserável lugar um asqueroso puraquê o sacudira violentamente obrigando-o a enterrar a cara na lama da beira do rio. A eletricidade do peixe abalara-lhe os nervos, excitando-lhe o mau humor que já de véspera trazia contra padre Antônio de Morais e a sua louca empresa. A necessidade da fogueira para' evitar a aproximação das cobras, avivando-lhe a idéia do perigo a que se expunha, e ainda o urro longínquo da onça, que já lhe parecia estar a pequena distância, aumentavam-lhe a antipatia pela situação a que o forçara o receio absurdo de desobedecer ao senhor vigário. E agora, por mal dos seus pecados, por cúmulo de desgraças, os miseráveis insetos, teimando na cruenta lida de sugar-lhe o sangue todo, acabavam de esgotar-lhe a paciência, a santa paciência de que ele sempre timbrara nas épocas mais difíceis da sua acidentada existência.

Caía de sono, apesar de haver cochilado durante o dia sob os castanheiros, à moda dos pastores de Virgílio, como dizia o padre José, sempre que fazia a sua soneca debaixo da mangueira do sítio da Chiquinha do Urubus. O que provava que o tal Virgílio era um patrão acomodatício. Não podia dormir porque não lhe consentiam os carapanãs e as muriçocas! Que noite, senhor Deus, que noite aquela, de que' se lembraria toda a vida, ainda que vivesse cem anos, porque nunca passara uma noite assim nos trinta e cinco anos de moradia neste vale de lágrimas! Também quem o mandara meter-se naquela maluquice de padre Antônio de Morais? Bem sossegadinho podia Macário estar àquela hora, dormindo o seu sono na sua rede americana na casinha de Silves... em vez disso, matava mosquitos! Ai, quem ele queria pilhar ali era o pateta do Valadão, que se gabava de não matar um carapanã! Por mal dos pecados nem sequer tinha uma rodela de tabaco, nem uma folha de tauari! Se ao menos pudesse fumar, talvez se distraísse, e sempre se defenderia daquela súcia de carapanãs de má morte. Indignava-se contra os tapuios que lhe haviam furtado o chicote de cheiroso tabaco com que contava regalar-se nas paragens de Guaranatuba. Rebelava-se contra padre Antônio, o causador único de todas aquelas desgraças, e suspirava triste e amargurado. Quem diabo metera na cabeça de S. Rev.ma a idéia de vir àquele sertão em busca de gentios para converter? Pensar que poderia ter ficado no sítio de Guilherme, a esperar que voltasse da pescaria, lá estava a tia Teresa para o divertir, que antes ela, apesar das tetas pendentes, do que aqueles safados carapanãs que o estavam forçando a duvidar de Deus. Mas qual! tivera pena do idiota do padre, pensando que se meteria sozinho na rascada! O Sr. Macário de Miranda Vale tivera pena de padre Antônio de Morais, que não era seu filho, nem seu irmão, nem nada!

- Forte besta, o Sr. Macário! dizia sacudindo-se todo como um endemoninhado no desespero de um novo ataque de piuns que lhe caíam em nuvem sobre as costas e o peito. E no auge da aflição, com violência crescente exclamava, batendo com os punhos no coxim de folhagem:

- Burro, burro, burro!

Padre Antônio mal acomodado no único banco da montaria, começava a pensar que a empresa não era tão fácil como a princípio parecera ao seu ardor entusiástico. Já o impacientava a repetição das contrariedades da viagem que lhe tinha feito passar desapercebidas a preocupação do grande objetivo. A sua natureza exaltada e de repentes, irritava-se com os pequenos obstáculos, obrigando-o a desviar o pensamento da elevada missão a que se destinava.

Francamente, pensava, no silêncio daquela noite de desagradável vigília, não seria jamais o temor da morte que o faria renunciar ao seu tio religioso quão humanitário projeto. Estava pronto para arrostar com todos os perigos, naufrágios, fomes, torturas. Confessava-o a si mesmo, sem vislumbre de charlatanismo ou de hipocrisia, sondando a sinceridade do seu coração de moço. Sabia que se expunha a perder-se em pleno rio ou sob a torrente impetuosa de alguma cachoeira, a ser envenenado pelo impaludismo, a ser devorado pelas feras da floresta, esmagado por altas terras ou por cedros gigantescos. Mas passar noites sem dormir, a matar mosquitos, gastando a resignação e a paciência em tão mesquinhos e vulgares sofrimentos, em tão ridículas provações, não o podia levar a sangue frio. Os malditos não se limitavam a morder... cantavam, e aquele zinzim contínuo e monótono bulia-lhe com os nervos, perturbava-lhe a calma do espírito, apertando-lhe o coração num desespero infantil. Queria ser pregado a uma árvore pelas flechas dos selvagens, como o mártir S. Sebastião, de gloriosa memória, mas não via em que aproveitava à sua glória aquele martírio obscuro e inenarrável de ser devorado aos bocadinhos pelos carapanãs da beira do rio. Era um tormento inglório e escusado, porque em nada adiantava a grande obra da conversão dos mundurucus, e ninguém o tomaria a sério. E se ia continuar por noites e noites, por toda a viagem, por todo o tempo que pretendia dedicar à catequese, nas excursões às tabas mundurucus, nas horas de oração e preparo espiritual, e até no momento do sacrifício, quando precisasse dar ao selvagem o exemplo de uma calma superior, de uma resolução digna, qual seria a paciência humana capaz de suportar tão miseráveis e pequenos quão agudos e cruéis sofrimentos? O ardor do sangue que sentia correr-lhe nas veias, a sensualidade da carne cheia de vida e robustez, cujos incitamentos combatia pela dedicação e pelo sacrifício, preferiam decerto a morte violenta e heróica, as grandes sensações que aniquilam o corpo, elevando a alma.

A preocupação constante dos últimos dias o impedira de dormir, enquanto o pudera fazer ao rumor cadenciado dos remos dos camaradas ou no silêncio da casinha de palha do pescador Guilherme, e agora que cedera à certeza de levar avante o grande desideratum da sua vida de padre; agora que o corpo cansado se tornava exigente na reivindicação dos seus direitos, e a calma da noite o convidava a um sono reparador, eis que o não conseguia conciliar pela oposição invejosa de pequeninos insetos que o queriam todo para si, como se sua propriedade fora! As pálpebras fechavam-se, abria-se a boca em bocejos sonolentos, o corpo todo entregava-se a um torpor doentio e profundo, mas era impossível repousar um instante. Os olhos lacrimejavam, a cabeça estava oca de pensamentos, e os membros doloridos sentiam duplamente a dureza da improvisada cama que arranjara... Era impossível conservar-se deitado. Ergueu-se, e fazendo um enérgico movimento afugentou os mosquitos. Levantou os olhos para o céu estrelado e profundo, com uma vontade de queixar-se e de desafiar ao mesmo tempo o vasto firmamento. As pequenas estrelas pareciam observá-lo com um milhão de olhos curiosos, que o envergonharam do seu arrebatamento. Um frio glacial invadiu-lhe o peito, gerando a convicção de que fora vítima duma tentação do demônio que lhe queria vencer a constância para o desviar do serviço de Deus. Esta idéia arrancou-o com uma sacudidela ao torpor físico e moral que o ia despenhando no poder do inimigo de sua alma, e restituiu-lhe a força. Curvou-se sobre a borda da canoa, banhou o rosto e as mãos na água fresca do rio, e como se a ablução lhe desse um novo batismo de crença e de fé, sentiu-se são. Sentou à popa da montaria, e reatou o fio das suas meditações sobre a empresa que havia de vencer as tentações da sua carne de vinte e dois anos, preparando-o para a outra vida, e habilitando-o a deixar honrosa memória do seu nome.

Rememorou os feitos sublimes dos mártires do catolicismo nascente, os tormentos aturados por todos os que de boa mente trocavam algumas horas de dores por uma eternidade de beatitude, e reputou-se feliz por haver teimado na árdua viagem empreendida, do que rendeu graças infinitas ao seu anjo da guarda, que o não desamparara.

Os insetos voltavam, que voltassem! Já não lhes temia a fúria redobrada dos ataques. Não tentava afugentá-los, nem mesmo procurava resguardar-se das suas agudas ferroadas. Aquele tormento mandava-lho Deus para provar-lhe a constância e ânimo sofredor. Só tinha um pesar. Era o de ter quase desesperado com aqueles pequenos incômodos que nada eram em comparação com os incríveis sofrimentos suportados pelos santos do cristianismo. Naquele mesmo dia treze de agosto, cuja noite tranqüila padre Antônio atravessava à margem do Canumã, celebrava a Igreja de Roma a morte gloriosa de S. Cassiano, martirizado pelos ponteiros de seus próprios discípulos. E como pretender a palma do martírio um padre que nem sabia sofrer ferroadas de carapanãs?

A ação forte e dominadora duma fé ardente absorvera a vitalidade física de padre Antônio de Morais, causando-lhe um torpor profundo, mergulhando-o numa abstração completa. A recordação do martírio sobre-humano dos santos excitara no seu cérebro a sensação correspondente, que o sofrimento físico avivava, reagindo sobre a imaginação. Esquecera o presente. Via-se entre os mundurucus a pregar o Evangelho, a reduzi-los à civilização e à fé do catolicismo. O rio, a canoa, o céu estrelado, o Macário e os carapanãs varreram-se-lhe da memória. Mergulhara num sonho de catequese e de martírio em que, atado ao tronco dum gigantesco cedro, crivado de flechas ervadas, vertendo sangue por todos os poros, e sentindo a vida esvair-se pelas feridas ao passo que o veneno mortífero subia-lhe lentamente ao coração, falava ao gentio as doces palavras de Jesus.

Pouco a pouco aquele delicioso torpor fora-se apoderando de todas as suas faculdades, e o sonho continuara como realidade tangível, em que encontrava um gozo intenso. Recostara-se à popa da montaria.

Cerrara os olhos. Cruzara as mãos no peito e entregara-se à suprema felicidade de sentir-se martirizado por amor de Deus Crucificado. Os insetos, aproveitando a passividade daquele corpo, picavam-lhe o rosto, as mãos, o peito a meio descoberto pela abertura da camisa. Gotas de sangue vermelho cobriam-lhe as faces salpicadas de pontinhos pretos, uma nuvem de muriçocas aureolava-lhe a fronte, coroada de cabelos negros como a treva da noite que os envolvia.

À dúbia claridade das estrelas e ao reflexo das chamas da fogueira da praia, o sangue brilhava como rubis preciosos, e o vulto grande do padre destacava-se do fundo da humilde montaria numa atitude tranqüila e repousada, que o Macário invejava, como se houvera cedido ao sono embalado pelas auras da fresca madrugada, ao som duma música divina.

Um odor forte e balsâmico chegava da floresta, e misturando-se às emanações úmidas e agrestes da beira do rio, enchia o ar dum perfume oriental de nardo, sândalo e canela, que inebriava os sentidos, despertando vagos desejos dum gozo indefinido. A água corria docemente com um sussurro de regato coando por sobre leito de folhas, pelo leve embaraço que o estirão punha à correnteza desviada do seu curso; e as sardinhas, fugindo à voracidade dos peixes em caçada noturna, faziam às vezes estremecer a toalha do rio em pequenos círculos concêntricos que se desfaziam ao tocar na corrente, brilhando como lâminas de cristal à escassa luz do firmamento. Sobre uma moita de taquaris, perdida no meio dos aningais da outra banda, o reflexo da fogueira punha tons quentes de ouro queimado, e essa réstia de luz, caindo até meio rio, tonteava as piranhas pretas fazendo-as saltar fora da água em cardumes assustados.

Todos esses pequenos ruídos a modo que ainda tornavam mais profundo o grande silêncio do deserto, esmagador e terrível.

Sentindo-se num misto singular de ilusão e realidade, que no vago conhecimento do meio ambiente o conservava embebido no sonho de martírio, padre Antônio permanecia imóvel, impassível, sorrindo sob as dores agudas, fruindo inconcebível bem-estar, um prazer estranho, uma volúpia doce no castigo do seu corpo vigoroso por pequeninos insetos, que em miríades compactas cobriam-lhe o rosto e as mãos, saciando-se do seu sangue. As picadas eram um excitante do Amor Divino. E quando o sangue lhe corria vagarosamente pelo rosto abaixo, dava-lhe uma sensação de alívio e de frescura, que lhe punha nos nervos um agradável estremecimento. O calor ocasionado pelo afluxo do sangue ao rosto, o cansaço, a insônia forçada, o silêncio da noite e o cheiro sensual da floresta, trazido por uma brisa refrigerante, perturbando-lhe o cérebro desequilibrado, lançavam-no numa espécie de alienação mental, no puro subjetivismo dos mártires e dos loucos...

De repente o ruído dum corpo atirado ao rio arrancara-o à coma santa em que jazia.

Levantara-se e olhara para todos os lados, procurando reconhecer-se, e a custo voltara a si. Dores cruciantes no rosto e nas mãos chamaram-no à realidade das coisas e dos fatos. Sonhara, sem perder de todo a noção do meio. Vira o rio, o céu, as matas, ouvira os ruídos, respirara o odor balsâmico da floresta, mas não sentira aquelas horríveis dores que o estavam pondo quase louco, a agitar-se freneticamente no fundo da montaria. Isto não era sonho, sê-lo-ia o ruído que por último o despertara do letargo?

Macário não estava no lugar em que se assentara a vociferar contra os mosquitos, junto à fogueira, agora quase extinta. Essa ausência inquietava-o. Chamara e ninguém lhe respondera. Que queria isso dizer?

Era de recear uma desgraça. Desembarcaria para procurar o companheiro.

Mas nesse momento, a algumas braças de distância, vira surgir de dentro da água uma cabeça humana, com os cabelos colados na fronte, e logo à luz das estrelas um braço agitara-se no ar, e um homem nadando entre duas águas, com perícia, aproximara-se da montaria, batendo com as pernas, fazendo barulho para assustar as vorazes piranha pretas.

Com duas ou três fortes braçadas e o auxilio de padre Antônio, Macário de Miranda Vale achou-se dentro da montaria, confortado e risonho. Explicou que se atirara ao rio para fugir às mordidelas dos carapanãs, uma súcia de uma figa, capaz de levar um cristão ao desespero, e que deixando a S. Rev.ma em paz na montaria, o tinham ido perseguir, a ele, pobre sacristão, sobre o seu coxim de folhas. A frescura da água de súbito lhe aplacara as dores, aliviando-lhe o cérebro dos negros pensamentos que o enchiam. Não fosse o receio das dentadas das piranhas, e da morte entrevista na garganta de jacarés enormes, teria prolongado o delicioso banho.

A aurora, aparecendo por entre as altas árvores longínquas, expeliu a noite estrelada com o seu cortejo de terrores vagos e de alucinações cruéis.

Macário, comido de mosquitos, com o rosto, as mãos, o peito e os pés cheios de ampolas, remara silenciosamente, sentindo crescer no cérebro, como a fervura da água que se levanta numa caçarola, o horror daquela tresloucada tentativa do padre vigário. A continuação da viagem que o padre resolvera logo pela manhã, como se não estivesse fatigado, parecia ao sacristão um sacrifício superior às suas forças. Não. Aquilo havia de terminar. Não era possível que a sua estúpida passividade chegasse ao ponto de sujeitar-se a passar outra noite como aquela que o pusera todo varioloso. Não. Antes a morte!

E Macário, possuído de idéias sombrias, olhava de esguelha para o senhor vigário, procurando descobrir na fisionomia impassível do jovem sacerdote um indício de desânimo, um leve sinal de perturbação interior, que mostrasse hesitação no insensato alvitre de se deixar comer de mosquitos antes de ser devorado pelos mundurucus! Nada. O idiota do padre era inabalável! pensava o sacristão, com indignação a custo concentrada, perdendo mentalmente o respeito àquele homem, a cujas ordens cegamente obedecia.

Padre Antônio sentado à popa, governando o jacumã, não perdia nenhum dos olhares observadores que o Macário lhe atirava, na persuasão de que o vigário não lhe notava os movimentos. Padre Antônio sentia-se salteado por saudades vagas do tranqüilo viver do presbitério, mas escondia-as bem no fundo do coração cuidando em vencê-las como tentações do demônio, sempre em viva guerra com a paz da sua alma e o repouso do seu corpo. As vigílias, os dias sem descanso suficiente, a má alimentação e ainda o visível mau humor do companheiro, começavam a exacerbar-lhe a bílis, causando-lhe impaciências nervosas e uma raiva surda sem motivo nem objetivo certo. As inflamações do rosto e das mãos incomodavam-no muito. O sol as irritava com os seus beijos de fogo, produzindo um ardor contínuo que ameaçava transformar-se em febre. Ia também silencioso o padre, puxando molemente o remo, pensando nos dias que ainda lhe faltavam para chegar ao seu glorioso destino.

Às oito horas da manhã o Macário esquecera momentaneamente o desgosto e lembrara que eram horas de almoço. Justamente achavam-se perto duma pequena ilha verdejante de muritis e tucumãs, onde poderiam encontrar sombra e frescura para repousar depois do almoço, porque o sol já castigava tanto que - S. Rev.ma perdoasse -era impossível suportá-lo com o remo na mão. Para almoço pouco tinham. Era o triste pirarucu de sempre, que fazia suspirar pela gorda carne de vaca e pela gostosa farinha-d'água em que o costumava envolver com limão e pimenta para depois regá-lo com o vinho do Filipe do Ver-o-peso... Mas, Senhor Deus, nem valia a pena falar em coisas cuja lembrança só servia para tornar mais sensível a miséria do presente. Comesse todavia S. Rev.ma, que antes pirarucu do que nada.

Padre Antônio recusara o almoço, mas consentira em desembarcar na ilha para fugir ao ardor da canícula e mesmo descansar um pouco à sombra das árvores, a fim de recuperar a noite perdida.

- Saberá V. Rev.ma que isto era indispensável, disse o Macário, repleto de pirarucu e de bananas verdes, estendendo-se ao lado de padre Antônio à sombra de árvores folhudas.

Padre Antônio não respondeu. Cerrara os olhos, mas não dormia.

O calor aumentara. O sol tinha cintilações de cobre polido que ofuscavam a vista e causavam vagas dores nevrálgicas nas arcadas superciliares, aquecendo a cabeça. As árvores estavam paradas, ressequidas, estalando ao contato da mais leve aragem ou de algum passarinho que voejava em busca de sombra e de frescura na folhagem verde-claro com ligeiros tons violáceos. O chão duro, seco, crestado pelo calor, ressoava ao passo tardonho e preguiçoso das capivaras que vinham beber ao rio. Um enxame de mutucas verdes esvoaçava no ar, com um zumbido sonoro, e o sol dava-lhes um brilho de esmeralda e ouro às asas rutilantes. Sobre as folhas secas que a última ventania derrubara, camaleões expunham ao calor do sol os ventres brancos e chatos, comprazendo-se na imobilidade de fogo, e grandes jacuruarus pardos, deixando o esconderijo dos tocos de pau, arrastavam no horizonte em espessa muralha cinzento-escura, denunciando a caça dos gafanhotos inofensivos que, desmaiando de susto, tentavam confundir-se com as folhas claras das pacoveiras selvagens.

O céu começava a toldar-se de nimbos carregados que se cerravam no horizonte em espessa muralha cinzento-escura, denunciando a borrasca em que se ia transformar de súbito aquela esplêndida manhã de verão. Precedida dum bando de maguaris que vinham voando com pios aflitivos, uma nuvem negra aproximava-se com rapidez, e em breve cobria o sol com uma cortina escura que sombreou a superfície do rio e encheu a floresta de mistério. Uma forte lufada que vergou a coroa dos miritis e das juçaras, levantou as folhas secas que lastravam o solo, e que se puseram a correr ao sabor do vento com um ruído de maracá selvagem. As nuvens acumuladas chocaram-se, desprendendo a faísca elétrica, medonho trovão abalou a terra, indo estourar por trás da cordilheira com eco surdo e longínquo. Macário acordou sobressaltado.

Começou logo a chuva a cair em grandes bátegas de água, rufando nas folhas das árvores, e um cheiro acre e intenso de barro molhado de fresco subiu da terra. Lagartos e calangros correram a abrigar-se nas junturas das pedras e nos tocos negros dos madeiros a meio carcomidos pelo tempo. Os passarinhos trataram de esconder-se no mais denso do mato em prudente silêncio. O rio, pálido, manchado de pingos pardacentos, agitava-se num balanço frouxo, sacudindo os periantãs que se desprendiam da margem e punham-se a viajar na correnteza.

Era preciso primeiro que tudo cuidar da canoa, que não podia ficar exposta à chuva, e que deviam cobrir com o japá e alguns ramos de árvore. Depois iriam abrigar-se sob a copada cuieira que dali estavam vendo, e cujos ramos entrelaçados de parasitas multicores ofereciam um resguardo suficiente.

- Isto é chuva de trovoada, logo passa, terminou padre Antônio, indo com o companheiro para o abrigo da cuieira.

Mas a chuva recrudescia de violência, varando a ramagem da cuieira, e caindo em cheio sobre o padre e o sacristão que se foram meter sob o japá da canoa, guardando uma posição incômoda por largo espaço de tempo, na esperança de ver raiar o sol entre as nuvens que escureciam o horizonte. Não cessava a chuva e o bom tempo podia não voltar antes do cair da noite. Era, pois, melhor continuar a viagem, debaixo de toda aquela carga de água, já que a não podiam evitar sem maior sacrifício.

- Afinal, disse padre Antônio, a chuva não quebra ossos.

Macário não partilhava dessa opinião, mas obedeceu com surda rebeldia. Lembrava-se de um certo reumatismo antigo que lhe torturava os músculos das costas, sempre que pilhava algum resfriamento. A posição que deixava ao incômodo abrigo do japá da canoa não era, a falar a verdade, muito tolerável, e prudente parecia a resolução do senhor vigário, mas nem por isso ficava o Macário satisfeito. A raiva aninhava-se acesa no seu coração de homem honrado. Não seria obrigado àquele extremo de atirar-se às intempéries, numa obediência passiva, se padre Antônio não se tivesse lembrado da existência dos mundurucus em terras do Amazonas, e, por maior desgraça, da existência dele, Macário de Miranda Vale, que não era mundurucu nem nada. A idéia de fugir, de escapar por qualquer modo àquela situação impossível pregou-se-lhe no meio do cérebro. Ou por maquiavelismo ou por outra forma que achasse ao seu alcance. Nossa Senhora do Carmo valer-lhe-ia, como já lhe havia valido tantas vezes.

O vigário ia atento, governando o jacumã com redobrado cuidado. Da foz do Mamiá em diante, o Canumã estreitara muito. As margens tinham aspecto mais selvagem e a navegação não ficava isenta de perigo. A corrente era difícil de vencer, obrigando a canoa a navegar perto da beira para aproveitar o remanso. Isso alongava a viagem pelo desdobramento da sinuosidade do rio e arriscava a montaria ao desabamento das terras, a bater num tronco de árvore ou encalhar em algum banco de areia. A viagem atrasara-se. Apenas a embarcação se distanciara algumas braças da foz do Mamiá, que atravessara com dificuldade.

A tarde chegara, banhada de aguaceiros sucessivos, e em breve o horror duma noite sem estrelas devia envolver o céu e a terra numa escuridão completa. Padre Antônio remava, pensativo. A previsão das trevas impenetráveis duma noite chuvosa, sem o clarão dum relâmpago, em pleno rio sertanejo, sugeriu-lhe pela primeira vez a idéia da possibilidade dum erro. Duvidou da sanidade do seu cérebro. Uma obcecação fatal devia ter-se apoderado do seu espírito para que não compreendesse a loucura duma viagem nas condições da que fazia. Aventurar-se a um rio despovoado e quase desconhecido, numa pequena montaria de pesca, sem víveres e sem cômodos, não contando com os insetos, com a fome, com as itempéries, com os perigos da navegação realizada com a pasmosa segurança de quem atravessasse de Silves para a foz do Urubus, era coisa muito de admirar em homem que tinha por obrigação ser sisudo e prudente. Começara a viagem numa excelente igarité, espaçosa e segura, tripulada por dois remeiros vigorosos e práticos, sortida de víveres abundantes e de tudo mais que era preciso numa viagem ao sertão. Como, porém, perdera tudo isso, metera-se-lhe na cabeça, num momento de insensatez, continuar a viagem a todo o transe, custasse o que custasse, para não retroceder. Agora uma dúvida atroz estava-lhe atravessando o espírito. Fora o exemplo da coragem sobre-humana dos mártires antigos que o levara àquele passo, ou uma tentação demoníaca que lhe excitara a vaidade pueril de não parecer vencido por obstáculos triviais? De relance esta última idéia iluminara-lhe o entendimento. O inimigo da alma insinuara aquela inqualificável teima, que o desarmava para sempre. A continuação da viagem, depois da perda da igarité, fazia abortar a missão pela impossibilidade física de a levar a fim. Os mundurucus ficariam ainda por muitos anos nas trevas da barbaria. A Igreja perdia esses novos crentes, e o moço padre, em vez do quinhão de glória com que sonhara assegurar a salvação eterna, acabaria desconhecido e miserável.

A escuridão da noite que se avizinhava entenebrecia-lhe cada vez mais os pensamentos. A convicção de que fora vítima do pecado naquela empresa santa, penetrava-o. Lera que muitas vezes Satanás se serve das mais santas causas para preparar a queda das frágeis criaturas de Deus, e reconhecia no intimo do coração que carecera da humildade cristã que ampara e fortalece contra as tentações da soberba. Sondando o fundo da consciência reconhecia, e o confessava a Deus Misericordioso; não haviam sido tanto o ardor da propaganda e o zelo da catequese que o tinham feito obstinar-se naquela empresa impossível. Aniquilado, sentindo toda a vileza do seu caráter, toda a lama mole do seu orgulho, não o ocultava por mais tempo a Deus, como o procurara fazer a si mesmo, que foram talvez a teima, a obstinação casmurra, talvez o receio daquele terrível escarnecedor de padres que ria das suas ladainhas e dos seus olhos baixos. Um grande desprezo de si o invadia, era o último dos últimos, a própria abjeção saturava-o. Joguete vil do demônio (nenhum móvel elevado e nobre o impelira aos sertões da Mundurucânia. Era uma criatura desprezível, merecedora da sorte que o destino implacável lhe preparava nas inóspitas paragens sertanejas. Corpo apodrecido de vaidade balofa, inchado de ignorância, envenenado pela inveja e secretamente roído por uma luxúria ardente, digno era de servir de pasto aos urubus asquerosos, empestando o ar e excitando a gulodice dos vermes.

Comprazia-se no rebaixamento da sua personalidade, no exagero dos seus defeitos, no aviltamento de tudo quanto lhe era mais caro, e dessa humildade extrema em que pedia a Deus o perdão do seu maior pecado, vinha-lhe um grande abatimento que a fadiga e a fome aumentavam.

Viera a noite e a chuva caía sempre, obrigando os viajantes a deixar os remos e a esgotar a água que a canoa fazia por todo o costado. Não fora possível fazer fogo para preparar a comida. Abeirados a um estirão de terra que se lhes deparara, fora preciso passar ali a noite toda, interminável e chuvosa, na escuridão. A chuva já não dava em bátegas, mas num fino e frio chuvisqueiro, contínuo e monótono, penetrando os ossos. Do Canumã, das margens alagadas, do seio da floresta, embebida em água, vinham vapores úmidos, um grande cheiro de barro, de madeiras molhadas, de folhas secas repassadas de água, de paus apodrecidos, de lama revolvida. E do céu tenebroso e infinito a chuva caía ainda, trocando umidade por umidade, e saturando de água a terra, como se lhe quisesse extinguir o ardor do seio com um novo dilúvio fecundante.

Naquele dia o sacristão Macário fora sentar-se à beira do rio, sobre um tronco verde, sem querer ouvir os discursos com que padre Antônio de Morais procurava confortá-lo, ou iludi-lo, como fizera até ali. Deixava-se estar abismado nos profundos pensamentos que substituíam a alegre despreocupação de outrora. Depois daquela horrorosa noite de chuva, passada em densas trevas à margem do Canumã, não houvera remédio senão prosseguir na viagem, uma vez novamente calafetada a reles montaria do Guilherme, em busca do maldito porto dos Mundurucus, cada vez mais distante, e que, naquela ocasião de desespero, oferecia-lhes um fim e um abrigo, fosse embora esse fim a morte, e esse abrigo a sepultura.

A infame covardia de que agora Macário com maior indignação se acusava, à luz do sol dum belo dia, o levou naquela ocasião a consentir na continuação da viagem, pelo desânimo que dele se apoderara, cansado, faminto, molhado, incapaz dum ato de energia, cedendo à fatalidade que o arrastava para o abismo pelo órgão daquele padre endemoninhado. E o resultado de mais essa fraqueza, quando já tantas decepções e infelicidades o haviam castigado, fora arriscá-lo ao maior perigo que jamais correra em dias da sua vida. Ah! o sargento de polícia espancava-o, padre José, que Deus houvesse, descompunha-o, mas nenhum deles pensara em mandá-lo para os anjinhos! Fora preciso que viesse a Silves padre Antônio de Morais para que Macário de Miranda Vale fosse o mais infeliz dos homens!

Haviam largado do porto em que passaram a noite chuvosa, e alguma coisa confortados com o regalo de dois gordos pacus que, por milagre! Macário pescara e assara ao espeto. Remavam regularmente, quando avistaram uma canoa que levava a mesma direção da montaria, mas seguindo a margem oposta do rio. Pararam de remar para esperar os companheiros que vinham mais atrasados, felicitando-se pelo auxílio que lhes chegara de improviso. A idéia de esperar fora do padre, porque Macário era homem experiente e desconfiava de tudo! Mas o senhor vigário não tinha medo de nada! Afinal a tal canoa de companheiros era nada mais nem menos - e só de pensá-lo Macário estremecia de horror - um ubá selvagem que surdira do Mamiá e navegava talvez para alguma aldeia da vizinhança.

A tempo teriam evitado o perigo, porque o ubá, tripulado por três índios, trazia grande velocidade, e seguia pela margem oposta, sem que os selvagens tivessem visto a pobre montaria. Mas a incrível imprudência e a espantosa leviandade de padre Antônio de Morais não o permitiram. S. Rev.ma queria à fina força converter mundurucus! S. Rev.ma queria a todo o custo ser mártir da Igreja! S. Rev.ma queria morrer flechado, embora sacrificando também a vida de quem não era padre, nem doido, nem nada!

Por isso em vez de deixar passar o ubá, Padre Antônio pusera-se a gritar como um possesso:

- Bom-dia, patrícios!

O ubá parara de repente. Os patrícios não hesitaram na resposta a dar a S. Rev.ma .Três flechas - com certeza estariam ervadas -descreveram uma elipse no ar, e vieram cair pertinho da montaria. Era o tiro de aviso, seguido de novo tiro. Duas flechas cravaram-se no fundo da canoa, tão perto do Macário que só por milagre poderia ter escapado. Milagre fora esse e grande, porque os diachos dos caboclos esqueceram-se de que o ubá subia o rio, cuja correnteza natural fora aumentada pela grande chuva da véspera que nele derramara as águas do monte. Sem se lembrarem de mais nada senão flechar os pobres brancos - largaram o jacumã, e o ubá, perdendo a força impulsiva que trazia, fora de mansinho cedendo à correnteza, e virando proa para baixo, começara a descer o rio com maior rapidez do que subindo lhe poderiam dar os braços dos tripulantes. Felizmente S. Rev.ma compreendera logo que os tapuios não estavam para conversas, e dando ele e o Macário ao remo, com a maior gana deste mundo, trataram de fugir. Valeu-lhes estarem ainda a boa distância da embarcação selvagem. Milagre fora ainda ficarem os índios tão furiosos e atarantados que não souberam dividir a atenção entre a presa que fugia e a correnteza que os arrastava. Milagre fora também encontrar logo a montaria um estirão que dobrara para escapar às vistas dos ladrões dos tapuios, e altas canaranas em que se escondesse. Milagre fora achar Macário, logo ao desembarcar com o padre, um enorme taperebá, donde pudera ver, trêmulo de susto, a manobra com que os mundurucus os caçavam, remando com vigor, mas parando de vez em quando, na ingenuidade do seu ódio, para exprimir a vontade com que estavam de os colher às mãos, e logo voltando ao remo, curvados sobre os joelhos, parecendo tocar de leve a água. Uma longa esteira seguia a embarcação, refletindo os raios do sol ainda no oriente, e os troncos vermelhos dos índios destacavam-se na linha do horizonte por entre a folhagem verde.

Na altura do estirão que, ao que deviam supor, lhes encobria os brancos, dispuseram-se a atravessar o rio, mas não vendo a montaria, pararam de remar, hesitantes e surpresos. E por que cessaram a perseguição, mudando subitamente de propósito e cedendo à ordem que num gesto lhes dava o do jacumã para que remassem em direção a um furo que já haviam passado? Inconstância selvagem, necessidade urgente que os chamasse àquele furo, ligada à certeza de que os brancos não lhes escapariam, devendo cair mais tarde ou mais cedo no seu poder - pelo que mandaram um último tiro, sem pontaria, como para dizer: até logo - isso é que Macário não podia decidir. Era provavelmente milagre de Nossa Senhora do Carmo e de S. Macário. Mas por isso mesmo aquele fato devia servir de lição, e Macário estava decidido, inteiramente decidido a aproveitar-lhe o ensinamento. Não hesitaria mais,. nem teria mais fraquezas. O encanto que o prendia a padre Antônio de Morais estava quebrado para sempre. Falasse para aí horas e horas, arregalasse os olhos na grande severidade de quem se julga superior a todos, vomitasse sangue, arrebentasse os peitos, Macário não arredaria pé dali, não se levantaria daquele tronco de árvore senão para voltar rio abaixo até Silves. Ainda que tivesse de morrer de fome ou de ser devorado por alguma onça, não embarcaria senão para voltar. Jurara-o. Era muito temente a Deus, não podia faltar ao seu juramento.

Padre Antônio estava convencido de que a retirada dos mundurucus fora uma demonstração clara e positiva da Providência em favor da missão. Depois desse fato extraordinário e surpreendente era impossível abandonar o glorioso projeto de catequese. O ataque dos homens do ubá nada provava. Não podiam - coitados! ter recebido como de amigo a saudação de um homem em quem não reconheciam o caráter sacerdotal. Ao sair do sítio do Guilherme, por pura comodidade, padre Antônio cometera o grave erro de trocar o hábito talar por umas roupas grosseiras que a Teresa lhe emprestara. A sua até então, e de agora em diante, inseparável batina que acabara de vestir com o chapéu de três bicos, era suficiente para inspirar a todos os selvagens do Amazonas o maior respeito pela sua pessoa e pela do seu desanimado companheiro. E passeando em frente de Macário pensativo e cabisbaixo, S. Rev.ma o apostrofava com a eloqüência persuasiva com que pregava em Silves.

Que fraqueza era aquela dum servo de Deus, de entregar-se assim ao desespero esquecendo a sua infinita misericórdia e a sua imensa bondade? Estaria Macário arrependido de ter-se dedicado, com desapego dos bens mundanos, à obra sublime da catequese dos mundurucus, que lhe granjearia uma glória imorredoura nesta vida, e na outra a bem-aventurança eterna? Que era a miserável vida que punham ao serviço da religião do Crucificado e da civilização do Amazonas? Para o martírio haviam-se disposto desde que embarcaram para aquela viagem.

E antes de ter alcançado a palma dos seus esforços recuariam do caminho por causa de carapanãs e de outras pequenas contrariedades que o Senhor enviava para os provar? Seria acaso, continuava S. Rev.ma depois de um gesto de desprezo dos carapanãs, seria acaso pelo ataque dos índios do ubá que o sacristão queria abandonar o seu vigário, fugindo para eterna vergonha sua, da sua classe inteira? Mas, não fora para se exporem a ataques semelhantes, a combates, fomes, desolações e misérias que se haviam dedicado àquela missão de paz e de amor, abandonando os cômodos de uma vida tranqüila e repousada? Demais o episódio do ubá era mais próprio para dar-lhes do que para lhes tirar a coragem. Estava bem patente na fuga daqueles tapuios a intervenção divina, nem era capaz de dizer o contrário. Se Deus Nosso Senhor não quisesse a realização da missão, bastava-lhe abandonar os brancos à sanha daqueles selvagens. Entretanto, que fizera ele? Respondesse o Macário, que fizera o Senhor Deus dos Exércitos? Primeiro, havia por suas mãos desviado as setas envenenadas. Depois havia tocado o coração dos índios, e os seus servos ali estavam sãos e salvos, rendendo graças à sua infinita bondade. Isto era lógico, ou então dissesse o Macário o que era a lógica, que ele padre Antônio mandaria dizer ao padre Azevedo, o maior teólogo do Norte do Império, que procurasse outro ofício. Deus repetira o milagre de Davi escapando aos soldados de Saul.

- Vamos, Macário, terminara, sursum corda. Digamos como S. Paulo aos romanos: Sejamos alegres pela esperança e resignados nas tribulações.

Padre Antônio entusiasmava-se com as suas próprias palavras, readquiria pouco a pouco, sob a ação do seu discurso, ao fogo da própria eloqüência, a convicção que nos últimos dias parecia ter afrouxado. A fé renascia no seu espírito abalado pelos contratempos da viagem. As frases ardentes e sonoras que lhe brotavam dos lábios, reacendiam-lhe no peito a exaltação do proselitismo. Como um artista, a quem a obra das próprias mãos enternece e comove, apaixonara-se pelo quadro que expunha às vistas desanimadas do companheiro. Uma resignação sublime pintava-se no seu semblante e exprimia-se nos seus gestos.

- Se morrermos, fiat voluntas tua, ó soberano do céu e da terra! Levaremos para o túmulo com a certeza de haver cumprido o nosso dever as bênçãos da posteridade. Temos de morrer um dia. A morte é o tributo natural da humanidade à contingência criada. Se há-de ser de moléstia ou de acidente, que venha a morte das mãos dos inimigos de Cristo, Senhor Nosso, tentando chamá-los ao grêmio da Igreja Universal, e cumprindo a lei de Deus que nos criou. Que vale a vida obscura e inútil de pobres criaturas, escravas do pecado como nós somos? Só Deus é grande, e a suprema felicidade é possuí-lo a custo do insignificante sacrifício desta vida terrena. E Deus é duma infinita bondade, porque dá-nos tanto por coisa tão miserável e mesquinha que nos poderia tirar sem compensação. Eia, Macário, erga-me essa cabeça e fite-me o céu azul, cheio de promessas e de esperanças!

De repente pareceu a padre Antônio de Morais que de tanto cismar no ubá de índios que haviam encontrado pela manhã, Macário enlouquecera. O sacristão, erguendo-se dum jato, e dando um grande grito, pusera-se a correr desadoradamente para o porto. Da sua boca escancarada pelo terror, o padre ouvira o nome da tribo de índios ferozes que andava buscando por aquelas paragens ermas:

- Mundurucu, mundurucu!

Mas logo o padre conheceu que o Macário não fugira sem motivo. Quando se voltou para seguir a direção do olhar assustado do sacristão, dois homens, dois índios, parados a alguns passos de distância por trás dum matagal que lhes encobria a parte inferior do corpo, do ventre para baixo, ofereciam aos olhos atônitos do padre os troncos nus e a face cor de cobre, que se destacavam no meio da verdura como um baixo-relevo de bronze. Os índios olhavam fixamente para o chapéu de três bicos que o vigário conservava na cabeça, e no momento em que o padre os vira, atiravam-se para a frente, cortando apressadamente o mato que lhes embaraçava o passo. Padre Antônio compreendia bem que tudo estava perdido. Chegara afinal a hora do martírio, por tanto tempo procurado e desejado como o supremo bem.

Nem valia a pena dirigir a palavra àqueles selvagens para implorar misericórdia, ou para falar-lhes a linguagem de paz e de amor que trazia desde muito estudada para o primeiro encontro.

Para que discursos?

Naquela manhã, que devia ser a última da sua vida inglória e obscura, percebera que os mundurucus não falavam a língua geral, mas um dialeto impossível de compreender para quem, como padre Antônio, possuía apenas os rudimentos do tupi. Seria escusada qualquer tentativa de conversão daqueles selvagens, sem o auxílio dum intérprete, sem a calma e o concurso do tempo.

Demais naquele supremo momento um desânimo profundo apoderou-se do seu coração. Como por encanto, desaparecera o entusiasmo ardente que o animara ainda havia poucos instantes. Enquanto os índios se esforçavam por aproximar-se dele, padre Antônio concentrava numa emoção profunda toda a agra tristeza da sua mocidade perdida, as saudades de sua meninice feliz e descuidada, as suas aspirações de mancebo, os sonhos de ventura e de glória, o negro desespero duma irremediável desgraça.

Como os arbustos derrubados pelos terçados indígenas, as suas ilusões caiam de súbito. Ia desaparecer para sempre da face da terra quem tanto soubera sentir os carinhos dessa mãe extremosa, e com tanto ardor amara o sol, as árvores, os passarinhos, a grande natureza virgem. Morreria às mãos de estúpidos selvagens quem se conhecera fadado para uma carreira brilhante, para deslumbrar o mundo com o brilho do talento e de virtudes raras! Nem ao menos teria tempo de chorar, como a filha de Jefté, a sua virgindade inútil! E o passamento desconhecido e inglório nenhum lustre daria ao seu nome, para sempre sepultado, com o corpo vigoroso e jovem, naquele inculto sertão, só visitado de feras e de índios boçais, que viriam tripudiar sobre o cadáver, talvez despedaçado sem reverência para servir de odioso troféu! Era triste sentir-se cheio de vida, de saúde e de força, tão perto da morte; e terrível era vê-la aproximar-se lentamente, certa e inevitável, sem que o alento duma esperança permitisse conservar uma ilusão. A realidade tremenda, esmagadora, estava ali naqueles braços nus, naqueles terçados finos, faiscando à luz do sol, como para dizerem brutalmente a evidência do seu fatal destino.

Um terror que ia crescendo e se definindo pouco a pouco invadia-lhe o coração. A dúvida mordia-o como uma serpente, causando-lhe um calafrio que acabava de tirar-lhe a presença de espírito. Estaria em graça? Não iria, por última e suprema infelicidade, morrer em pecado mortal, ele, cujo maior empenho fora salvar a alma das garras do demônio, e para o conseguir fizera um feixe de todas as paixões de homem e de todas as aspirações de moço e o queimara sem pesar na ara sagrada da religião e do sacrifício! As pequenas faltas, as tibiezas de ânimo, os súbitos desalentos acudiam-lhe à memória num tropel confuso, e um rápido clarão enchia-lhe o espírito de uma verdade amarga, rasgando-lhe os véus da consciência e patenteando a vaidade, o orgulho, a ambição de nome e de glória, que, mais do que o Amor Divino, haviam motivado os atos da sua vida. Perturbado, unindo à angústia do pecador na hora da morte, um vago pesar dos deleites perdidos e um arrependimento sincero e inútil, perdia a noção exata do que se passava em redor de si...

Os os rompiam afinal o mato que lhes estorvava a passagem. Padre Antônio caiu de joelhos sobre a relva ainda úmida das chuvas da véspera, e, juntando as mãos numa agonia, ergueu os olhos para o céu, num olhar em que pôs toda a sua alma, e aguardou silencioso o golpe que o devia prostrar para sempre.