Os Retirantes/I/XVIII

Os Retirantes por José do Patrocínio
Primeira parte: a paróquia abandonada, Capítulo XVIII


A morte de Queiroz não desviou Paula de seus hábitos. Nessa mesma manhã disse com muita unção a missa de Santo Antônio e depois acompanhou até o cemitério o cadáver do amigo com o mais solene recolhimento.

Isto produziu um ótimo efeito na paróquia. Decididamente haviam-se todos enganado; o sr. vigário era um homem exemplar, amigo do seu amigo, desvelado pelos infelizes.

Quando o viam de manhã passar para a igreja e à tarde para o Engenho, diziam:

— O hábito não faz o monge; quem o vê tão seco está longe de saber que jóia é o seu coração.

Passaram assim mais de quatro meses de triunfos para o chamado pai dos pobres, que, apesar de todas as atenções públicas, nunca mostrava a fisionomia desassombrada, e até, pelo contrário, parecia agora mais carrancudo do que nunca.

Por uma das manhãs de outubro, o vigário estava debruçado à janela da sacristia, quando ia passando Augusto Feitosa.

— Muito bom dia - disse o vigário; - como vai o seu negócio?

— Na mesma, infelizmente; o malvado já não está no Aracati.

— Há de ser isto que o anda ralando; está tão desfeito!

— Há de ser isto mesmo - respondeu Augusto contendo um suspiro. - Eu daria um conto de réis a quem descobrisse onde pára aquele miserável.

— Eu, nas suas condições, já o tenho dito muitas vezes, entregava-o à justiça de Deus. Está pobre como Jó, e isto o deve ter castigado bastante. Perdoava-o pela filha...

— Eu penso às vezes nisto; mas enquanto ele existir, diz-mo a consciência, a filha será sempre infeliz. Separá-los seria uma obra de caridade.

— São modos de entender.

Marciano, que andava a espanar a sacristia, parou para ouvir a conversa e repetiu, deixando cair o pano:

— Um conto de réis! Sempre era alguma coisa para um desgraçado.

— Não, sr. vigário, eu não posso perdoar aquele monstro - continuou Feitosa -, castigo a sua covardia como ele merece... Até logo, vou para a venda do Ramos; estou na minha semana de comissão.

E afastou-se.

— É um doido - disse o vigário deixando a janela e vindo sentar-se na sua cadeira de espaldar. - Ouviu o que ele disse, Marciano?

— Alguma coisa, sr. vigário, e se não tivesse as pernas já tão cansadas...

— Ia ganhar o conto de réis. Mas teria de perder o emprego aqui, porque a freguesia não havia de ficar sem sacristão.

— O emprego para nada serve, quase; lá em casa é que se pode ver quanto valem os chorados vinténs, que me dão.

— Sempre é mais do que nada, Marciano.

— Eu não queria falar nisso, porque enfim o que tem de ser tem muita força - continuou, animando-se, o velho sacristão.

— Ah! então você tem alguma coisa a falar?

— O sr. vigário bem sabe que, no dia em que eu falar, tenho muito a dizer.

— Você não se quer convencer do seu papel, homem! - replicou severamente o vigário; - há de se arrepender.

— Paciência; eu não hei de sofrer sozinho.

— Ah! você quer ameaçar-me? Tem graça! Ouça pela última vez: você anda-me sempre a dizer coisinhas, e eu não estou mais para aturá-lo.

— Não importa, não, sr. vigário: a minha filha mais velha lá está que ninguém a conhece mais. A outra... anda com a cabeça virada; é todo o dia uma barulhada em casa.

— É a educação que você lhes dá. Cale-se que está fazendo-me nojo.

— Não foi assim, quando o sr. vigário abusou da minha pobreza.

Paula teve um movimento brusco de indignação, pôs-se de pé, e fitando desdenhosamente o sacristão:

— Você até enxovalha a Igreja... Se eu não tivesse pena das suas filhas, hoje mesmo o despedia. Miserável!...

Marciano calou-se e continuou no seu serviço, até que de casa o mandaram chamar para almoçar. O desprezo do vigário pungia-o profundamente, porque a consciência o recebia como justo, e o velho sacristão não podia resistir ao remorso que sentia de ter aberto demais as portas de casa à necessidade de ganhar o pão. Força era tomar alguma deliberação, que o salvasse da situação desesperada que se antolhava, e o velho tomou-a.

— Viram lá em casa passar o sr. vigário?

— A mana - respondeu o pequeno que tinha vindo chamar o sacristão.

— E ele não falou?

— A mana disse que ele nem olhou.

— Vai: eu me demoro ainda um instantinho.

Quando o pequeno retirou-se, Marciano fechou as janelas e a porta da sacristia; dirigiu-se para o corpo da igreja, ajoelhou-se diante do altar da Senhora da Piedade e, depois de uma curta oração, fechou a porta principal. Quando saía, viu na praça Augusto Feitosa, que vinha da casa do inspetor. O velho sacristão apressou-se em ir ao seu encontro e, descobrindo-se, apertou-lhe a mão.

— Sabe que eu vou deixar a freguesia, sr. Feitosa?

— Eu também não fico por aqui muito tempo; é o que devem fazer todos.

— No Ceará há de se viver melhor.

— Certamente, muito melhor; há maiores recursos.

— Eu levo uma esperança mais: é a palavra de Vossa Mercê sobre quem descobrir onde está Rogério Monte.

— Pode contar com ela - respondeu Feitosa, principalmente... se Irena ainda viver.

Separaram-se, e o velho Marciano caminhou para o seu casebre, a cuja porta esperava-o a formosa Mundica.

— O que foi que lhe aconteceu? - perguntou a moça, vendo as feições demudadas do pai. - Está doente?

Marciano não respondeu, entrou e foi sentar-se à mesa, a olhar para o prato que tinha diante de si. As filhas sentaram-se taciturnas em torno da mesa, e a velha mulher de Marciano dirigiu-lhe então a palavra.

— O que tem você? Já custa à gente a levar o bocado e ainda por cima tristezas!

— Quer saber de uma coisa? - respondeu por fim o sacristão. - Eu não posso mais aturar o vigário.

— Todos têm gênio, meu pai - ponderou timidamente Mundica: - o sr. vigário há de voltar de novo às boas.

— A conversa não é com você - replicou rudemente o velho -, meta-se com a sua vida, e não queira sujar-me ainda mais. Tivesse você vergonha, que não falaria mais nesse homem.

— Nós comemos o que ele nos dá...

— Pois não comeremos mais: fique-se você com ele, nós vamo-nos embora para o Ceará.

As últimas palavras de Marciano encheram de estupor os circunstantes. O cearense prefere a penúria a abandonar o torrão natal. Só quando a fome bate-lhe inexoravelmente à porta, quando a cova escancara-se-lhe aos pés de modo que o menor passo no solo do seu berço despenhá-lo-ia para sempre nessa pavorosa garganta, cheia de mistérios e de assombros, o desgraçado despede-se das suas charnecas, da sombra das suas carnaubeiras e vai pedir um abrigo nas terras do exílio.

— Como fazer essa viagem, Marciano? - perguntou a velha mulher. - Era o mesmo que nos condenar a morrer a fome.

— Antes isso; não quero mais comer daquele homem. O dinheiro, que ele manda para... a sua afilhada, não passará mais pelas minhas mãos. Receba-o quem quiser.

— Faça o que quiser: eu não vou - resmungou Mundica, esfregando desdenhosamente as mios.

— Você, eu sei que fica, ainda que seja como alugada de Eulália para receber-lhe o filho nas mãos.

— Talvez - respondeu a filha, mordendo fortemente os lábios. - Havemos de ver.

O velho sacristão levantou-se e deu algumas passadas para sair, porém Mundica saiu ao seu encontro, e com os olhos rasos de lágrimas, abraçou-o suplicante.

— Não fique mal comigo - disse humildemente -, eu vou também; não quero mais ficar aqui, para ser desprezada por amor daquela perdida.

— Faça o que entender, filha; eu não tenho direito para fazer coisa alguma contra si, fui fraco; se quiser seguir-nos, venha; se não, fique.

— Eu irei também, não quero mais ficar.

Marciano, seguido por Mundica, chegara até a porta do casebre e aí parados trocavam palavras que revelavam a mútua torpeza, quando pela frente da cerca passou, andrajoso, descabelado, resmungando a sua perpétua queixa, o mísero Joaquim Maluco.

— Olhe o que fazem os padres - disse o sacristão. - É o futuro que o vigário me preparava.

— Eu hei de vingar-nos, meu pai; deixe ficar por minha conta.

O velho sacristão tomou para a casa do vigário, vagarosamente, a deter-se de quando em quando, como quem hesita.

A casa da família de Queiroz ficava em caminho, muda, sem as cantilenas da meninada do povoado, que havia emigrado para sempre da sala das aulas. Os bancos enfileirados, como outrora, a grande mesa da escrita, onde o sol da manhã depunha uma pasta de luz, tinham, no silêncio que lhes envolvia o conjunto, a majestade das ruínas.

Marciano parou na soleira da porta, entrecerrada e, sacudindo a cabeça, enviou ao interior a saudação do uso:

— Deus esteja nesta casa.

— Entre, sr. Marciano - respondeu da saia de jantar a voz de d. Ana.

— Com licença.

Descobriu-se e entrou até a sala de jantar, que nada perdera da ordem dos bons tempos, exceto a alegria; as duas meninas liam junto à mesa, a caçula brincava, d. Ana e Chiquinha costuravam. Havia, porém, uma banquinha vazia ao lado das costureiras, e dela como que se irradiava maior tristeza sobre os cinco entes vestidos rigorosamente de luto. A falta de Eulália naquela comunhão do trabalho abria um vazio impreenchível com a alegria perdida.

— Como? - perguntou Marciano, depois de cumprimentar a todos. - A d. Eulália ainda na mesma?

— Coitada! - respondeu d. Ana -, desde que perdeu o pai tem estado sempre doente.

— E não se pode atinar com a moléstia?

— É moléstia que não tem cura: está assim a modo de apatetada.

— Eu já tive a minha Mundica assim, vai para quatro anos.

— E agora veio-lhe uma salivação muito grande: onde ela está faz-se um açude; além disso estão a inchar-lhe muito os pés.

Eulália apareceu à porta do seu quarto. Era apenas uma sombra da própria formosura; o rosto moreno e carnudo tornara-se magro e ictérico; a altivez virginal do colo transformara-se no mole arredondado das formas profanadas; a mobilidade graciosa dos gestos mudara-se nos movimentos relaxados dos apáticos. De todo o passado de sua beleza restava apenas a bondade do olhar, que lembrava o florescimento da vida de outrora com tristeza igual à da vegetação brava sobre ruínas majestosas.

— Veja-a - continuou d. Ana -, aquela é a nossa Eulália.

A boa da senhora enxugou com a ponta dos dedos as lágrimas, que lhe marejaram com a espontaneidade do sentimento, enquanto Eulália caminhava para junto da mesa e assentava-se em frente a Marciano.

— Ora valha-me Deus - exclamou o sacristão, depois de ter cumprimentado Eulália -, como está desfeita!

— Eu tenho esperança de que isto não há de durar muito - murmurou Eulália. - O sr. vigário diz-nos sempre que a moléstia não é coisa de cuidado.

— Eu penso do mesmo modo.

— Diga-o por favor à minha tia - sorriu tristemente; - a ela já se lhe afigura que estou morta.

— Qual morta! - exclamou o sacristão, sorrindo e sacudindo vagarosamente a cabeça. - A senhora tem vida para dois. Olhe, estamos em outubro, e o nosso bom velho Queiroz morreu em junho, na véspera de Santo Antônio. Eu lhes digo - e pôs-se a contar pelos dedos - temos julho, agosto, setembro, outubro, novembro, dezembro, janeiro, fevereiro e março; nove meses. Em março está com certeza boa ou, muito tardar, em abril.

D. Ana deixou cair a costura - pregou maquinalmente a agulha na travesseirinha e, depois de fitar o sacristão, ficou a encarar com Eulália, que descerrou impassível o seu sorriso de hipocondria.

— Bom doutor - disse a infeliz -, diz até o mês certo da cura; o senhor há de dar-me remédios.

— Ah! - exclamou o sacristão - não é preciso ser grande doutor para conhecer algumas doenças. Quando eu era mais moço, via a minha velha de dois em dois anos padecer da mesma coisa; mas no fim dos nove meses estava sempre boa.

Marciano prolongou uma risada roufenha, ao passo que d. Ana, levando as mãos ao rosto, abaixou a cabeça até encostá-la na travesseirinha.

— O que tem, minha tia? - perguntou Eulália surpreendida.

E dirigindo-se a Chiquinha acrescentou:

— Veja o que é que tem nossa tia?

— Eulália - soluçou d. Ana -, eu e seu pai fomos sempre honrados. Basta de fingimento.

— Mas o que fiz eu, santo Deus? - interrogou perplexa.

— Em que lhe ofendi eu, minha tia? Diga-me o que fiz, sr. Marciano; tenha dó de mim!

— Eu?! - respondeu tranqüilamente o velho. - Não posso dizer nada; isto é lá entre as senhoras... D. Ana - acrescentou ele depois de uma breve pausa, durante a qual acercara-se da boa velha -, eu não vim aqui para vexá-la; perdoe-me.

No meio da perplexidade das moças e das crianças, retirou-se o sacristão com ar satisfeito e, ao passar o limiar da sala das aulas, resmungou:

— São umas pobres de Deus; mas não importa, sofram também, porque eu preciso desforrar-me daquele patifão.

Seguiu até o fim da praça e entrou na casa de Paula. A submissão da sua voz não denunciava nem longinquamente a extensão das suas intenções hostis.

O vigário recebeu-o com o semblante repassado de bonomia e, batendo-lhe amigavelmente no ombro, disse-lhe com um sorriso piedoso:

— Então voltou às boas, hein? Está a fazer-se criança depois de velho.

Um lampejo de esperança fuzilou no olhar do sacristão.

— É que Vossa Mercê já não aparece, e a gente estava acostumada a vê-lo sempre por lá. Não imagina como tem passado a Mundica estes dois meses.

— Mas eu não desapareci de todo, nem alterei nada do que fazia.

— Sim, senhor; mas a rapariga vê sempre Vossa Mercê na casa da d. Ana.

— É que tenho de cuidar daquela gente como se fosse pai.

— Depois já rosnam por aí que a moléstia da moça...

— Desembuche, ande, homem! O que é que dizem?!...

— ... há de acabar lá para março.

Marciano, que havia abaixado os olhos hipocritamente, olhou de soslaio para o rosto perturbado de Paula, que, buscando debalde dissipar a sua comoção, tartamudeou:

— E por que em março?

— É quando pouco mais ou menos fazem os nove meses.

— Mas é uma canalhada difamar assim uma família! -gritou o vigário aprumando-se colérico. - Desta maneira nem a Virgem Maria passaria por honesta neste maldito lugar!

— É, fala-se muito, sr. vigário: mas neste caso basta a gente ter olhos e ouvidos.

— O que diz?

— Eu acabo de ouvir a sra. d. Ana dizer que a rapariga está a cuspir muito e traz os pés muito inchados...

— Oh! que estúpida que é aquela mulher.

— Veja agora Vossa Mercê: a Mundica sabe dessas coisas; Vossa Mercê não aparece lá, passa os dias inteiros na casa de d. Ana... por força a minha pobre filha há de sentir-se.

— Mas o que hei de eu fazer? abandonar a família do meu amigo? desprezá-la à miséria?

— É verdade que o peso de duas casas...

— Ouça, Marciano; você é pai e deve saber quanto dói a desonra de uma filha, a difamação de uma pobre moça. Diga a todos que é falso, que é uma calúnia, que esse povoado é um ninho de miseráveis.

— Perdoe-me, sr. vigário, eu não posso dizer ao contrário do que sinto.

— Quer tirar a desforra de hoje pela manhã, hein, meu brejeiro? - disse o vigário, batendo no ombro de Marciano e tentando mostrar-se alegre e perspicaz. - Pois está desforrado... tem mais dez mil-réis de ordenado.

— Muito obrigado a Vossa Mercê, mas eu com isso não posso dar à minha filha a alegria que ela perdeu.

— Estou hoje muito seu amigo, Marciano; faço-lhe mais outra vontade: irei todos os dias à sua casa; serve assim?

Marciano meneou humildemente a cabeça e resmungou:

— Por mim estava tudo concluído, mas a pobre Mundica é mulher, e quer que não se fale mais do sr. vigário com a filha do professor. Ora Vossa Mercê não há de estar pelo trato de não ir mais a casa de d. Ana...

— Não, miserável, não estou! - bradou Paula com arrebatamento. - Suma-se, e diga àquela desavergonhada que não quero mais vê-la.

— Às ordens do sr. vigário - responde o sacristão; - mas eu também não quero o aumento de ordenado: para viver triste chega o que tenho.

Marciano afastou-se e, ao sair, à soleira da porta da sala, inclinou-se diante de Paula, submissamente.

Este ficou tomado de medo, e quis chamar a si o velho sacristão.

— Então você quer por força ficar meu inimigo, Marciano? - disse ele. - Já não se pode mais caçoar consigo, hein ... Entre para cá, diga-me que diabo de estralada foi essa que meteram na cabeça de Mundica.

Marciano conservou se no limiar, com os olhos baixos, e Paula, contendo a irascibilidade natural, aproximou-se e puxou-o brandamente para dentro.

— Você há de continuar, por força, meu amigo. Você é o único que pode lavar a honra da pobre Eulália, e não há de contribuir para perdê-la.

— Tomo a Deus por testemunha, murmurou o sacristão.

— Faz muito bem - ponderou o vigário sacudindo-o carinhosamente pelos ombros -, você ainda não fez penitência por ter dado demais com a língua nos dentes a respeito do Monte.

Marciano estremeceu violentamente e tentou libertar-se das mãos do vigário.

— Veja continuou este - a consciência como o acusa. Ah! ninguém pode fugir a este juiz!

— Eu disse apenas o que o sr. vigário me disse.

— Mas o grande caso é que o homem foi obrigado a fugir daqui.

— Pois bem, eu farei a vontade ao sr. vigário: vou contar ao sr. Augusto Feitosa o que se passou. Eu vou já.

Paula segurou violentamente nos ombros do velho Marciano e, sacudindo-o com brutalidade, encarou-o longamente, obrigando-o a encolher-se todo trêmulo. Demudaram-se-lhe as feições; os olhos injetados de sangue saltaram-lhe à flor das pálpebras. Dir-se-ia que ele tinha visto derruir-se em globo todos os seus cálculos. A justificação de Monte seria a desgraça, porque teria como conseqüência a intimidade de Eulália e de Irena, e tal intimidade poria em relevo a perfídia do seu procedimento. Facílimo seria então a Irena reunir confidências que necessariamente tiveram, e descobrir por elas, sem que Eulália o insinuasse, o verdadeiro autor do crime contra Feitosa. Agitado por semelhante pensamento, Paula sentiu ímpeto de esmagar o sacristão, esse velho decrépito, a quem julgava seu escravo, e que de repente insurgia-se ameaçador e poderoso.

— O que tem você com Rogério? - bradou convulso. - Fez-lhe algum benefício? Estima-o porventura?

— Não, mas eu ofendi-o e quero reparar a minha falta. Mas se eu digo que foi ele, que só ele podia pensar em assassinar Feitosa! qual é a sua falta?

— O sr. vigário diz também que Eulália não está pejada.

— Mas se eu não sei se é verdade ou não, filho!

— Não, sr. vigário, a pobre moça teve uma falta - respondeu o sacristão, com acentuação sincera - mas eu a conheço muito: não a teve senão com Vossa Mercê.

— Pois seja, seja assim! Você também é pai, e diga-me: se lhe dissessem que abandonasse o seu filho, você o que faria?

— Eu?! puno os direitos de minha filha.

— Mas se eu lhe dissesse que a abandonasse?

— Não o faria; ela é minha filha diante de Deus; não posso negá-la.

— Então o filho de Eulália não tem direito ao mesmo amparo?!

— Não sei, sr. vigário, eu só devo zelar os meus.

— Mas, que direitos, diga, que direitos tem Raimunda sobre mim? - bradou o vigário, possesso de raiva. - Era uma mulher perdida!

— É verdade - resmungou Marciano -, ela não tem direitos... nem os quer.

Ficaram ambos calados por algum tempo, até que o sacristão pronunciou pela segunda vez:

— Às ordens do sr. vigário!

Paula, como se fosse tomado de um acesso de loucura, pôs-se a rir, e apontando para o velho Marciano, que o olhou assombrado:

— Caiu! - exclamou ele. - Pensou que eu falava sério - ... Besta que você é! Não vê que ninguém pode esquecer Mundica por uma pobre mosca morta? ... Ah! ah! Ah!... Sinto-me alegre; fiz uma experiência e agora vejo que sou amado. Diga à Mundica que eu não torno mais a casa de Eulália.

— Sério, sr. vigário? - perguntou, boquiaberto, o sacristão.

— Aperte esta mão, meu velho; reconheço agora que você é um grande amigo.

E apertaram-se estreitamente as mãos.