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nossos olhos, porque nunca entre nós esvoaçou a asa do mais fugitivo menoscabo, e porque tínhamos sido sempre, na mocidade, e éramos e continuávamos a sê-lo na velhice, os mesmos amigos castos, os mesmos irmãos amorosos, cujas idéias e cujas revelações de gestos e palavras jamais foram postas entre nós ao serviço da luxúria e das vergonhosas e inconfessáveis imundícias da carne!

Oh! juro que eu era, como esposa, ainda mais feliz que minha filha, para cuja felicidade trabalhei eficazmente durante toda a minha vida de mulher.

Sim, fui e sou feliz, apesar da moléstia que me vai minando a existência. Sou agora, neste momento em que escrevo estas palavras, a mais venturosa das mães, a mais enternecida das avós e a mais bem-aventurada das esposas. Enquanto escrevo isto, sinto perto, bem perto de mim, o meu amigo amado, que aí está a dois passos, descansando numa poltrona, a fumar o seu charuto, enquanto lê um jornal. Ouço-lhe com volúpia o fraco e curto resfolegar de velho, afinado pela minha respiração de enferma e pela débil respiração do meu netinho. Sinto, pensando nisto, invadirem