Abrir menu principal
(A noite era bela: dormente no espaço)
por Fagundes Varela
Poema publicado em Vozes da América.

A noite era bella: dormente no espaço
A lua soltava seus pallidos lumes;
Das flôres fugindo, corria lasciva
A briza embebida de moles perfumes.

Do ermo os insectos zumbiam na relva,
As plantas tremiam de orvalho banhadas,
E aos bandos voavam ligeiras phalenas
Nas folhas batendo co’as azas douradas.

O turbido manto das nevoas errantes
Pairava indolente no topo da serra;
E aos astros e ás nuvens perfumes, susurros,
Suspiros e cantos partiam da terra.

Nós éramos jovens, ardentes e sós,
Ao lado um do outro no vasto salão;
E as brizas e a noite nos vinham no ouvido
Cantar os mysterios de infinda paixão!

Nós eramos jovens, e a luz de seus olhos
Brilhava incendida de eternos desejos,
E a sombra indiscreta do niveo corpinho
Sulcavam-lhe os seios em brandos arquejos!

Nós éramos jovens, e as balsas floridas
O espaço inundavam de quentes perfumes,
E o vento chorava nas tilias do parque,
E a lua soltava seus tepidos lumes!...

Ah! misero aquelle que as sendas do mundo
Trilhou sem o aroma de pallida flôr,
E á tumba declina, n’aurora dos sonhos,
O labio inda virgem dos beijos de amor!

Não são dos invernos as frias geadas,
Nem longas jornadas que os annos apontam
O tempo descora nos risos e prantos,
E os dias do homem por gozos se contam.

Assim n’essa noite de mudas venturas,
De louros eternos minh’alma ennastrei;
Que importa-me agora martyrios e dôres,
Se outr’ora dos sonhos a taça esgotei?

Ah! lembra-me ainda! nem um candelabro
Lançava ao recinto seu brando clarão,
Apenas os raios da pallida lua
Transpondo as janellas batiam no chão.

Vestida de branco, nas scismas perdida,
Seu morbido rosto pousava em meu seio,
E o aroma celeste das negras madeixas
Minh’alma inundava de férvido anceio.

Nem uma palavra seus labios queridos
Nos dôces espasmos diziam-me então:

Que valem palavras, quando ouve-se o peito
E as vidas se fundem no ardor da paixão?

Oh! ceos! eram mundos... ai! mais do que mundos
Que a mente invadiam de ethereo fulgor!
Poemas divinos por Deus inspirados,
E a furto contados em beijos de amor!

No fim do seu gyro, da noite a princeza
Deixou-nos unidos em brando sonhar;
Correram as horas, — e a luz d’alvorada
Em juras infindas nos veio encontrar!

Não são dos invernos as frias geadas,
Nem longas jornadas que os annos apontam...
O tempo descora nos risos e prantos,
E os dias do homem por dôres se contam!

Ligeira... essa noite de infindas venturas
Sómente em minh’alma lembranças deixou...
Três mezes passaram, e o sino do templo
Á reza dos mortos os homens chamou!

Três mezes passaram e um livido corpo
Jazia dos cyrios á luz funeral,
E, á sombra dos myrtos, o rude coveiro
Abria cantando seu leito final!...

Nós eramos jovens, e a senda terrestre
Trilhavamos juntos, de amor a sorrir,
E as flôres e os ventos nos vinham no ouvido
Contar os arcanos de um longo porvir!

Nós eramos jovens, e as vidas e os seios,
O affecto prendera n’um candido nó!
Foi ella a primeira que o laço quebrando
Cahiu soluçando das campas no pó!

Não são dos invernos as frias geadas,
Nem longas jornadas que os annos apontam,
O tempo descora nos risos e prantos,
E os dias do homem por dôres se contam!