Os Retirantes/I/IV

Os Retirantes por José do Patrocínio
Primeira parte: a paróquia abandonada, Capítulo IV


A placidez do sono desdobrou-se-lhe por sobre os atos do dia.

De manhã o vigário levou a aconselhar fé e resignação aos seus vizinhos, que se mostravam aterrorados vendo o estio restituído à sua ominosa soberania, constringindo a vegetação com a força dos arrochos da jibóia. Mostravam-lhe o céu límpido, o sol triunfante, e ao longe as maçarandubas desfolhadas, com os galhos pendentes como os braços de um cadáver levantado pela cintura.

Não era mais possível a esperança; urgia tomar destino.

— Até junho, objetava ele, não há de que desesperar; não virão grandes chuvas, mas sempre darão para plantar vazantes de feijão e milho; já não se morrerá de fome. Haverá penúria, é verdade, porém maior castigo merecem os nossos pecados.

Foi dizer a missa muito sereno, e, cheio de bom humor, ouviu na sacristia as lamentações do velho sacristão, queixando-se de que os pobres já não podiam viver. Ainda ontem comprara rapaduras à pataca; hoje lhe pediram um cruzado, e era se ele quisesse, apesar de serem salobras. Comia-se já a farinha com parcimônia do mariscar dos pintos, e a carne estava pela hora da morte. Ainda o que lhe valia era algum dinheiro que o sr. vigário dava à sua afilhada; mas, se a seca não parasse, já estava prevendo que morreriam de fome.

O vigário consolava-o com bonomia: - A paciência é a maior das virtudes. De hora em hora Deus melhora.

Já a sair pela porta lateral, Paula teve um movimento brusco, e gritou para o sacristão:

— Ó Marciano! Pode começar a desarmar os andores e pôr os santos nos seus nichos.

— Então o sr. vigário espera...

— Sim, sim, havemos de ter inverno.

E saiu com o seu passo demorado e firme, dando a mão a beijar aos pequenos que iam para a escola, e, descobrindo-se ao vê-lo, corriam ao seu encontro como para um pai.

Na porta da venda do Antão Ramos, um sovina que se valia da sua autoridade de inspetor para cobrar dívidas, parou ao ver a rusguenta autoridade com um chapéu de palha à cabeça, mangas arregaçadas, vendendo aguardente a dois cabras.

— Bom dia, sr. inspetor - disse sorrindo. - Vai cobrar agora os fiados, hein? Felizardo! A vida é para você.

— Muito bom dia, sr. vigário... Mas eu não espero; o inverno não parece ainda vir desta.

— É por isto mesmo; a seca é o seu inverno; com ela chove-lhe mais em casa.

— Qual! Outros serão os felizes.

— Vá, vá chorando; lá diz o ditado: quem não chora...

— ... não mama - concluiu o inspetor Antão a rir e a endireitar as ceroulas, levantando-se em bicos de pés sobre os tamancos e pendendo-se ao umbral, para onde viera. - Antes falasse pela boca de um anjo, sr. vigário.

— Para que houvesse seca, hein?

— Não, senhor; para que me chovesse em casa.

— Tire o telhado, sr. cauíla.

Antão e os fregueses riram muito desse pedacinho do sr. vigário: muito boa saída.

— É assim às vezes - ponderou Antão. - Mas quando anda casmurro, não dá nem palavra.

— Mas é homem de repentiva - ponderou um freguês.

— Dizendo um sermão - acrescentou o inspetor - é de fazer tremer e chorar um homem. Danado! A gente nem se lembra do que rosnam dele com a filha mais velha do sacristão; chora mesmo para ai.

— Isto, quanto mais desabusados, mais temíveis.

O vigário, sempre no seu passo demorado e firme, continuou a andar pela mesma face da praça, até que parou a uma das janelas da casa de Queiroz.

Uma toada alegre escoava-se: era um uníssono de vozes infantis, cristalinas e ternas, solfejo do A, B, C, essa escala singela das grandes composições do gênio. Os meninos, sentados em longos bancos de pau, já muito gastos pelo tempo, faziam movimentos ocultos de desatenção, moviam os lábios, por detrás do livro aberto, em conversas rápidas, que terminavam às vezes por visíveis ameaças, tentavam beliscar-se, careteavam, mas a toada impulsiva dissolvia tudo isso, deixando apenas substituir o eco do alfabeto, da tabuada e das leituras do Catecismo e do Expositor, como um hino grandioso ao trabalho.

Ao fundo da sala, numa alta cadeira de braços, junto a uma grande mesa, em torno da qual assentavam-se alguns meninos escrevendo e fazendo contas em lousas negras, Francisco de Queiroz, dobrado o corpo numa curva ampla, proferia censuras aqui e gabos ali, maquinalmente, com o hábito de 22 anos de ensino. Os seus olhos negros, metidos numas órbitas muito fundas, que lhe tornavam as pomas ainda mais salientes, jorravam luz e confusão no espírito das crianças. A voz alteava-se-lhe com a severidade claustral dos velhos mestres, e sua mão desenvolvida, de quarentão reforçado, empunhava uma régua com movimentos nervosos de impaciência.

— Deus esteja nesta casa - exclamou o vigário. E como os colegiais se pusessem em pé: - Deus os abençoe; continuem a trabalhar.

— Entra, Paula, já vou lá ter - disse o professor.

O vigário atravessou a sala e entrou na de jantar, que ficava próxima.

As filhas de Queiroz trabalhavam também: as duas menores lendo muito atentas junto da mesa, Eulália e Chiquinha crivando em travesseirinhas vermelhas. Só a pequenita, a caçula, brincava sentada numa banca a ninar uma boneca, de vez em quando dirigindo a sua velha tia, que fazia renda ao pé de si, observações sobre a filhinha manhosa. Um desalinho asseado revestia da respeitabilidade do lar as pessoas e os objetos.

Paula cumprimentou-as com o melhor dos seus sorrisos, a receber beijos na mão grande e carnuda.

— Pensei que estava mal conosco - disse Eulália. - Não quis vir tomar café ontem.

— Ah! Sim, ontem estive doente; os miolos estalavam-me; não sabia o que dizia; fiquei quase doido.

— Pareceu-me que o sr. vigário padecia desde a tarde, antes da procissão.

— Antes, muito antes; adoeci lá no Engenho; aquele espetáculo. .

— Pois nós todos gostamos e muito - interveio Chiquinha.

— É verdade, faz medo, mas é bonito - acrescentou Eulália. - Hei de ir sempre ver.

— Quem vai a senhora ver? - disse Paula fingindo-se distraído.

— O Feiticeiro.

— Não vale a pena o trabalho: feiticeiros encontra-os a cada canto.

O vigário refreava-se, mas nem por isso a inflexão da sua voz passou despercebida para Eulália, que levantou os olhos das suas carreiras de crivo, e fitou-o penetrantemente. A dissimulação, porém, fechou de todo o pensamento do vigário no incompreensível, e Eulália, sorrindo maliciosamente, calou-se.

A conversação travou-se então entre o vigário e d. Ana, a respeito da seca, e Paula profetizou como irredutível o tremendo flagelo.

— Vai ser um ano de penúria e de fome. Não há que ver, julgue por hoje: são dez horas, e o sol já queima como brasa; olhe para tudo e note: as árvores têm o ar de quem se despede.

— Mas Deus é piedoso, sr. vigário - disse a boa da velha com a sua voz de apática; - ele há de ouvir os nossos rogos.

— Ouvir?! Para isto era preciso que não o fizessem surdo com os pecados; mas não é assim infelizmente. Nem junto ao andor da Virgem Mãe de Deus, d. Ana, nem aí há respeito pela religião!...

— Ah! Sr. vigário, é um doido, um endemoninhado.

— Não é dos doidos que falo, é dos que têm juízo.

Eulália corou como se fosse ré, ao passo que suas irmãs e a velha d. Ana encararam o vigário e olharam-se mutuamente, enquanto Paula regozijava-se com o efeito da sua perversidade. Tinha ferido fundo, a julgar pelo espanto geral e a mudança rápida de Eulália. E então aquela alma ulcerada pelo despeito, com a autoridade da hipocrisia respeitada, sedenta de vingança, gulosa de crueldade, repetiu solenemente:

— É o que lhes digo, junto do andor da Mãe de Deus falta-se com o respeito à religião!

Eulália continuou com a cabeça baixa; o moreno corado das suas faces tomou um colorido ictérico, os olhos arrasaram-se-lhe de lágrimas, a sua respiração começou a fazer-se a longos haustos, e a força de dissimular o que sofria quase a obrigou a dar um grito. Sentia ódio e desprezo pelo vigário, e, encarando-o sorrateiramente, mostrava que a impelia o desejo de esbofeteá-lo, calcá-lo aos pés como um inseto asqueroso. Aquelas palavras, que lhe eram dirigidas, tinham a hediondez da calúnia, a frieza da infâmia, a perversidade calculada da cobra, que se enrodilha nas moitas da estrada para morder o caminheiro. Queria visivelmente ofendê-la, torturá-la, infamá-la. Se não fosse esta a verdade, por que lhe regateara um lugar sob o andor de Nossa Senhora, e, só no dia em que de mau humor lho dera, lembrou-se de que faltava-se com o respeito à religião?!

— E hão de crer que é uma das pessoas mais queridas do lugar? - ponderou o sacerdote. - Muito pode o pecado!

O silêncio dos ouvintes era profundo; com a cabeça inclinada sobre os seus trabalhos parecia procurarem adivinhar quem seria esse ente perverso. Por fim a velha d. Ana, com a sua voz muito cantada, abanando a cabeça, disse:

— Não pode ser, sr. vigário; foi por força engano de quem contou-lhe; na procissão de ontem, foi engano por força.

— Não... eu vi - respondeu Paula tranqüilamente - com estes que a terra há de comer.

E arregalou os olhos abaixando as pálpebras inferiores com a ponta dos dedos.

Um sorriso vitorioso pairou-lhe nos lábios. O despeito da véspera esmagou-lhe o coração, sugou-lhe o que lhe restava de puro; abismou-o em torturas cruas, inquisitoriais. Todas as fúrias do ciúme tinham-se levantado de improviso diante de si, e umas apunhalavam-no enquanto outras riam; umas lhe mostravam uma câmara nupcial, com um par feliz, tímido da própria liberdade, com medo do seu direito suave subterfúgio para prolongar a ventura; outras para vilipendiá-lo, para zombar dos ímpetos do seu amor ultrajado, levantavam um crucifixo entre os seus e os olhos do noivo, e o Cristo assumia então um tamanho disforme, enchia com o seu peito o resto do aposento, como se lhe quisesse dizer que, para chegar até os noivos, ele, sacerdote, seu ministro, havia primeiro de atirá-lo em terra sacrilegamente. Então como que se sentia morrer, enquanto que nos braços do seu rival Eulália deixava-se afagar sem resistência. Vingava agora a sua noite de angústias; estavam agora trocados os quadros dos seus pesadelos; ele podia rir, olhar em face, ao passo que ela baixava os olhos como culpada, e não ousava rir, porque sabia que o seu riso acabaria em lágrimas.

Deu-se por satisfeito; o seu quarto de hora matinal, consagrado ao amigo, estava aproveitado; podia partir.

— Bem, bem - disse ele -, não posso demorar-me; vou almoçar; até logo!

Passando junto à mesa, parou um pouco e, inclinando-se sobre as pequenas que escreviam:

— Sim, senhoras - resmungou -, estão com umas letras muito bonitas, parecidas com as donas.

— Então o que é isto? Vocês conversam calados ? - disse o professor assomando à porta da sala. - Parece que estão fazendo quarto a defunto

— Ficaram admiradas de um sacrilégio que lhes contei.

— Ora você, padre-mestre, não há de perder este sestro de me pregar sermões em casa, homem? Quer converter isto em ninho de beatas?! Até Eulália já parece inclinada!

— Quais beatas, se elas são suas filhas ?

Gratias agamus Domino Deo nostro - respondeu Queiroz, curvando-se e batendo no peito com grande força; - dignus et justus est.

Riram-se todos; o próprio vigário sorriu meneando a cabeça. Eulália, porém, não mudou de atitude, e, ela que era a mais expansiva, conservou-se calada e indiferente.

— Estás sentindo alguma coisa, minha filha? - perguntou Queiroz, suspendendo-lhe a cabeça por uma pressão carinhosa sobre a testa.

— Eu? - respondeu ela, fitando-o tristemente. E sufocou-se numa explosão de soluços.

— Vê? - observou Queiroz ao vigário. - O seu sermão fez-lhe mal.

— Ora, uma história à-toa; há de ser nervos.

E saiu com o seu passo firme e pausado.