Os animaes iscados da peste

Os animaes iscados da peste
por Machado de Assis
Pertence a coletânea Ocidentais, publicada em Poesias Completas (1901), páginas 331-333.

OS ANIMAIS ISCADOS DA PESTE


(LA FONTAINE)


Mal que espalha o terror e que a ira celeste
         Inventou para castigar
Os peccados do mundo, a peste, em summa, a peste,
Capaz de abastecer o Aqueronte n’um dia,
         Veio entre os animaes lavrar;
         E, se nem tudo succumbia,
         Certo é que tudo adoecia.
Já nenhum, por dar mate ao moribundo alento,
         Catava mais nenhum sustento.
Não havia manjar que o appetite abrisse,
         Raposa ou lobo que saisse
         Contra a presa innocente e mansa,
         Rola que á rola não fugisse,
         E onde amor falta, adeus, folgança!

O leão convocou uma assembléa e disse:
«Sócios meus, certamente este infortunio veio
         A castigar-nos de peccados.
         Que o mais culpado entre os culpados
Morra por applacar a colera divina.
Para a commum saúde esse é, talvez, o meio.
Em casos taes é de uso haver sacrificados;
         Assim a historia nol-o ensina.
Sem nenhuma illusão, sem nenhuma indulgencia,
         Pesquizemos a consciencia.
Quanto a mim, por dar mate ao impeto glotão,
         Devorei muita carneirada.
         Em que é que me offendera? em nada.
         E tive mesmo occasião
De comer egualmente o guarda da manada.
Portanto, se é mister sacrificar-me, prompto.
         Mas, assim como me accusei,
Bom é que cada um se accuse, de tal sorte
Que (devemos querel-o, e é de todo ponto
Justo) caiba ao maior dos culpados a morte.»
«— Meu senhor, accudiu a raposa, é ser rei
Bom demais; é provar melindre exagerado.
         Pois então devorar carneiros,
Raça lorpa e villã, pode lá ser peccado?
         Não. Vós fizestes-lhes, senhor,
         Em os comer, muito favor.
         E no que toca aos pegureiros,
Toda a calamidade era bem merecida,
         Pois são daquellas gentes taes
Que imaginaram ter posição mais subida
         Que a de nós outros animaes.»

Disse a raposa, e a corte applaudiu-lhe o discurso.
         Ninguem do tigre nem do urso,
Ninguem de outras iguaes senhorias do matto,
         Inda entre os actos mais damninhos,
         Ousava esmerilhar um acto;
         E até os ultimos rafeiros,
         Todos os bichos resingueiros,
Não eram, no entender geral, mais que uns santinhos.
Eis chega o burro:« — Tenho ideia que no prado
De um convento, indo eu a passar, e picado
Da occasião, da fome e do capim viçoso,
         E póde ser que do tinhoso,
         Um bocadinho lambisquei
Da plantação. Foi um abuso, isso é verdade.»
Mal o ouviu, a assembléa exclama: «Aqui d’el-rei!»
Um lobo, algo lettrado, arenga e persuade
Que era força immolar esse bicho nefando,
Empesteado autor de tal calamidade;
         E o pecadilho foi julgado
                  Um attentado.
Pois comer erva alheia! ó crime abominando!
         Era visto que só a morte
Poderia purgar um peccado tão duro.
         E o burro foi ao reino escuro.

Segundo sejas tu miseravel ou forte
Aulicos te farão detestavel ou puro.