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Os Lvsiadas por Camões
Canto Nono
Versão com ortografia atualizada disponível em Os Lusíadas/IX.



Canto Nono


Tiuerão longamente na cidade
Sem vender ſe a fazenda os dous feitores,
Que os infieis por manha, & falſidade
Fazem, que nam lha comprem mercadores,
Que todo ſeu propoſito, & vontade
Era, deter ali os deſcubridores
Da India, tanto tempo que vieſſem
De Meca as naos, que as ſuas desfizeſſem.


La no ſeio Eritreo, onde fundada
Arſinoe foi do Fgipcio Ptholomeo,
Do nome da irmã ſua aſsi chamada,
Que deſpois em Suez ſe conuerteo,
Não longe, o porto jaz da nomeada
Cidade Meca, que ſe engrandeceo
Com a ſuperstiçam falſa, & profana,
Da relegioſa agoa Maumetana.

Gidâ ſe chama o porto, aonde o trato
De todo o roxo mar mais florecia,
De que tinha proueito grande, & grato
O Soldão que eſſe Reino poſſuia:
Daqui aos Malabares, por contrato
Dos infieis, fermoſa companhia
De grandes naos, pelo Indico Oceano,
Eſpeciaria vem buſcar cada anno.

Por eſtas naos os Mouros eſperauão,
Que como foſſem grandes & poſſantes
Aquellas, que o comerçio lhe tomauão,
Com flamas abraſaſſem crepitantes:
Neſte ſocorro tanto confiauão,
Que ja nam querem mais dos nauegantes,
Se nam que tanto tempo ali tardaſſem,
Que da famoſa Meca as naos chegaſſem.


Mas o Gouernador dos ceos, & gentes,
Que pera quanto tem determinado,
De longe os meios dâ conuenientes,
Por onde vem a effeito o fim fadado,
Influio piadoſos accidentes
De affeiçam em Monçaide, que guardado
Estaua pera dar ao Gama auiſo,
E merecer por iſſo o Paraiſo.

Eſte de quem ſe os Mouros não guardauão,
Por ſer Mouro como elles, antes era
Participante em quanto machinauão,
A tençam lhe deſcobre torpe, & fera:
Muitas vezes as naos que longe eſtauão
Viſita, & com piedade conſidera
O dano, ſem razão, que ſe lhe ordena,
Pela maligna gente Sarracena.

Informa o cauto Gama das armadas,
Que de Arabica Meca vem cadano,
Que agora ſam dos ſeus tam deſejadas,
Pera ſer inſtrumento deſte dano:
Diz lhe que vem de gente carregadas,
E dos trouões horrendos de Vulcano,
E que pode ſer dellas opremido,
Segundo eſtaua mal apercebido.


O Gama que tambem conſideraua
O tempo, que pera a partida o chama,
E que deſpacho ja não eſparaua
Milhor do Rei, que os Maumetanos ama:
Aos feitores, que em terra eſtão, mandaua
Que ſe tornem aas naos: & porque a fama
Deſta ſubita vinda os não impida,
Lhe manda que a fizeſſem eſcondida.

Porem não tardou muito, que voando
Hum rumor nam ſoaſſe com verdade,
Que forão preſos os feitores, quando
Foram ſentidos virſe da cidade:
Eſta fama as orelhas penetrando
Do ſabio capitão, com breuidade
Faz repreſaria nũs, que aas naos vierão,
A vender pedraria que trouxerão.

Eram eſtes antigos mercadores
Ricos em Calecu, & conhecidos
Da falta delles, logo entre os milhores
Sentido foi, que eſtão no mar retidos:
Mas ja nas naos os bõs trabalhadores,
Voluem o cabrestante, & repartidos
Pelo trabalho, hũs puxão pela amarra,
Outros quebrão co peito duro a barra.


Outros pendem da verga, & ja deſatão
A vella, que com grita ſe ſoltaua,
Quando com maior grita ao Rei relatão
A preſſa, com que a armada ſe leuaua:
As molheres & filhos, que ſe matão
Daquelles que vão preſos, onde eſtaua
O Samorim, ſe aqueixão que perdidos
Hũs tem os pais, as outras os maridos.

Manda logo os feitores Luſitanos
Com toda ſua fazenda liuremente,
A peſar dos imigos Maumetanos,
Porque lhe torne a ſua preſa gente:
Deſculpas manda o Rei de ſeus enganos,
Recebe o Capitão de melhormente
Os preſos, que as deſculpas, & tornando
Algũs negros, ſe parte as vellas dando.

Parteſe coſta abaxo, porque entende
Que em vão co Rei gentio trabalhaua,
Em querer delle paz, a qual pretende
Por firmar o comercio que trataua:
Mas como aquella terra que ſe estende
Pela Aurora, ſabida ja deixaua,
Com eſtas nouas torna aa patria cara,
Certos ſinais leuando do que achara.


Leua algũs Malabares, que tomou
Per força, dos que o Samorim mandâra,
Quando os preſos feitores lhe tornou:
Leua pimenta ardente que compràra:
A ſeca flor de Banda não ficou,
A Noz, & o negro crauo, que faz clara
A noua ilha Maluco, coa canella,
Com que Ceilão he rica illustre & bella.

Isto tudo lhe ouuera a deligencia
De Monçaide fiel, que tambem leua,
Que inſpirado de Angelica influencia,
Quer no liuro de Chriſto que ſe eſcreua,
O ditoſo .Affricano, que a clemencia
Diuina aſsi tirou deſcura treua,
E tam longe da patria achou maneira,
Pera ſubir aa patria verdadeira.

Apartadas aſsi da ardente costa,
As venturoſas naos, leuando a proa
Pera onde a natureza tinha poſta
A Meta Austrina da eſparança boa,
Leuando alegres nouas & repoſta,
Da parte Oriental pera Lisboa,
Outra vez cometendo os duros medos
Do mar incerto, temidos & ledos.


O prazer de chegar aa patria cara,
A ſeus penates caros & parentes,
Pera contar a peregrina, & rara
Nauegaçam, os varios çeos, & gentes,
Vir a lograr o premio, que ganhàra
Por tão longos trabalhos, & accidentes,
Cada hum, tem por goſto tam perfeito,
Que o coração para elle he vaſo eſtreito.

Porem a Deoſa Cipria, que ordenada
Era pera fauor dos Luſitanos
Do Padre eterno, & por bom genio dada
Que ſempre os guia ja de longos annos.
A gloria por trabalhos alcançada,
Satisfação de bem ſofridos danos,
Lhe andaua ja ordenando, & pretendia
Darlhe nos mares tristes alegria.

Deſpois de ter hum pouco reuoluido
Na mente, o largo mar que nauegârão,
Os trabalhos, que pelo Deos naſcido,
Nas Amphioneas Thebas, ſe cauſarão,
Ia trazia de longe no ſentido,
Pera premio de quanto mal paſſarão,
Buſcarlhe algum deleite, algum deſcanſo
No Reino de criſtal liquida, & manſo.


Algum repouſo em fim, com que podeſſe
Refucilar a laſſa humanidade
Dos nauegantes ſeus, como intereſſe
Do trabalho, que incurta a breue idade:
Parecelhe razão que conta deſſe
A ſeu filho, por cuja poteſtade
Os Deoſes faz decer ao vil terreno,
E os humanos ſubir ao ceo ſereno.

Iſto bem reuoluido, determina
De terlhe aparelhada la no meio
Das agoas, algũa inſula diuina,
Ornada deſmaltado & verde arreio:
Que muitas tem no reino, que confina
Da primeira co terreno ſeio,
Afora as que paſſue ſoberanas,
Pera dentro das portas Herculanas.

Ali quer que as aquaticas donzellas,
Eſperem os fortiſsimos barões,
Todas as que tem titolo de bellas,
Gloria dos olhos, dor dos corações,
Com danças, & coreas, porque nellas
Influirâ ſecretas affeições,
Pera com mais vontade trabalharem
De contentar a quem ſe affeiçoarem.


Tal manha buſcou ja, pera que aquelle
Que de Achiſes pario, bem recebido
Foſſe no campo que a bouina pelle
Tomou de eſpaço, por ſutil partido:
Seu filho vai buſcar, porque ſo nelle
Tem todo ſeu poder, fero Cupido,
Que aſsi como naquella empreſa antiga
A ajudou ja, neſtoutra a ajude & ſiga.

No carro ajunta as aues, que na vida
Vão da morte as exequias celebrando,
E aquellas em que ja foi conuertida
Peristera, as boninas apanhando:
Em derredor da Deoſa ja partida,
No ar laſciuos beijos ſe vão dando,
Ella por onde paſſa o ar, & o vento
Sereno faz, com brando mouimento.

Ia ſobre os Idalios montes pende,
Onde o filho frecheiro eſtaua então,
Ajuntando outros muitos, que pretende
Fazer hũa famoſa expedição
Contra o mundo reuelde, porque emende
Erros grandes, que ha dias nelle eſtão,
Amando couſas que nos ſorão dadas,
Nam pera ſer amadas, mas vſadas.


Via Acteon na caça, tam auſtero,
De cego na alegria bruta, inſana,
Que por ſeguir hum feo animal fero,
Foge da gente, & bella forma humana:
E por caſtigo quer doçe, & ſeuero,
Maſtra lhe a fermoſura de Diana,
E guarde ſe nam ſeja inda comido
Deſſes cães que agora ama, & conſumido.

E vè do mundo todo os principais,
Que nenhum no bem pubrico imagina,
Vê nelles, que não tem amor a mais
Que a ſi ſomente, & a quem Philaucia inſina
Vê que eſſes que frequentão os reais
Paços, por verdadeira & ſaã doctrina
Vendem adulação, que mal conſente
Mandarſe o nouo trigo florecente.

Vê que aquelles que deuem aa pobreza
Amor diuino, & ao pouo charidade,
Amão ſomente mandos, & riqueza,
Simulãdo juſtiça, & integridade:
Da fea tyrania & de aſpereza
Fazem direito, & vaã ſeueridade:
Leis em fauor do Rei ſe estabelecem,
As em fauor do pouo ſo perecem.


Vê em fim que ninguem ama o que deue,
Se não o que ſomente mal deſeja,
Não quer que tanto tempo ſe releue,
O castigo que duro, & justo ſeja:
Seus miniſtros ajunta, porque leue
Exercitos conformes aa peleja,
Que eſpera ter coa mal regida gente,
Que lhe não for agora obediente.

Muitos deſtes mininos voadores,
Eſtão em varias obras trabalhando,
Hũs amolando ferros paſſadores,
Outros aſteas de ſetas delgaçando,
Trabalhando cantando estão de amores,
Varios caſos em verſo modulando,
Melodia ſonora, & concertada,
Suaue a letra, angelica a ſoada.

Nas fragras immortais, onde forjauão,
Pera as ſetas as pontas penetrantes,
Por lenha, corações ardendo eſtauão,
Viuas entranhas inda palpitantes:
As agoas onde os ferros temperauão,
Lagrimas ſam de miſeros amantes,
A viua flama, o nunca morto lume,
Deſejo he ſo que queima, & não conſume.


Algũs exercitando a mão andauão,
Nos duros corações da plebe ruda,
Crebros ſoſpiros pelo ar ſoauão,
Dos que feridos vão, da ſeta aguda,
Fermoſas Nimphas ſam, as que curauão
As chagas recebidas, cuja ajuda
Não ſomente dâ vida aos mal feridos:
Mas poem em vida os inda não naſcidos.

Fermoſas ſam algũas, & outras feas,
Segundo a qualidade for das chagas,
Que o veneno eſpalhado pelas veas,
Curão no aas vezes aſperas triagas
Algũs ficão ligados em cadeas,
Por palauras ſutis de ſabias Magas,
Iſto acontece aas vezes quando as ſetas
Acertão de leuar eruas ſecretas.

Deſtes tiros aſsi deſordenados,
Que estes moços mal deſtros vão tirando,
Naſcem amores mil desconcertados,
Entre o pouo ferido miſerando,
E tambem nos heroes de altos eſtados,
Exemplos mil ſe vem de amor nefando,
Qual o das moças, Bibli, & Cynirea
Hum mancebo de Aſsiria, hum de Iudea.


E vos ô poderoſo por paſtoras
Muytas vezes ferido o peyto vedes,
E por bayxos, & rudos vos ſenhoras
Tambem vos tomão nas Vulcanias redes,
Hũs eſperando andais nocturnas horas,
Outros ſubis telhados & paredes,
Mas eu creyo que deſte amor indino,
He mais culpa a da mãy, que a da minino.

Mas ja no verde prado o carro leue,
Punhão os brancos Ciſnes manſamente,
E Dione, que as roſas entre a neue
No rosto traz, decia diligente:
O frecheiro, que contra o çeo ſe atreue,
A recebella vem, ledo, & contente,
Vem todos os cupidos ſeruidores,
Beijar a mão aa Deoſa dos amores.

Ella porque não gaſte o tempo em vão,
Nos braços tendo o filho, confiada
Lhe diz, amado filho, em cuja mão
Toda minha potencia eſtà fundada:
Filho em quem minhas forças ſempre eſtão,
Tu que as armas Tifeas tẽs em nada,
A ſocorrer me a tua poteſtade,
Me traz eſpecial neceſsidade.


Bem ves as Luſitanicas fadigas,
Que eu ja de muito longe fauoreço,
Porque das Parcas ſey minhas amigas,
Que me ande venerar & ter em preço,
E porque tanto imitão as antigas
Obras de meus Romanos, me offereço
A lhe dar tanta ajuda em quanto poſſo,
A quanto ſe estender o poder noſſo.

E porque das inſidias do odioſo
Baco foram na India moleſtados,
E das injurias ſos do mar vndoſo,
Poderão mais ſer mortos, que canſados:
No mesmo mar, que ſempre temeroſo
Lhe foi, quero que ſejão repouſados,
Tomando aquelle premio, & doçe gloria
Do trabalho que faz clara a memoria.

E pera iſſo queria que feridas
As filhas de Nereo, no ponto fundo,
Da mor dos Luſitanos encendidas,
Que vem de deſcobrir o nouo mundo,
Todas nũa ilha juntas & ſubidas,
Ilha que nas entranhas do profundo
Oceano, terei aparelhada,
De dões de Flora, & Zefiro adornada.


Ali com mil refreſcos & manjares,
Com vinhos odoriferos, & roſas,
Em criſtalinos paços ſingulares,
Fermoſos leitos, & ellas mais fermoſas:
Em fim com mil deleites não vulgares,
Os eſperem as Nimphas amoroſas,
Damor feridas, pera lhe entregarem
Quanto dellas os olhos cobiçarem.

Quero que aja no reino Neptunino
Onde eu naſci, progenie forte & bella,
E tome exemplo o mundo vil, malino,
Que contra tua potencia ſe reuela,
Porque entendão que muro Adamantino,
Nem triste hypocreſia val contra ella:
Mal auerâ na terra quem ſe guarde,
Se teu fogo imortal nas agoas arde.

Aſsi Venus propos, & o filho inico
Pera lhe obedecer ja ſe apercebe,
Manda trazer o arco eburneo rico,
Onde as ſetas de ponta de ouro embebe:
Com geſto ledo a Cipria, & impudico,
Dentro no carro o filho ſeu recebe,
Ha redea larga aas aues, cujo canto
Ha Phaetontea morte chorou tanto.


Mas diz Cupido, que era neceſſaria
Hũa famoſa, & celebre terceyra,
Que poſto que mil vezes lhe he contraria,
Outras muytas ha tem por companheyra:
A Deoſa Gigantea temeraria,
Iactante, mintiroſa, & verdadeyra,
Que com cem olhos ve, & por onde voa
O que vè com mil bocas apregoa.

Vão a buſcar, & mandam a diante,
Que celebrando va com tuba clara,
Os louuores da gente nauegante,
Mais do que nunca os doutrem celebrara
Ia murmurando a fama penetrante
Pelas fundas cauernas ſe eſpalhàra,
Fala verdade, a vida por verdade,
Que junto a Deoſa traz Credulidade.

O louuor grande, o rumor excellente
No coração dos Deoſes, que indinados
Forão por Baco contra a illuſtre gente,
Mudando os fez hum pouco afeyçoados:
O peyto feminil, que leuemente
Muda quaeſquer propafitos tomados,
Ia julga por mao zelo, & por crueza
Deſejar mal a tanta fortaleza.


Deſpede niſto o fero moço as ſetas
Hũa apos outra, geme o mar cos tiros,
Dereitas pelas ondas inquietas,
Algũas vão, & algũas fazem giros:
Caem as Nimphas, lançam das ſecretas
Entranhas ardentiſsimos ſoſpiros,
Cae qualquer, ſem ver o vulto que ama,
Que tanto como a vista pode a fama.

Os cornos ajuntou da eburnea Lũa,
Com força o moço indomito exceſsiua,
Que Thetis quer ferir mais que nenhũa,
Porque mais que nenhũa lhe era eſquiua:
Ia não fica na aljaua ſeta algũa,
Nem nos equoreos campos Nimpha viua,
E ſe feridas inda eſtão viuendo,
Sera pera ſentir que vão morrendo.

Day lugar altas & ceruleas ondas,
Que vedes Venus traz a medicina,
Moſtrando as brancas vellas, & redondas,
Que vem por cima da agoa Neptunina:
Pera que tu reciproco reſpondas
Ardente Amor aa flama feminina,
He forçado que a pudicicia honesta
Faça quanto lhe Venus amoeſta.


Ia todo o bello coro ſe aparelha
Das Nereidas, & junto caminhaua
Em coreas gentis, vſança velha,
Pera a ilha, a que Venus as guiaua:
Ali a fermoſa Deoſa lhe aconſelha
O que ella fez mil vezes, quando amaua,
Ellas que vão do doçe amor vencidas,
Eſtão a ſeu conſelho offerecidas.

Cortando vão as naos a larga via
Do mar ingente, pera a patria amada,
Deſejando prouerſe de agoa fria,
Pera a grande viajem prolongada:
Quando juntas com ſubita alegria,
Ouuerão vista da ilha namorada,
Rompendo pelo çeo a mãi fermoſa
De Menonio, ſuaue & deleitoſa.

De longe a Ilha virão freſca, & bella,
Que Venus pelas ondas lha leuaua
(Bem como o vento leua branca vella)
Pera onde a forte armada ſe enxergaua,
Que porque não paſſaſſem, ſem que nella
Tomaſſem porto, como deſejaua,
Pera onde as naos nauegão a mouia
A Accidalia, que tudo em fim podia.


Mas firme a fez & imobil, como vio
Que era dos Nautas viſta, & demandada,
Qual ficou Delos, tanto que pario
Latona Phebo, & a Deoſa aa caça vſada
Pera la logo a proa o mar abrio,
Onde a coſta fazia hũa enſeada
Curua, & quieta, cuja branca area
Pintou de ruiuas conchas Cyterea.

Tres fermoſos outeiros ſe moſtrauão,
Erguidos com ſoberba gracioſa,
Que de gramineo eſmalte ſe adornauão,
Na fermoſa ilha alegre, & deleitoſa:
Claras fontes & limpidas manauão
Do cume, que a verdura tem viçoſa,
Por entre pedras aluas ſe diriua,
A ſonoroſa Limpha fugitiua.

Num valle ameno, que os outeiros fende,
Vinhão as claras agoas ajuntarſe,
Onde hũa meſa fazem, que ſe estende
Tam bella, quanto pode imaginarſe:
Aruoredo gentil ſobre ella pende,
Como que prompto estâ pera afeitarſe,
Vendoſe no cristal reſplandecente,
Que em ſi o eſtâ pintando propriamente:


Mil aruores eſtão ao çeo ſubindo,
Com pomos odoriferos & bellos,
A Laranjeira tem no fruito lindo
A cor, que tinha Daphne nos cabellos.
Encoſtaſe no chão, que eſtà caindo
A Cidreira cos peſos amarellos,
Os fermoſos limoẽs ali cheirando
Eſtam virgineas tetas imitando.

As aruores agreſtes, que os outeiros
Tem com frondente coma emnobrecidos
Alemos ſam de Alcides, & os Loureiros
Do louro Deos amados, & queridos:
Mirtos de Cyterea, cos Pinheiros
De Cybele por outro amor vencidos,
Estâ apontando o agudo Cipariſo
Pera onde he poſto o Etereo paraiſo.

Os dões que dâ Pomona, ali natura
Produze diferentes nos ſabores,
Sem ter neceſsidade de cultura,
Que ſem ella ſe dão muito milhores.
As Cereijas porpureas na pintura,
As Amoras, que o nome tem de amores,
O pomo, que da patria Perſia veio,
Milhor tornado no terreno alheio.


Abre a Romã, mostrando a rubicunda
Cor, com que tu Rubi teu preço perdes:
Entre os braços do Vlmeiro eſtâ a jocunda
Vide, cũs cachos roxos, & outros verdes:
E vos ſe na voſſa aruore fecunda
Peras pyramidais viuer quiſerdes,
Entregaiuos ao dano, que cos bicos,
Em vos fazem os paſſaros inicos.

Pois a tapeçaria bella & fina,
Com que ſe cobre a ruſtico terreno,
Faz ſer a de Achemenia menos dina:
Mas o ſombrio valle mais ameno:
Ali a cabeça o flor Cyfiſia inclina,
Sobollo tanque lucido & ſereno,
Floreçe o filho & neto de Cyniras,
Por quem tu Deoſa Paphia inda ſuspiras.

Pera julgar dificil couſa fora,
No çeo vendo, & na terra as meſmas cores,
Se daua aas flores cor a bella Aurora,
Ou ſe lha dam a ella as bellas flores:
Pintando eſtaua ali Zefiro, & Flora
As violas da cor dos amadores,
O Lirio roxo, a freſca Roſa bella,
Qual reluze nas faces da donzella.


A candida Cecêm das Matutinas
Lagrimas ruciada, & a Manjarona,
Venſe as letras nas flores Hyacintinas,
Vem queridas do filho de Latona:
Bem ſe enxerga nos pomos & boninas,
Que competia Cloris com Pomona:
Pois ſe as aues no ar cantando voão,
Alegres animais o chão pouoão.

A longo da agoa o niueo Ciſne canta,
Responde lhe do ramo Philomela,
Da ſombra de ſeus cornos nam ſe eſpanta
Acteon nagoa criſtalina & bella:
Aqui a fugace Lebre ſe leuanta
Da eſpeſſa mata, ou temida Gazella,
Ali no bico traz ao caro ninho,
O mantimento ô leue paſſarinho.

Neſta freſcura tal deſembarcauão
Ia das naos os ſegundos Argonautas,
Onde pela floresta ſe deixauão
Andar as bellas Deoſas como incautas,
Algũas doçes Cytaras tocauão,
Algũas arpas, & ſonoras frautas,
Outras cos arcos de ouro ſe fingião
Seguir os animais, que nam ſeguião.


Aſsi lho aconſelhàra a meſtra experta,
Que andaſſem pelos campos eſpalhadas,
Que vista dos barões a preſa incerta,
Se fizeſſem primeyro deſejadas
Algũas, que na forma deſcuberta
Do bello corpo eſtauão confiadas,
Poſta a artificioſa fermoſura,
nuas lauarſe deyxão na agoa pura.

Mas os fortes mancebos, que na praya
Punhão os pes de terra cubiçoſos,
Que não ha nenhum delles, que não ſaya
De acharem caça agreſte deſejoſos:
Não cuydão que ſem laço, ou redes caya
Caça naquelles montes deleytoſos
Tão ſuaue, domeſtica, & benina,
Qual ferida lha tinha ja Ericina.

Algũs que em eſpingardas, & nas beſtas
Pera ferir os Ceruos ſe fiauão,
Pelos ſombrios matos, & floreſtas
Determinadamente ſe lançauão:
Outros nas ſombras, que de as altas ſeſtas
Defendem a verdura, paſſeauão
Ao longo da agoa, que ſuaue, & queda
Por aluas pedras corre aa praya leda.


Começão de enxergar ſubitamente
Por entre verdes ramos varias cores,
Cores de quem a viſta julga, & ſente,
Que não erão das roſas, ou das flores,
Mas da lam fina, & ſeda diferente
Que mais incîta a força dos amores,
De que ſe vestem as humanas roſas,
Fazendoſe por arte mais fermoſas.

Da Veloſo eſpantado hum grande grito,
Senhores caça eſtranha diſſe he eſta,
Se inda durão o Gentio antigo rito,
A Deoſas he ſagrada esta floresta:
Mais deſcobrimos do que humano eſprito
Deſejou nunca, & bem ſe manifeſta
Que ſam grandes as couſas, & excellentes
Que o mundo encobre aos homẽs imprudẽtes.

Sigamos eſtas Deoſas, & vejamos,
Se fantasticas ſam, ſe verdadeiras,
Isto dito velloces mais que Gamos,
Selançam a correr pelas ribeiras:
Fugindo as Nimphas vão por entre os ramos,
Mas mais induſtrioſas que ligeiras,
Pouco & pouco ſurrindo, & gritos dando,
Se deixão yr dos Galgos alcançando.


De hũa os cabellos de ouro o vento leua
Correndo, & da outra as fraldas delicadas,
Acendeſe o deſejo que ſe ceua
Nas aluas carnes ſubito moſtradas,
Hũa de industria cae, & ja releua
Com moſtras mais maſias, que indinadas,
Que ſobre ella empecendo tambem caia
Quem a ſeguio pela arenoſa praia.

Outros por outra parte vão topar,
Com as Deoſas deſpidas, que ſe lauão,
Ellas começam ſubito a gritar,
Como que aſſalto tal nam eſperauão,
Hũas fingindo menos eſtimar
A vergonha, que a força, ſe lançauão
Nuas por entre o mato, aos olhos dando
O que aas mãos cobiçoſas vão negando.

Outra como acudindo mais de preſſa,
Aa vergonha da Deoſa caçadora,
Eſconde o corpo nagoa, outra ſe apreſſa
Por tomar os veſtidos, que tem fora:
Tal dos mancebos ha, que ſe arremeſſa
Veſtido aſsi & calçado (que co a mora
Deſſe deſpir, ha medo que inda tarde)
A matar na agoa o fogo que nelle arde.


Qual tão de caçador ſagaz, & ardido,
Vſado a tomar na agoa a aue ferida,
Vendo roſto o ferreo cano erguido,
Pera a Garcenha, ou Pata conhecida,
Antes que ſoe o eſtouro, mal ſofrido
Salta nagoa, & da preſa nam duuîda,
Nadando vay & latindo, aſsi o mancebo
Remete ha que nam era yrmaã de Phebo.

Lionardo ſoldado bem deſpoſto,
Manhoſo, caualleiro, & namorado,
A quem amor não dera hum ſo deſgoſto,
Mas ſempre fora delle mal tratado:
E tinha ja por firme proſuposto
Ser com amores mal afortunado,
Porem não que perdeſſe a eſperança,
De inda poder ſeu fado ter mudança.

Quis aqui ſua ventura, que corria
Apos Efire, exemplo de belleza,
Que mais caro que as outras dar queria,
O que deu para darſe a natureza,
Ia canſado correndo lhe dizia.
O fermoſura indigna de aſpereza,
Pois desta vida te concedo a palma,
Eſpera hum corpo de quem leuas a alma.


Todas de correr canſam, Nimpha pura,
Rendendo ſe aa vontade do inimigo,
Tu ſo de my ſo foges na eſpeſſura?
Quem te diſſe que eu era o que te ſigo?
Se to tem dito ja aquella ventura,
Que em toda a parte ſempre anda comigo,
O nam na creas, porque eu quando a cria,
Mil vezes cada hora me mentia.

Nam canſes, que me canſas: & ſe queres
Fujirme, porque nam poſſa tocarte,
Minha ventura he tal, que inda que eſperes
Ella farâ que nam poſſa alcançarte:
Eſpera, quero ver, ſe tu quiſeres,
Que ſutil modo buſca de eſcaparte,
E notarâs no fim deſte ſucceſſo,
Tra la ſpica & la man, qual muro he meſſo.

O não me fujas, aſsi nunca o breue
Tempo fuja de tua fermoſura,
Que ſo com refrear o paſſo leue,
Vencerâs da fortuna a força dura:
Que Emperador, que exercito ſe atreue.
A quebrantar a furia da ventura,
Que em quanto deſejey me vai ſeguindo,
O que tu ſo faras nam me fugindo?


Põeste da parte da desdita minha?
Fraqueza he dar ajuda ao mais potente:
Leuas me hum coração, que liure tinha?
Solta mo, & corroras mais leuemente.
Não te carrega eſſa alma tam mezquinha,
Que neſſes fios de ouro reluzente
Atada leuas? ou deſpois de preſa
Lhe mudaſte a ventura, & menos peſa?

Neſta eſperança ſo te vou ſeguindo,
Que ou tu nam ſofrerâs o peſo della,
Ou na virtude de teu gesto lindo,
Lhe mudarâs a triste & dura eſtrella.
E ſe ſe lhe mudar, nam vas fugindo,
Que Amor te ferirà, gentil donzella,
E tu me eſperarâs, ſe Amor te fere,
E ſe me eſperas, não ha mais que eſpere.

Ia nam fugia a bella Nimpha, tanto
Por ſe dar cara ao triste que a ſeguia,
Como por yr ouuindo o doçe canto,
As namoradas magoas que dizia:
Voluendo o roſto ja ſereno & ſancto,
Toda banhada em riſo, & alegria,
Cair ſe deixa aos pês do vencedor,
Que todo ſe desfaz em puro amor.


O que famintos beijos na floreſta,
E que mimoſo choro que ſoaua,
Que afagos tam ſuaues, que yra honeſta
Que em riſinhos alegres ſe tornaua:
O que mais paſſam na menhã, & na ſesta
Que Venus com prazeres inflamaua,
Milhor he eſprimentalo que julgalo,
Mas julgue o quem nam pode eſprimentalo.

Deſta arte em fim conformes ja as fermoſas
Nimphas, cos ſeus amados nauegantes,
Os ornão de capellas deleitoſas,
De louro, & de ouro, & flores abundantes:
As mãos aluas lhe dauão como eſpoſas
Com palauras formais, & eſtipulantes,
Se prometem eterna companhia
Em vida & morte, de honra & alegria.

Hũa dellas maior, a quem ſe humilha
Todo o coro das Nimphas, & obedece,
Que dizem ſer de Celo & Vesta filha,
O que no geſto bello ſe parece,
Enchendo a terra, & o mar de marauilha,
O Capitão illustre que o mereçe,
Recebe ali com pompa honeſta, & rêgia,
Moſtrando ſe ſenhora grande, & egregia.


Que deſpois de lhe ter dito quem era,
Cum alto exordio de alta graça ornado,
Dando lhe a entender, que ali viera
Por alta influiçam do imobil fado,
Pera lhe deſcobrir da vnida eſphera,
Da terra immenſa, & mar não nauegado
Os ſegredos, por alta prophecia,
O que eſta ſua naçam ſo merecia:

Tomando o pela mão a leua, & guia
Pera o cume dum monte alto, & diuino,
No qual hũa rica fabrica ſe erguia
De criſtal toda, & de ouro puro, & fino:
A maior parte aqui paſſam do dia
Em doçes jogos, & em prazer contino,
Ella nos paços logra ſeus amores,
As outras pelas ſombras entre as flores.

Aſsi a fermofa, & a forte companhia,
O dia quaſi todo eſtão paſſando,
Nãa alma, doçe, incognita alegria,
O trabalhos tam longos compenſando:
Porque dos feitos grandes, da ouſadia
Forte & famoſa, o mundo està guardando
O premio la no fim bem merecido,
Com fama grande, & nome alto & ſubido.


Que as Nimphas do Occeano tam fermoſas,
Thetis & a Ilha angelica pintada,
Outra couſa nam he, que as deleitoſas
Honras, que a vida fazem ſublimada:
Aquellas preminencias glorioſas,
Os triumphos, a fronte coroada
De Palma, & Louro, a gloria & marauilha
Estes ſam os deleites desta Ilha.

Que as immortalidades que fingia
A antiguidade, que os illuſtres ama,
La no estellante Olimpo a quem ſubia,
Sobre as aſas inclitas da fama,
Por obras valeroſas, que fazia,
Pelo trabalho immenſo, que ſe chama
Caminho da virtude alto & fragoſo:
Mas no fim doçe, alegre, & deleitoſo.

Nam erão ſenão premios, que reparte
Por feitos imortais & ſoberanos,
O mundo, cos varões, que esforço & arte
Diuinos os fizerão, ſendo humanos:
Que Iupiter, Mercurio, Phebo, & Marte
Eneas, & Quirino, & os dous Thebanos
Ceres, Palas, & Iuno, com Diana
Todos forão de fraca carne humana.


Mas a fama, trombeta de obras tais,
Lhe deu no mundo nomes tam eſtranhos
De Deoſes, Semideoſes immortais
Indigetes, Eroicos, & de Magnos
Por iſſo, o vos que as famas estimais,
Se quiſerdes no mundo ſer tamanhos,
Deſpertai ja do ſono do ocio ignauo,
Que o animo de liure faz eſcrauo.

E ponde na cobiça hum freio duro,
E na ambiçam tambem, que indignamente
Tomais mil vezes, & no torpe & eſcuro
Vicio da tirania infame, & vrgente:
Porque eſſas honras vaãs, eſſe ouro puro
Verdadeiro valor nam dão aa gente,
Milhor he merecellos, ſem os ter
Que poſſuilos ſem os mereçer.

Ou day na paz as leis iguais, constantes,
Que aos grandes não dem o dos pequenos,
Ou vos veſti nas armas rutilantes,
Contra a ley dos imigos Sarracenos,
Fareis os Reinos grandes, & poſſantes
E todos tereis mais, & nenhum menos
Poſſuireis riquezas merecidas,
Com as honras, que illuſtrão tanto as vidas.

E fareis claro o Rei, que tanto amais,
Agora cos conſelhos bem cuidados,
Agora co as eſpadas, que immortais
Vos farão, como os voſſos ja paſſados:
Impoſsibilidades não façais,
Que quem quis ſempre pode: & numerados
Sereis entre os Heroes eſclarecidos,
E neſta ilha de Venus recebidos.


FIM.