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Deixa-me
por Fagundes Varela
Poema publicado em Vozes da América.

Quando cançado da vigilia insana
Declino a fronte n’um dormir profundo,
Porque teu nome vem ferir-me o ouvido,
Lembrar-me o tempo que passei no mundo?

Por que teu vulto se levanta airoso,
Tremente em ansias de volupia infinda?
E as fórmas núas, e offegante o seio,
No meu retiro vens tentar-me ainda?

Porque me fallas de venturas longas,
Porque me apontas um porvir de amores?
E o lume pedes á fogueira extincta,
Dôces perfumes a pollutas flôres?

Não basta ainda essa existencia escura,
Pagina treda que a teus pés compuz?
Nem essas fundas, perennaes angustias,
Dias sem crenças e serões sem luz?

Não basta o quadro de meus verdes annos
Manchado e roto, abandonado ao pó?
Nem este exilio, do rumor no centro,
Onde pranteio desprezado e só?

Ah! não me lembres do passado as scenas,
Nem essa jura desprendida a esmo!
Guardaste a tua? a quantos outros, dize,
A quantos outros não fizeste o mesmo?

A quantos outros, inda os labios quentes
De ardentes beijos que eu te déra então,
Não apertaste no vazio seio
Entre promessas de eternal paixão?

Oh! fui um doido que segui teus passos,
Que dei-te em versos de belleza a palma;
Mas tudo foi-se, e esse passado negro
Por que sem pena me despertas n’alma?

Deixa-me agora repousar tranquilo,
Deixa-me agora dormitar em paz,
E com teus risos de infernal encanto
Em meu retiro não me tentes mais!