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Pagamento com contratempos


A construção do trajeto sul da linha férrea ia de vento em popa.[1] Eu era o chefe de setor; Dr. Alaro, o chefe da construção; o velho Mr. Ryant, nosso diretor geral norte-americano.[2] Dr. Alaro veio correndo ao meu escritório.

“Escute só que ideia absurda o velho teve de novo! Ele ainda acha que está na América do Norte, onde uma grande companhia pode fazer o que quiser”.

“E o que ele quer agora?”

“Como o senhor sabe, ele entregou contratualmente a construção do trajeto sul ao empreiteiro geral, o Dr. Salana[3]. Mas este o passou para trás com o contrato; pois o próprio Salana o redigiu, em função de Ryant não entender uma palavra de português. E agora Salana trabalha de modo que as obras de aterro sejam executadas sempre por ele, pois elas lhe rendem um bom faturamento, e, quando os transportes mais extensos começam, ele abandona a obra. É muito claro que não tem a menor intenção de terminar o trabalho, mas sim ficar com o seu dinheiro e se mandar. Contratualmente, Ryant não pode fazer nada contra ele”.

  1. Refere-se a construção da Linha Sul da Estrada de Ferro São Paulo – Rio Grande. Naquele momento a concessão desta ferrovia já se encontrava sob controle da Brazil Railway Company (BRC), de Percival Farquhar. Por ser empresa de origem norte americana, possuía vários engenheiros e funcionários daquela nacionalidade. (NdH)
  2. Trata-se do engenheiro Dr. Álvaro Martins, que naquele momento era Chefe da Construção. O americano Mr. Ryant era então o Diretor Geral da Construção da EFSPRG. Em algumas fontes jornalísticas seu nome aparece grafado como Bryant e identificado como “representante da Companhia no Estado” (vide, por exemplo, o Diário da Tarde, de Curitiba, de 07/07/1908). (NdH)
  3. Trata-se de A. Saldanha, um brasileiro identificado pelo jornal O Dia, de Florianópolis, como engenheiro (O DIA, 10/09/1908) e que foi empreiteiro geral da Linha Sul da EFSPRG até agosto de 1908. (NdH)