A ILUSTRE CASA DE RAMIRES
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A comadre arreganhava os dentes magnificos n’um regalado e gordo riso: — «Ai o Fidalgo podia ficar seguro! Que o Firmino já jurára, até ao Snr. Regedor, que para o Fidalgo era todo o sitio a votar, e quem não fosse a amor ia a pau.» O Fidalgo apertou a mão da comadre — que do degrau do quinteiro, com os dous pequenos enrodilhados nas saias, e o gordo riso mais embevecido, seguiu a poeira da egoa como o sulco d’um Rei benefico.

E depois nas outras visitas, ao Cerejeira, ao Ventura da Chiche, encontrou o mesmo fervor, os mesmos sorrisos luzindo de gosto. «O que! para o Fidalgo! Isso tudo! E nem que fosse contra o Governo!» — Na tasca do Manoel da Adega, um rancho de trabalhadores bebia, já ruidoso, com as jaquetas atiradas para cima dos bancos: o Fidalgo bebeu com elles, galhofando, gosando sinceramente a pinga verde e o barulho. O mais velho, um avejão escuro, sem dentes, e a face mais engilhada que uma ameixa secca, esmurrou com euthusiasmo o balcão: — «Isto, rapazes, é fidalgo que, quando um pobre de Christo escalavra a perna, lhe empresta a egoa, e vae elle ao lado mais d’uma legua a pé, como foi com o Sôlha! Rapazes! isto é Fidalgo para a gente ter gosto!» As saudesatroaram a venda. E quando Gonçalo montou, todos o cercavam como vassallos ardentes, que a um aceno correriam a votar, — ou a matar!