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A ILUSTRE CASA DE RAMIRES

Mas, repassando a carta, reparou n’um Post-Scriptumem lettra mais miudinha, ao canto da folha: — «No Domingo, não se esqueça, a visita será entre as cinco e cinco e meia da tarde

Gonçalo pensou: — «Será uma entrevista?» E na livraria, atirando para uma cadeira o chapeu e o chicote, assentou que era uma entrevista, bem clara, bem marcada! E talvez nem existisse esse subterraneo — e Maria Mendonça, com a sua tortuosa esperteza, o inventasse, como natural motivo de lhe escrever, de lhe annunciar que no Domingo, ás cinco e meia, a bella D. Anna e os seus duzentos contos o esperavam em Santa Maria de Craquêde. Mas então a prima Maria não gracejára, em Oliveira? Gostava d’elle, realmente, essa D. Anna?... E uma emoção, uma curiosidade voluptuosa atravessaram Gonçalo á idéa de que tão formosa mulher o desejava. — Ah! mas certamente o desejava para marido, por que se o appetecesse para amante não se soccorria dos serviços da D. Maria Mendonça — nem a prima Maria, apesar de tão sabuja com as amigas ricas, os prestaria assim descaradamente como uma alcoviteira de Comedia! E caramba! casar com a D. Anna — não!

E subitamente anciou por conhecer a vida da D. Anna! Aturára ella tantos annos, em severa fidelidade, o velho Sanches? Sim, talvez, na Feitosa, na solidão