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Tristeza
por Fagundes Varela
Poema publicado em Vozes da América.

Eu amo a noite com seu manto escuro
De tristes goivos coroada a fronte
Amo a neblina que pairando ondeia
Sobre o fastigio de elevado monte.

Amo nas plantas, que na tumba crescem,
De errante briza o funeral cicio:
Porque minh’alma, como a sombra, é triste,
Porque meu seio é de illusões vazio.

Amo a deshoras sob um céo de chumbo,
No cemiterio de sombria serra,
O fogo-fatuo que a tremer doudeja
Das sepulturas na revolta terra.

Amo ao silencio do hervaçal partido
De ave nocturna o funerario pio,
Porque minh’alma, como a noite, é triste,
Porque meu seio é de illusões vazio.

Amo do templo, nas soberbas naves,
De tristes psalmos o troar profundo;
Amo a torrente que na rocha espuma
E vai do abysmo repousar no fundo.

Amo a tormenta, o perpassar dos ventos,
A voz da morte no fatal parcel,
Porque minh’alma só traduz tristeza,
Porque meu seio se abrevou de fel.

Amo o corisco que deixando a nuvem
O cedro parte da montanha, erguido,
Amo do sino, que por morto sôa,
O triste dobre n’amplidão perdido.

Amo na vida de miseria e lôdo,
Das desventuras o maldito sello,
Porque minh’alma se manchou de escarneos,
Porque meu seio se cobriu de gelo.

Amo o furor do vendaval que ruge,
Das azas negras sacudindo o estrago;
Amo as metralhas, o bulcão de fumo,
De corvo as tribus em sangrento lago.

Amo do nauta o doloroso grito
Em fragil prancha sôbre mar de horrores,
Porque meu seio se tornou de pedra,
Porque minh’alma descorou de dôres.

O céo de anil, a viração fagueira,
O lago azul que os passarinhos beijam,
A pobre choça do pastor no valle,
Chorosas flôres que ao sertão vicejam,

A paz, o amor, a quietação e o riso
A meus olhares não têm mais encanto,
Porque minh’alma se despiu de crenças,
E do sarcasmo se embuçou no manto.


... 1861.