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Os Sonhos Mortos
por Guilherme de Azevedo
Poema publicado em A Alma Nova

Embora triste a noite, a vagabunda lua
Mais branca do que nunca erguia-se nos ceus,
Igual a uma donzella ingenua e toda nua
No leito ajoelhada erguendo a fronte a Deus!

O mar tinha talvez scintillações funestas.
A praia estava fria, as vagas davam ais;
Semelhavam, ao longe, as extensas florestas
Fantasmas ao galope em monstros colossaes.

E eu vi n'um campo immenso, agreste e desolado,
Immerso no fulgor diaphano da luz,
Juncando tristemente o solo ensanguentado
Sinistra multidão de corpos semi-nus!

Tinha a morte cruel, em sua orgia louca,
Deposto em cada fronte um osculo brutal;
E um ironico rizo ainda em muita boca
Se abria, como a flôr fantastica do mal!

E eu vi corpos gentis de virgens delicadas
Beijando a fria terra, as mãos hirtas no ar,
Em sagrada nudez!... Cabeças decepadas!...
Em muito peito ainda o sangue a borbulhar!...

E sobre a corrupção das brancas epidermes
Luzentes de luar e d'esplendor dos ceus,
Orgulhosos passando os triumphantes vermes,
Da santa formosura os ultimos Romeus!

Se tu minha alma livre ainda hoje conservas
Memoria das vizões que amaste com fervor
Ahi as tens agora alimentando as ervas
De novo dando á terra o que ella deu á flôr!

São ellas! as vizões dos meus dias felizes,
Meus sonhos virginaes, as minhas illusões,
Que a seiva dão agora aos vermes e ás raizes,
Que em pasto dão seu corpo a novos corações!

São as sombras que amei, divinas, castas, bellas;
As chymeras gentis, os vagos ideaes,
Que de rozas cingi, que illuminei d'estrellas,
E que não podem já da terra erguer-se mais!