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curou lêr a Gazeta de Portugal, em que collaborava.

E assim, na mudez discreta da noite, na voluptuosa penumbra da salêta, aquelles dois esposos, na apparencia tão proximos, ambos novos, ambos amantados na caricia do mesmo ambiente perfumado e môrno, obstinavam-se longe, muito longe um do outro: elle galopando o destrambelhamento do seu vicio; ella deliciando a imaginação e envenenando os sentidos na tragedia dissolvente de Madame Bovary.



Era logico. Derivava naturalmente da indole, da educação, das condições de ligação dos dois esta situação mortificante.

O barão garfava por enxertia duplamente bastarda em duas das mais antigas e illustres familias de Portugal. Assinava — D. Sebastião Pires de Castro e Noronha. O dom trazia-lhe origem dos Castros, carugento appellido castelhano, évo de oito seculos, que passára ao nosso paiz, ainda méro feudo leonense, por occasião do casamento de D. Fernando, filho do rei de Portugal e Galliza, D. Garcia, com D. Maria Alvares, senhora da villa de Castro Xeris, e descendente de Laim Calvo, o afamado jurisconsulto. E’ de saber que este glorioso talo genealogico dos Castros, refolhou, em Hespanha, nos condes de Lemos; e, entre nós, nos condes de Basto, de Mesquitella, de Monsanto e de Rezende (primeiros almirantes-móres do reino), e nos senhores do Cadaval. Deu ainda tão preclara cêpa da nossa horta heraldica esse lendario grêlo da isenção e da honra, que foi o grande D. João de Castro. Mas a casa de Mon-