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duas almas amigas, que se estremecem e se buscam, através, de uma existência inteira; e afinal se abraçam, não para a satisfação do amor, mas para afugentar o medo que, separadas e sozinhas, sentiria cada uma no frio resto do seu caminho já ensombrado pela morte?...

Não, com certeza, ninguém compreenderia! Não obstante, esse casamento, singular embora, era perfeitamente lógico e era essencialmente humano! Em que e por que o amor e os reclamos da alma valem e merecem menos que as sensuais necessidades do corpo?... Acaso a solidariedade da carne, instinto de todo animal, é mais digna que a solidariedade do espírito, privilégio exclusivo do homem?... Pois tão facilmente aceitavam todos e compreendiam a conveniência de um companheiro para os nossos sentidos inconscientes, e não compreenderiam a razão de um companheiro para o nosso espírito, que é a parte racional do ser humano, o que o sobreleva dos brutos e o que o aproxima de Deus?...

Não, ninguém compreenderia!... Entretanto, aquele casamento seria de grande utilidade, nem só para meu velho amigo, como