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Várias figurações de Ganimedes tocaram-no igualmente, a saber: a encantadora estátua em mármore de Carrara, do Vaticano, achada em Óstia em 1800; o famoso Rapto de Ganimedes, de Rubens, no museu real de Madrid; o fresco de Carrache, em Roma; em Florença, a tela de Gabbiani. O mesmo com o célebre Aquiles, em mármore, do museu do Louvre, soberbo estudo do nu pertencente à época chamada do estilo sublime, e que passa por cópia de um trabalho de Alcamenes, o discípulo predileto de Fídias. O mesmo com os Narcisos, os Batilos, os Hermes, os Adónis, os Evangelistas, as Madalenas, as Fornarinas, — com os motivos mais humanamente plásticos de todas as religiões e de todos os tempos.

De tudo isto comprou quanta reprodução lhe apareceu. Voltou com o gosto educado, apurado, sábio, e com a sede dos largos prazeres ignorados a chamejar-lhe cada vez mais mordente nos grandes olhos negros. A estupidez pacata do nosso meio exacerbava-o, estimulava-lhe a fantasia. O que a contingência externa lhe não dava, D. Sebastião arrancava-o encarniçadamente a um trabalho desfibrinante de evocação interior. Criava, sonhava, concebia caprichos inverosímeis, que ora conseguia realizar a muito custo, ora se limitava a saborear, mercê de um longo dispêndio imaginativo, na solidão da sua alcova.

Em 1860 morreu-lhe o pai. Ele era filho único e único representante daquele ramo da família. Tomou conta da casa, — uns quatro contos de renda, se tanto, — e continuou desperdiçando loucamente a juventude em aventuras galantes, em pândegas, em devassidões imprevistas. Para mais,