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ESPUMAS FLUCTUANTES

Morrer... quando este mundo é um paraiso,
E a alma um cysne de douradas plumas:
Não! o seio da amante é um lago virgem...
Quero boiar á tona das espumas.
Vem! formosa mulher — camelia pallida,
Que banharam de pranto as alvoradas.
Minh′alma é a borboleta que espaneja
O pó das azas lucidas, douradas...

E a mesma voz repete-me terrivel,
Com gargalhar sarcastico: — Impossivel!

Eu sinto em mim o borbulhar do genio;
Vejo além um futuro radiante:
Avante! — brada-me o talento n′alma
E o echo ao longe me repete — Avante!
O futuro... o futuro... no seu seio...
Entre louros e bençãos dorme a gloria!
Após — um nome do universo n′alma,
Um nome escripto no Pantheon da historia.

E a mesma voz repete funeraria:
— Teu Pantheon — a pedra mortuaria!

Morrer — é ver extincto dentre as nevoas
O phanal, que nos guia na tormenta:
Condemnado — escutar dobres de sino,
— Voz da morte, que a morte lhe lamenta.