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de amiga, e assim ficamos longo tempo, calados ambos.

As moscas, acordadas essa noite com a presença de um cadáver na casa, zumbiam alegres no silêncio do quarto.

César desviou-se do meu colo e deixou-se ficar cabisbaixo, com as mãos nas minhas. Compreendi que nesse instante o meu pensamento ia caminhando ao lado dele, em silêncio, como dois velhos e tristes companheiros inseparáveis; e por fim o nosso pensamento foi se derretendo apenas em palavras, apenas balbuciadas. César começou a falar em voz muito baixa, soturnamente, como se temesse acordar a irmã, que dormia lá na sala, no seu leito frio. Falava em segredo, com o rosto quase unido ao meu, numa surda conspiração contra a vida. Era o resíduo do seu pobre coração, já de muito tempo despedaçado, que vinha agora assim diluído pelas lágrimas.

E ele murmurou, como num sonho:

— Ultimamente, minha Olímpia, uma estranha amargura me persegue... a nosso respeito — uma dor secreta, penosa como um arrependimento tardio... alguma coisa da mágoa de não ter colhido a felicidade, no bom momento em que ela