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Da expedição nocturna. Á praia saltam
Os vencedores em tropel; transportam
Ás cabanas despojos e vencidos,
E, da vigilia fatigados, buscam
Na curva, leve rede amigo somno,
Excepto o chefe. Oh! esse não dormira
Longas noites, se a trôco da Victoria
Precisas fossem. Traz comsigo o premio,
O desejado premio. Desmaiada
Conduz nos braços tremulos a moça
Que renegou Tupan[1], e as velhas crenças
Lavou nas aguas do baptismo santo.
Na rede ornada de amarellas pennas
Brandamente a depõe. Leve tecido
Da captiva gentil as fórmas cobre;
Veste-as de mais a sombra do crepusculo,
Sombra que a tibia luz da alva nascente
De todo não rompeu. Inquieto sangue
Nas veias ferve do indio. Os olhos luzem
De concentrada raiva triumphante.
Amor talvez lhes lança um leve toque
De ternura, ou ja soffrego desejo;
Amor, como elle, asperrimo e selvagem,
Que outro não sente o heroe.

  1.     Tinham os indios a religião monotheista que a tradicção lhes attribue? Nega-o positivamente o Sr. Dr. Couto de Magalhães em seu excellente estudo acerca dos selvagens, asseverando nunca ter encontrado a palavra Tupan nas tribus que frequentou, e ser inadmissivel a ideia de tal deus, no estado rudimentario dos nossos aborigenes.
        O Sr. Dr. Magalhães restitue aos selvagens a theogonia verdadeira. Não integralmente, mas so em relação ao sol e á lua (Coaracy e Jacy), acho noticia della no Thesouro do padre João Daniel (citado na nota A); e o que então faziam os indios, quando apparecia a lua nova, me serviu á composição que vae incluída neste livro (pag. 155).
        Sem embargo das razões allegadas pelo Sr. Dr. Magalhães, que todas são de incontestavel procedencia, conservei Tupan nos versos que ora dou a lume; fil-o por ir com as tradicções litterarias que-achei, tradicções que nada valem no terreno da investigação scientifica, mas que tem por si o serem acceitas e haverem adquirido um como direito de cidade.