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vive dos sentidos e não do sentimento... se tivéramos algum dia unido os nossos corpos, as nossas almas estariam hoje separadas! Se algum dia tivéramos tido em nosso consórcio, que foi tão claro e tão casto, outros laços que não o desta profunda e delicada afeição que nos irmana; hoje, que somos velhos ambos e pois inúteis para a sensualidade, não teríamos — tu em mim a tua consoladora amiga; eu em ti o meu derradeiro amor...

César encarou-me surpreso:

Como assim? Pois eu negava o amor dos sentidos ligados ao sentimento do amor?...

— Certamente. Na língua não há palavras para exprimir essas duas coisas tão diversas e até tão opostas: — o amor produzido pelo instinto sensual e o amor produzido pela simpatia a atração moral de dois espíritos, que se procuram e se casam. O grande erro do casamento vulgar, o que o torna insuportável, é pretender aliar o instinto da procriação com o sentimento do amor ou da amizade, que nada tem a ver com ele e até o repele. O irracional também é como o homem suscetível de apego de amizade, nunca porém se preocupa com isso,