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NOVELLAS EXTRAORDINARIAS

Haveria decorrido meia hora ou uma hora, talvez (porque não tinha meio de medir o tempo precisamente) quando tornei a levantar os olhos para o tecto. O que então vigelou-me de pavor! O percurso do pendulo tinha avançado quasi uma jarda; a sua descida era evidente e a sua velocidade muito maior.

Notei então (não preciso dizer com que espantoso terror!) que a sua extremidade inferior tinha a fórma de um crescente de aço scintillante, tendo pouco mais ou menos um pé de comprimento, d'um ao outro bico. Estes estavam voltados para cima; e o gume inferior, afiado como uma navalha de barba, dilatava-se a partir do fio, n'uma fórma larga e solida. Estava preso a uma grossa vara de cobre, e tudo aquillo sibilava balouçando-se no espaço.

Adivinhei immediatamente a sorte que me tinha preperado a atroz imaginativa monacal. Os agentes da inquisição tinham-me visto descobrir o poço (o poço cujos horrores eram reservados aos hereges temerarios como eu! o poço symbolo do inferno, considerado pela opinião como Ultimo Thule de todos os castigos!) Ora, como a arte de fazer do supplicio uma surpresa, formava um ramo importante de todo aquelle phantastico systema de execuções secretas, desde o momento em que eu tinha, pelo mais fortuito dos accidentes, escapado ao abysmo, não entrava no plano demoniaco precipitar-me n'elle. Estava pois votado (e d'esta vez sem alternativa possivel) a um novo modo de destruição.

Para que hei de relatar as longas, longas horas de agonia mais que mortal, durante as quaes contei as oscillações vibrantes do aço?

Pollegada por pollegada, linha por linha, a machina terrivel operava uma descida graduada, só apreciavel a intervallos, que me pareciam seculos! E descia sempre,