Os Retirantes/III/X

Os Retirantes por José do Patrocínio
Terceira parte: a capital, Capítulo X


Uma semana depois dos sucessos que deixamos narrados uma grande modificação havia-se operado na infeliz Eulália.

A família Queiroz, deixando o abarracamento, ficara completamente desamparada e reduzida a morar como tantas outras sob os cajueiros das vizinhanças dos abarracamentos.

Tinha entrado o ano de 1878, e uma reviravolta política, mudando no governo as idéias políticas, dera em resultado na administração da seca os mais funestos resultados. O presidente da província havia pedido a sua exoneração porque não tinha confiança nem podia inspirar confiança ao novo governo.

Tinha razão de sobra para fazê-lo. O partido que acabava de subir amargurara indescritivelmente na província a alma do honrado ex-administrador, que se viu atassalhado nos pontos os mais sensíveis do seu melindre particular e público.

Pedida a exoneração, o presidente limitou-se a conservar o que já havia feito, mas não se julgou autorizado a continuar no trabalho de organização do serviço, a qual exigia que a autoridade central emprestasse à provincial toda a força.

Esta parada causou males incalculáveis. A mortandade atingiu a um número fabuloso, expressado talvez pela metade, se tanto, nas estatísticas oficiais.

Multiplicaram-se os quadros horrorosos que formaram a feição predominante nesta fase histórica da província. Debaixo das árvores, onde o arbítrio dos abarracamentos havia transbordado os infelizes, desdobravam-se cenas as mais compungentes. A morte era a menos horrorosa de todas elas.

O leilão da honra tornou-se um fato comezinho entre os desgraçados. Os maridos, os irmãos, os pais acossados pela fome entregavam esposas, irmãs e filhas à libertinagem a mais desenfreada, para dela tirarem a subsistência. A prostituição, esta nódoa que outrora não se lavava nunca mais aos olhos do povo sertanejo, tomou-se uma coisa comezinha, a respeito da qual não se discutia.

No meio da onda geral de perdidas que inundava a cidade, aparecia agora a mísera Eulália.

Depois do insulto cruciante de Paula, ela voltara a correr como doida após a sombra da sua família, perdida no meio da espessa mó que atulhava a capital.

Felizmente para a desventurada, d. Ana, impelida pelo temor de que o comissário, para tomar vingança, a perseguisse, fora parar na extremidade da cidade, oposta àquela em que estava o abarracamento T...

O lugar em que d. Ana parara, vizinho ao abarracamento de M., ficava justamente do lado em que está situado o palácio do bispo, em frente ao qual Eulália se achava quando pôde medir toda a extensão da perversidade do padre Paula.

O primeiro pensamento que ocorrera a Eulália foi atirar-se ao mar: a morte apareceu-lhe como o último desforço, porque dela sobreviria a Paula o remorso.

Caminhou, portanto, para o lado do mar, porém em meio caminho lembrou-se da caçula, do estado precário de d. Ana e das outras suas irmãs, e arrependeu-se.

Quis viver para elas e para a sua vingança. Tinha certeza de que as havia de encontrar e esperava que Feitosa tomaria sobre o vigário uma desforra exemplar.

Caminhou direito ao abarracamento de M., guiada por um pressentimento inexplicável; aí se encontrou com o administrador, um velho a quem a seca arrebatara a maior parte da família e da fortuna, mas em cujo coração deixara, para compensar, um sentimento profundo de compaixão pela desventura alheia.

Neste abarracamento, regularmente montado e dirigido por um engenheiro e um médico, cujos nomes a Província do Ceará há de saber lembrar e honrar, Eulália achou uma indicação mais ou menos exata acerca de d. Ana, indicação que o espírito dedicado da moça prontamente completou.

Duas horas depois da sua chegada ao abarracamento, sob um cajueiro, Eulália abraçava Chiquinha e suas irmãs, e podia desafogar as lágrimas que por tanto tempo entesourara para aquele encontro.

D. Ana, porém, recebeu-a friamente e com um escrúpulo visível.

— Bem - disse Eulália -, agora, reunidas todas, podemos ganhar para viver e procurar descobrir Irena e seu velho pai.

O Feitosa deve estar também na cidade.

D. Ana desfez logo o sonho dourado de Eulália. Chamou-lhe a atenção para o estado precário de Chiquinha e das outras meninas e depois de lançar em rosto a Eulália o seu bem-estar relativo, respondeu friamente:

— Vocês podem ficar aqui todas juntas; é mesmo mais razoável, porque Eulália já sabe os meios de ganhar dinheiro sem trabalho. Eu, porém, estou velha, não viverei muito, não quero torturá-las; retiro-me para bem longe.

Em vão Eulália, ferida pelas palavras severas de d. Ana, procurou inspirar-lhe confiança afirmando-lhe que só viveria do seu trabalho; d. Ana não se demoveu.

— Eu não posso ficar no mesmo lugar em que estiver a filha que desonrou o nome de meu irmão. Ou você ou eu.

Diante do dilema fatal, o bom senso de Eulália resignou-se a retirar-se e deixar as irmãs sob a vigilância da honrada senhora.

De resto das suas extremas economias, a carteira que lhe fora dada por Virgulino conservava ainda vinte e tantos mil-réis, de cinco dos quais ela serviu-se para arranjar um casebre para a família, a título de oferecimento de umas vizinhas.

Dentro em poucos dias a carteira esgotara-se pelas dádivas clandestinas de Eulália à família que hospedava d. Ana.

A velha senhora, Chiquinha e as irmãs trabalhavam corajosamente, mas o resultado do trabalho de uma semana mal dava para alimentarem-se três dias. Eulália, reduzida à mais extrema penúria, dormia ao relento, e já começava a sentir os bárbaros efeitos da miséria.

Um dia dirigindo-se à família com quem tratara a hospedagem das parentas, ouviu uma tremenda ameaça.

— Há duas semanas já que a senhora diz sempre que trará alguma coisa e nunca nos traz nada; deste modo não é possível continuar a estar aqui a sua gente. Esperamos mais oito dias, se neste prazo não nos pagar tudo..

— Não acabe - exclamou Eulália soluçando -, eu sei já.

— É o último recurso. Olhe, não tenha medo, as suas duas irmãs são bonitas e viverão bem.

Eulália saiu como alucinada. Tudo quanto possuía era a ração da comissão de prontos socorros, que conseguira para os seus, e que só podia receber incertamente. Este recurso portanto não bastava para garantir a vida e a honra de suas irmãs e estas ver-se-iam necessariamente obrigadas à perdição.

Batida por esta previsão medonha, Eulália vagou o dia inteiro e à noite ainda se achava em uma das ruas da cidade. Prendia-a às calçadas um pensamento mau - a perdição; entregar-se ao primeiro que passasse em troca da honra de suas irmãs, e quando a consciência lhe bradava que não, o amor a aconselhava que fosse por diante, que não temesse o sacrifício.

Extenuada de cansaço, faminta e sedenta, sentou-se a uma porta, na qual havia batido pedindo um pouco de água.

Uma mulher abriu e apresentando-lhe o copo convidou-a a entrar depois de fitá-la atentamente.

— Entre, minha filha, entre, deve estar muito cansada, e é bom descansar um pouco.

A amabilidade educada da mulher surpreendeu agradavelmente a extenuada Eulália. Estava acostumada ao contrário. Levada na vaga das outras retirantes, havia por vezes parado diante dos hotéis, onde em mesa lauta os pensionistas almoçavam à farta. Às vezes via aqueles cruzarem os talheres sobre os pratos, tendo apenas tocado nas comidas. Os retirantes levantavam a voz pedindo-lhes os restos e por única resposta tinham os gestos brutais dos criados, que vinham fechar grosseiramente as persianas. Em um desses hotéis dois cães enormes, acorrentados na área, comiam em grandes tinas, e a fartar, esses restos tão cobiçados.

Bebido, pois, o copo de água, Eulália fitou agradecida o rosto da sua hóspede e arrancou um íntimo obrigada.

— Sente-se agora um bocadinho para descansar - disse-lhe a mulher: - está a pôr a alma pela boca.

Nessas palavras transpirava um agasalho maternal e o semblante prazenteiro, desnublado da hóspede o secundava com uma bondade evangélica.

Eulália, sentando-se, pôs-se a reparar no todo da mulher, trintona de ar nobremente altivo, vestida com o esmero provinciano, com um olhar quebrado, transbordando de umas pálpebras túmidas e roxeadas; os lábios tinham um sorriso permanente.

Em seguida a observação caiu sobre a sala, cuja mobília, sem denotar riqueza, tinha a decência suficiente para mascarar a pobreza.

— Vejo que não é daqui da capital...

— Não, minha senhora, sou do sertão e acho-me aqui trazida pela calamidade que o afligiu.

— E não tem família ...

— Tenho e é ela quem me faz sofrer mais...

— Santo Deus ! Então leva uma vida de torturas...

— É verdade, minha senhora; uma vida cruel, porque não encontro trabalho.

— É dificílimo agora; não obstante ainda há meios de se viver decentemente...

— Eu não o tenho achado...

— É que não encontrou ainda proteção. A senhora é moça, bonita, simpática...

Eulália sorriu, com essa espontaneidade que é natural na mulher, quando elogiada, e replicou:

— Mesmo que fosse assim, nada disto dá o sustento.

— Conforme...

A conversação suspendeu-se temporariamente neste ponto, para recomeçar depois de maneira mais clara e decisiva.

— É obrigada a dormir com a sua família, não? - perguntou a mulher.

— Posso ficar fora, têm confiança em mim.

— Quando se está em épocas como a de hoje, tem-se confiança em todos - sorriu a mulher e acrescentou: - portanto, pode pousar esta noite aqui.

— Quanta bondade, minha senhora; eu não sei como lhe agradecer.

— Olhe que está nas suas mãos se quer pagá-lo; é não me deixar nunca mais. É bonita, pode servir-me muito..

Eulália, corando modestamente, perguntou com a ingenuidade de quem não percebe:

— E em que a minha boniteza pode servir-lhe?

A mulher riu muito, mas percebia-se na sua risada o constrangimento da hesitação que lhe causava a naturalidade da pergunta. Por fim ponderou jovialmente:

— Isto é querer ir muito depressa; havemos de ir devagar.

Continuou a rir fazendo da pergunta de Eulália tema de comentários repetidos, até que afinal perguntou por sua vez:

— Nunca teve o seu namoradozinho lá no sertão? - E como Eulália ficasse enleada: - são perguntas que não se fazem, não é verdade? Não há 15 anos sem amor.

Eulália sorriu tristemente.

— E ficou-lhe viva a saudade deste tempo - acrescentou a mulher. - Eu fui o mesmo: a primeira vez que ri para outro, como se levantou diante de mim a imagem do meu primeiro amor. A senhora não é casada ...

A moça meneou a cabeça, ainda com maior tristeza.

— Eu também não sou, e afinal não me dei mal com isto, pelo contrário tenho vivido feliz.

— É que tem pais que a estimem e protejam.

— Também não; vivo sobre mim...

— Ah! - exclamou Eulália surpreendida.

— Custou-me a princípio, mas acostumei-me.

Metade da simpatia de Eulália pela sua hóspede dissipou-se como por encanto, e, em vez da boa vontade com que se deixava ficar, apareceu-lhe incômodo visível.

Esta mudança não passou despercebida ao olhar perspicaz da mulher, que foi logo direito ao ponto a que visava.

— Já me disse que sua família tem-lhe feito sofrer muito. Decerto tem irmãs e seus pais são velhos.

— Já não tenho pai nem mãe.

— Nem irmãos?

Eulália meneou a cabeça afirmativamente.

— Daí o medo de que aconteça alguma desgraça às suas irmãs.

Eulália olhou fixamente para a sua interlocutora.

— Desgraça inevitável aqui, principalmente se elas são bonitas como a senhora, que já é livre, e pode dispor de si.. Eu - continuou a mulher - não sei por que me interessei por si e não duvido oferecer-lhe na minha casa meios de poder decentemente velar pelos seus. Dou-lhe quanto precisar para poder aparecer. Assim terá de que viver, e evitar que depois de fomes, de tormentos de toda a sorte, as suas irmãs venham a sofrer o mal que tanto parece temer.

Eulália ficou boquiaberta diante da mulher que ousava fazer-lhe tão aviltante proposta, mas longe de indignar-se ficou imóvel e muda a encará-la.

— Está fazendo mau juízo de mim, eu percebo-o - observou a mulher -, mas pense algum tempo e verá que eu não lhe proponho senão o que todos lhe proporão. A diferença é que eu não a degradarei como os homens o farão. Pense.

Eulália, resistindo a todos os esforços feitos pela mulher para detê-la, levantou-se e saiu.

Começaram desde logo a redemoinhar-lhe no cérebro as mais extravagantes e as mais horrorosas idéias. A imagem de Paula, sobrenadando a todas elas, impunha-lhe terror e ao mesmo tempo impelia-a ao cogitar alucinado.

Chegada ao abarracamento, não pôde dormir. O cajueiro, sob o qual pousava, parecia-lhe animado, os seus ramos e folhagem convertidos em asas, e os balanços da rede afiguravam-se-lhe vôos enormes, colossais, que a arrebatavam às mais vertiginosas alturas para depois despenhá-la nos mais profundos e negros abismos, e nesses vôos, quando a infeliz ascendia, pensava nos primeiros tempos do seu amor por Paula, e, quando despenhava-se, ouvia a voz agasalhadora da mulher.

Quando a claridade triunfal do dia desacastelou-lhe do espírito os medonhos pesadelos, Eulália apressou-se em correr à casa em que estava hospedada a sua família, e aí encontrar Chiquinha.

— A caçula morre, Eulália; ela não pode resistir a esta vida; não tivemos ontem um grão de farinha e provavelmente hoje será o mesmo.

— Então não lhes deram nada?

— Você já não lhes paga...

— Sim, já não tenho com que pagar a essas malvadas.

— Elas prometeram já nos pôr fora daqui.

— Sim, prometeram, ameaçaram-me com isto, mas não o farão. Adeus, eu juro que elas não o farão.

Afastou-se quase a correr, e, com os olhos baixos, as feições demudadas, dirigiu-se à rua em que habitava a mulher, que lhe oferecera casa e meio de vida.

— Estou aqui pronta - disse ela entrando; - diga-me o que devo fazer, mas antes eu preciso de dinheiro para levar aos meus.

— Bravo; teve juízo - respondeu a mulher; - eu a porei mestra em poucos dias; descanse em mim, não lhe faltará nada.